Ser médico na Ucrânia tornou-se “uma corrida contra o tempo”

São centenas os feridos que chegam todos os dias às urgências dos hospitais ucranianos. Numa guerra imprevisível e devastadora, os Médicos Sem Fronteiras correm contra o tempo para ajudar todos os que conseguirem.

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Vova, criança de sete anos, recebe tratamento médico em Kharkiv EPA/VASILIY ZHLOBSKY

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Há duas semanas que as forças russas bombardeiam território ucraniano. A invasão tem sido rápida, imprevisível, violenta. Assim a descreve Claire Hawkridge, porta-voz dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Ucrânia.

“Assistimos a uma escalada do conflito: bombardeamentos aéreos, combates em várias frentes”, descreveu Claire, ao telefone com o PÚBLICO. “Sabemos de hospitais que estão perto do seu limite, onde os recursos escasseiam. É muito difícil curar pessoas sem meios para tal.”

A situação em Mariupol, reforçam os MSF, é particularmente difícil. Nos últimos dias o governo ucraniano e as autoridades locais denunciaram as consequências do cerco russo à cidade: há pessoas presas em bunkers sem comida, água, electricidade ou cuidados médicos.

“Temos colegas dos MSF em Mariupol com quem conseguimos falar ocasionalmente, mas até a comunicação é muito difícil”, explica Claire Hawkridge. “Dizem-nos que as carências são gigantescas, com lojas e supermercados fechados. Torna-se cada vez mais preocupante.”

Até esta quinta-feira foram registadas pelo menos 1207 mortes em Mariupol, onde já foi cavada uma vala comum por serem demasiados os corpos para sepultar individualmente.

São “dezenas, centenas” as pessoas que chegam aos serviços de urgência dos hospitais ucranianos. A par da enorme afluência aos serviços de saúde, as forças russas têm dirigido ataques sucessivos a instalações médicas. Prestar cuidados adequados é cada vez mais difícil.

“As consequências deste conflito vão notar-se também na saúde dos ucranianos que ficam”, relembram os MSF. “Há problemas que precisam de cuidados urgentes e é um esforço árduo dar resposta a todas as necessidades no meio de uma guerra”, sem segurança e sem recursos.

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Paramédicos ajudam uma criança a entrar num comboio posto ao serviço da resposta médica YARA NARDI/Reuters

Um cenário de guerra não é um choque para estes médicos. Têm usado a experiência noutros países para ajudar quem está na linha da frente a tratar ferimentos de guerra ou a gerir ataques em grande escala, que fazem disparar os números de feridos.

Além do bombardeamento do hospital pediátrico de Mariupol nesta quarta-feira, a ONU disse esta quinta-feira que mais duas maternidades foram destruídas. Na quarta-feira, a OMS adiantou que já são 18 os ataques a hospitais ucranianos. São exemplos de ataques em grande escala, com alvos evidentes.

Os Médicos Sem Fronteiras estão em contacto com os hospitais locais e sabem que não estão a receber bens e medicamentos suficientes. Mas alertam: é importante perguntar o que faz falta antes de ajudar.

“Os hospitais precisam de apoio tão rápido quanto possível. A capacidade das instalações e dos profissionais tem um limite”, acrescentou Claire Hawkridge, que falou com o PÚBLICO a partir da zona oeste ucraniana. “Há excelentes profissionais de saúde na Ucrânia, mas uma guerra muda tudo.”

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YARA NARDI/Reuters

Sobre o que acontecerá nos hospitais se a invasão continuar a avançar ao mesmo ritmo, os MSF não fazem previsões: “Não sabemos quando isto acabará, mas o importante agora é ajudar os serviços de saúde.”

Entre os médicos, a sensação no terreno é de que têm de se mover tão rápido quanto possível. Este combate acontece “rápido, é imprevisível”, talvez mais do que é habitual noutros territórios em guerra. “Ser médico aqui é, agora, uma corrida contra o tempo.”