“Solidária com Neil Young”, Joni Mitchell retira o seu catálogo do Spotify

Contestação ao gigante do streaming aumenta, depois de este ter recusado o ultimato do músico canadiano, que pedia a remoção do podcast de Joe Rogan por espalhar desinformação e mentiras sobre a covid-19.

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Joni Mitchell em Dezembro de 2021 Shawn Miller/CREATIVE COMMONS

“Decidi retirar todas as minhas músicas do Spotify. Pessoas irresponsáveis estão a espalhar mentiras que ameaçam a vida das pessoas”, escreveu a cantora e compositora Joni Mitchell na sua página oficial na Internet, anunciando o seu boicote àquele gigante do streaming. “Estou solidária com Neil Young e com a comunidade científica e médica mundial sobre este assunto.”

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“Decidi retirar todas as minhas músicas do Spotify. Pessoas irresponsáveis estão a espalhar mentiras que ameaçam a vida das pessoas”, escreveu a cantora e compositora Joni Mitchell na sua página oficial na Internet, anunciando o seu boicote àquele gigante do streaming. “Estou solidária com Neil Young e com a comunidade científica e médica mundial sobre este assunto.”

Com esta decisão, concretizada durante a madrugada, a artista canadiana torna-se o primeiro nome de peso a abandonar o catálogo do Spotify após o diferendo entre a plataforma de streaming e o também canadiano Neil Young, que acabou por resultar na remoção do catálogo de canções do músico. Incomodado com o papel de um dos podcasts mais populares do serviço, The Joe Rogan Experience, na difusão de desinformação e mentiras sobre a covid-19, Young solicitara à plataforma a remoção daquele conteúdo, ameaçando que se tal não acontecesse as suas músicas deixariam de estar disponíveis no Spotify.

“Temos uma política rigorosa em relação aos conteúdos e retirámos cerca de 20 mil episódios relacionados com covid-19 desde o início da pandemia. Lamentamos a decisão de Neil de remover a sua música do Spotify, mas esperamos que regresse em breve”, respondeu o Spotify, negando o pedido do músico, expresso numa carta aberta, para “cancelar” o podcast de Joe Rogan. Nessa carta, Neil Young recordava que soube do “problema” depois de um grupo de mais de duas centenas de cientistas, professores e especialistas em saúde pública ter pedido ao Spotify para retirar um episódio do programa de Rogan datado de 31 de Dezembro, no qual o comediante aconselhou os jovens saudáveis a não tomarem a vacina.

A Apple Music está a aproveitar esta oportunidade para se promover nas redes sociais como “a casa de Neil Young”, a plataforma onde se pode ouvir todo o seu catálogo. E, no Twitter, várias pessoas anunciaram que estavam a ouvir Neil Young no Tidal, um serviço de streaming de música concorrente. Desde quinta-feira, as hashtags #SpotifyDeleted e #CancelSpotify estão entre as mais utilizadas no Twitter, tal como notou a Billboard.

Na sexta-feira, Neil Young anunciou na sua página oficial na Internet, The Neil Young Archives, que se sentiu melhor depois de sair do Spotify. E apelou a que os ouvintes optem por outras empresas de streaming, como a Amazon, a Apple Music e a Qobuz, que distribuem a música sem perda de qualidade sonora. “Se vocês apoiam o Spotify, estão a ajudar a destruir uma forma de arte. A colocar os negócios acima da arte. O Spotify passa as músicas dos artistas com 5% da sua qualidade [original] e cobra aos seus assinantes como se não o fizesse. (…) Mudem para uma das alternativas – para empresas que apoiem as artes. Com som de qualidade.”

O músico conta ainda que conheceu Danile Ek, o CEO e um dos fundadores do Spotify, no início do projecto. Nessa altura acreditou que ele ia fazer alguma coisa válida, mas isso foi há muito tempo e agora Young interroga-se sobre o que se terá passado.

“Eu apoio a liberdade de expressão. Nunca fui a favor da censura. As empresas privadas têm o direito de escolher com o que lucrar, assim como eu posso optar por não ter a minha música numa plataforma que espalha desinformação prejudicial. Estou feliz e orgulhoso por estar solidário com os profissionais de saúde que estão na linha da frente e que arriscam as suas vidas todos os dias para ajudar os outros”, acrescenta o músico de 76 anos.

“Vermes em vez de música”

Como escreve o The New York Times, Neil Young e Joni Mitchell têm uma longa história juntos. Não só são os dois canadianos, como ambos foram importantes agentes de mudança da música popular a partir do sul da Califórnia, no final dos anos 1960 e nos anos 1970. No Spotify, Mitchell aparece como tendo uma média de 3,7 milhões de ouvintes mensais. Duas das suas músicas, Big yellow taxi e A case of you, já foram ouvidas mais de 100 milhões de vezes.

Além de Joni Mitchell, também o britânico Lloyd Cole decidiu retirar-se esta sexta-feira do Spotify em solidariedade com Neil Young. “Cancelei minha conta pessoal do Spotify. Sinto raiva e tristeza. Durante anos recusei inscrever-me no mecanismo que me minava o sustento, por fim assinei e estava a gostar do interface, enquanto utilizador. Mas quando eles escolhem vermes em vez de música, devemos rejeitá-los, não devemos? Espero que a Universal Music faça o mesmo”, escreveu o músico britânico na sua conta de Twitter.

E acrescentou: “Já pedi ao meu agente para fazer o que nos for possível para remover as minhas músicas do Spotify. A Universal controla o meu catálogo dos anos 90 e dos The Commotions. Espero que eles queiram estar do lado certo neste momento.” Seguiram-se mais alguns tweets sobre as dificuldades que estava a encontrar, como assinante do Spotify, para conseguir cancelar a sua assinatura.

Segundo a Rolling Stone, Peter Frampton e David Crosby vieram igualmente declarar o seu apoio a Neil Young.