Mário Viegas O actor inquieto

Foi um homem de extremos, a quem as coisas sérias davam vontade de rir.
Mas o teatro não era uma brincadeira. Levou a vida toda no palco, como actor e encenador.
"Dava-nos isso, o acto sagrado do teatro." Por Francisca Gorjão Henriques

Actor, encenador, declamador. Excessivo, dramático, obsessivo. Mário Viegas foi uma das figuras mais carismáticas do teatro português do século XX. Há dez anos, no dia das mentiras, pregava a sua última partida, partindo. Morreu com sida, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. "Quem disse que não há pessoas insubstituíveis?"
A dedicação à palavra não foi um acaso - ao longo dos seus 47 anos de vida, Mário Viegas actuou, encenou, traduziu peças, escreveu crónicas, declamou poesia, gravou discos, fez cinema, teve programas de televisão e de rádio. E começou cedo. Espantou a própria família quando, com quatro anos, leu em voz alta uma placa a dizer "café, restaurante": ninguém sabia que ele já lia. O pai queria-o farmacêutico, como era tradição da família. Mas o teatro era a sua vida e a sua morte, diria mais tarde.
Foi sempre actor, mesmo quando declamava. Passou a vida no palco. Desde o teatro amador, que iniciou em Santarém (onde nasceu e viveu até ir para Lisboa, aos 17 anos), até se profissionalizar, em 1968, no Teatro Experimental de Cascais; foi um dos fundadores da Barraca, do Novo Grupo-Teatro Aberto e da Companhia Teatral do Chiado (CTC).
Pode não ter criado escola, por ter um estilo muito próprio e talvez irrepetível. Mas marcou o teatro em Portugal, principalmente como actor, diz ao PÚBLICO o encenador João Lourenço. "Tinha a capacidade de ser sempre bom e às vezes genial." "Nas personagens que criava, havia sempre uma inquietação interior muito grande. Era essa inquietação que o tornava extraordinário e às vezes também vulnerável."
João Lourenço, que "talvez tenha sido a pessoa que mais o dirigiu", ainda dá por si a pensar em Viegas para certos papéis. Diz sem hesitações que um dos trabalhos mais notáveis foi O Suicidário, de Nicolai Erdman, apresentado em 1983. O próprio Viegas escolheu outro: Baal, de Bertolt Brecht, também encenado por Lourenço, três anos antes: "As pessoas disseram que eu estava muito preso, reprimido, frio... Afinal foi o meu melhor trabalho de sempre!".
"Provou que era excepcional em teatro e em cinema", comenta o encenador Helder Costa. E isso só era possível por ser "muito culto, com uma visão aberta e livre", e obsessivamente trabalhador. "Aquele ar boémio e anárquico era falso em relação ao que se chama trabalho. Trabalhava muito."
Improvisava até chegar ao texto, rasgando o guião à medida que o ia decorando. Não gostava de trabalhar com papéis na mão e detestava pontos. Usava o método do Actor"s Studio: estudava primeiro a personagem, construía-a por dentro.
O processo requeria esforço e dedicação. Como no caso de D. João VI, apresentado na Barraca, em 1979: "Uma personagem que exigia não ser tratada a traço grosso" e onde foram estudados os limites do uso da caricatura e do ridículo, afirma Helder Costa, que dirigiu a peça. Sobre ela, Viegas escreveu: "Eu gosto de trabalhar à base da emoção e, portanto, só indo à nossa experiência, à memória da própria vida e da nossa história, é que podemos encontrar coisas que nos emocionem".
Mário Viegas "passava a credibilidade do seu jogo teatral, quer fosse cómico, ou dramático", resume Helder Costa.
A actriz Manuela de Freitas ressalva: "Como actor, às vezes era menos rigoroso e ia atrás de uma facilidade. Comparo-o com a Laura Alves: por um lado, tinha uma consciência do sagrado que era o teatro; por outro, ia pelo que o público gostava".

"Era energia atómica"
Transformava as suas personagens em composições humanas. E transforma-se a si próprio numa personagem. Quem o conheceu, sabe que era um homem de extremos. "Cada coisa que ele fazia, fazia-o absolutamente. Era absolutamente carinhoso e amoroso, e absolutamente sinistro", diz Manuela de Freitas. "Era energia atómica: tanto dá para Hiroxima, como para curar doenças. Tanto dá para o bem, como para a destruição."
A actriz, que entrou, entre outros, em Deus os Fez, Deus os Juntou (1988), a partir de textos de Tchekov, fala da sua encenação como uma "mistura extraordinária entre a cedência ao gosto do público e um rigor total". "Ele podia fazer o que quisesse, tinha o leque todo. Ia ao fundo do que era o teatro. Dava-nos isso, o acto sagrado do teatro."
A distância entre público e palco era curta. Especialmente nas suas peças a solo Mário Gin Tónico (1986), Mário Gin Tónico Volta a Atacar (1991), Totó (1992) e Europa não! Portugal Nunca! (1994/95) - em que, em jeito de conferência de imprensa de "pré-pré-candidatura" à Presidência da República, os espectadores eram chamados a intervir. Tal como nos poemas que escolhia para declamar (ver texto ao lado), também aqui era óbvia a preocupação cívica por trás da crítica social.
Foi Kilas, o Mau da Fita (realizado por José Fonseca e Costa, 1981). Mas, "se houvesse que escolher" o seu filme preferido, seria O Rei das Berlengas (1975/76), de Artur Semedo, sobre o qual escrevia no Expresso o crítico Jorge Leitão Ramos, poucos dias depois da morte de Viegas. "Aí encontramos aquilo que se poderia chamar um actor em estado bruto, sem lapidação, indirigido. O cómico do esgar facial e da truculência, do excesso turbulento e sem margens, autocomplacente, capaz de provocar a gargalhada de primeiro grau e mal se podendo saber se distingue entre o devido e o mau gosto. Mas também se encontra o actor capaz de fazer fundir o estado de riso e o patético - numa linha que muito poucos são capazes de pisar -, juntando o humor e o aperto no coração..."
O actor Raul Solnado escreveu o que muitos dizem dele: "Quem diz que ninguém é insubstituível, diz uma vulgaridade absoluta".

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