Alguns vencedores e vencidos

Das eleições presidenciais de domingo saíram vencedores e vencidos óbvios, mas também outros para os quais os resultados terão leituras relevantes, como são os casos dos líderes dos partidos.

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Marcelo na noite de domingo. O resultado reforça a sua legitimidade política Daniel Rocha

Vencedores

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Vencedores

Marcelo Rebelo de Sousa

As reeleições são difíceis, mas Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu uns confortáveis 61,2% dos votos, um score distante dos 52% da segunda eleição de Cavaco Silva. Apesar da pandemia e da abstenção, confirmou-se a grande popularidade do Presidente da República entre os portugueses. O resultado reforça a legitimidade política de Marcelo para servir de contrapeso ao Governo e para, se assim o entender, até fazer um segundo mandato diferente do primeiro, bastante mais crítico do Governo, um hábito entranhado nos presidentes da democracia. A percentagem obtida dá-lhe “mãos livres”. 

António Costa

Desde o dia em que, num estranho happening na Autoeuropa, o primeiro-ministro sugeriu a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa que se percebeu que a aposta de António Costa era o apoio ao actual Presidente. A candidatura de Ana Gomes trocou-lhe as voltas e o PS acabou a declarar liberdade de voto, mas basta analisar o comunicado da Comissão Política em que se discutiu as presidenciais para perceber que os os órgãos socialistas dedicavam alguns parágrafos a elogiar o mandato de Marcelo, enquanto ofereciam a Ana Gomes apenas três palavras — “distinta militante socialista”. A verdade é que uma votação esmagadora em Ana Gomes teria sido uma grande derrota para Costa, e isso não aconteceu. Resta agora aguardar pelo futuro da coabitação, habitualmente mais ácida nas repetições.

Ana Gomes

Esteve praticamente sozinha em campo “minado”, com o PS “oficial” maioritariamente dedicado a Marcelo. Os seus (poucos) apoiantes de peso tiveram aparições curtas e a pandemia não ajudou a campanha. Apesar de tudo, conseguiu quase 13%, um resultado bastante superior ao de Maria de Belém — a sua antecessora que se candidatou contra o PS “oficial”, há cinco anos, e conseguiu uns escassos 4,24%, quando a maioria dos dirigentes socialistas concentrou os seus votos em Sampaio da Nóvoa. Ficou à frente de André Ventura (por pouco), mas fica na história como a mulher candidata que mais votos obteve numa eleição presidencial. Nas últimas eleições, Marisa Matias tinha conseguido 10% e Maria de Lourdes Pintasilgo, em 1986, 7,38%. 

André Ventura 

André Ventura ficou em terceiro lugar numas eleições a que concorreu pela primeira vez. Deputado único no Parlamento, onde chegou em 2019 com 1,29% dos votos, Ventura conseguiu nas presidenciais quase 500 mil votos, o que correspondeu a quase 11,9% dos votos. Roubou votos à direita e à esquerda (em distritos do Alentejo ficou à frente do candidato comunista), ficou em segundo lugar em vários distritos, mas falhou objectivos que tinha para si: ficar em segundo no país, ter mais de 12% e ter mais votos do que a esquerda toda. Acabou a noite a pedir a demissão porque falhou o objectivo a que se tinha proposto: ficar em segundo. 

Tiago Mayan Gonçalves

O candidato da Iniciativa Liberal acabou por fechar a noite melhor do que começou, ao evitar o último lugar (onde passou várias horas) e ficando à frente de Vitorino Silva, conhecido como “Tino de Rans”. Tiago Mayan Gonçalves ficou perto dos 3,2%, com 134 mil votos, mais 66 mil do que em 2019 (legislativas). Esta foi a primeira vez que a Iniciativa Liberal concorreu a eleições presidenciais, depois de chegar ao Parlamento em 2019, onde conseguiu sentar um deputado único por ter obtido 67.681 votos. A onda liberal não varreu o país, mas pode dizer-se que há mais uma voz para passar a mensagem do partido recém-criado. 

Vencidos

Francisco Rodrigues dos Santos

O líder do CDS cantou vitória  é verdade que o candidato apoiado pelo partido, Marcelo Rebelo de Sousa, ganhou as eleições —, só que Francisco Rodrigues dos Santos não percebeu ainda bem o que lhe aconteceu e como a ascensão de André Ventura, e previsivelmente também do Chega, ameaça a continuidade do CDS como partido parlamentar  e as sondagens já têm dado pistas neste sentido. Parte do sucesso de Ventura também se deve à inexistência do CDS, que, no seu mandato, tem-se conseguido afundar ainda mais para lá dos fracos resultados das últimas legislativas. Não são discursos de vitória que escamoteiam o essencial: à direita do CDS já não há uma parede. 

Rui Rio

Não lembra ao diabo vir dizer que as eleições são “uma derrota do PS” quando é sabido que a maioria do PS institucional declarou o seu apoio a Marcelo Rebelo de Sousa. Rio pode ter alguma razão quando diz que o fenómeno Ventura pode ser transversal, mas dificilmente haveria fenómeno Ventura com este peso eleitoral se o PSD tivesse uma liderança forte, o que permite agora a Ventura gritar que “não haverá Governo sem o Chega”. Portanto, os resultados destas presidenciais permitem-nos extrapolar que Rui Rio estará nas mãos do “Chega” se quiser chegar ao poder  como aconteceu nos Açores. E não haverá pior cartão-de-visita para afugentar o eleitorado moderado, que votou Marcelo, do centro, onde se ganham as eleições

Marisa Matias 

Foi uma das derrotadas da noite. Há cinco anos, nas presidenciais de 2016, a candidata do Bloco de Esquerda teve 10,2% dos votos, mais de 424 mil votos. Nas eleições deste domingo, ficou-se pelo quinto lugar — sendo a candidata da esquerda que menos votos recebeu. Teve pouco mais do que 164 mil votos. Além disso, já não é sua a marca de mulher com mais votos em eleições presidenciais. Não só em percentagem como em número de votos. O movimento #VermelhoEmBelém (em reacção aos insultos de André Ventura) pode ter dado ânimo à sua campanha, que a meio caminho estava a perder fôlego, mas não parece ter tido interferência nos resultados. ​ 

João Ferreira

O candidato comunista fechou a noite eleitoral com pouco mais de 4% dos votos e pouco acima do que conseguiu Edgar Silva em 2016, que teve 3,95% (foi, então, o pior resultado dos comunistas numas eleições presidenciais). Note-se que João Ferreira é uma cara mais conhecida do eleitorado PCP do que era Edgar Silva. O comunista conseguiu ainda assim ficar à frente de Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, invertendo posições face a 2016, mas viu-se ultrapassado pelo candidato do Chega, que, embora dispute um espaço político diferente, conseguiu ficar à frente do PCP em distritos que são bastiões comunistas, como Évora e Beja. 

Vitorino Silva

Não é a primeira vez que Vitorino Silva, mais conhecido como “Tino de Rans”, se candidata às presidenciais. Fê-lo pela primeira vez em 2016, tendo conseguido 3,28% dos votos, o que correspondeu a 152 mil votos. Mas apesar de naquele ano Tino de Rans até ter conseguido aproximar-se do resultado do PCP, desta vez ficou em último lugar, com pouco mais do que 122 mil votos. Além disso, perdeu na sua freguesia  a de Rans, no concelho de Penafiel.