Covid-19: pandemia obriga a uma redução acentuada do pessoal e das actividades dos museus em todo o mundo

Conselho Internacional dos Museus volta a expor, em números, o impacto da covid-19 em centenas de museus espalhados pelo mundo. Novo relatório foi divulgado esta segunda-feira.

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Estudo mostra que, apesar de tudo, os museus que melhor têm resistido à crise são os públicos. Aqui o Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra Adriano Miranda

Os museus não fugiram, como não poderiam fugir, aos efeitos dramáticos da pandemia. Depois de um primeiro relatório em Maio, que dava conta de que cerca de 95% dos museus que responderam ao inquérito se encontravam fechados, o Conselho Internacional de Museus (ICOM), o braço da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação a Ciência e a Cultura) para o sector, vem agora divulgar os resultados de uma nova análise ao impacto da covid-19 nestas instituições que fazem parte da espinha dorsal do meio cultural de qualquer país.

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Os museus não fugiram, como não poderiam fugir, aos efeitos dramáticos da pandemia. Depois de um primeiro relatório em Maio, que dava conta de que cerca de 95% dos museus que responderam ao inquérito se encontravam fechados, o Conselho Internacional de Museus (ICOM), o braço da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação a Ciência e a Cultura) para o sector, vem agora divulgar os resultados de uma nova análise ao impacto da covid-19 nestas instituições que fazem parte da espinha dorsal do meio cultural de qualquer país.

O novo documento mostra que, tendo de lidar com uma perda substancial dos seus recursos financeiros, os museus se viram obrigados a reduzir as suas actividades e a dispensar funcionários. 

Dos 900 museus e funcionários de cinco continentes que entre 7 de Setembro e 18 de Outubro responderam a este segundo inquérito do ICOM — que ainda não reflecte, note-se, o impacto dos novos encerramentos e dos horários reduzidos ditados pela segunda vaga da própria pandemia — 16% declararam ter despedido, pelo menos, um quarto do pessoal entre Fevereiro e Setembro de 2020. 

Os trabalhadores permanentes são alvo de dispensa em 30,9% dos museus, número que sobe para 46,1% quando os visados são os colaboradores temporários.

Estes valores são particularmente graves para 10,6% das instituições, em que os trabalhadores dispensados representam mais de metade do efectivo, sendo a América do Norte a campeã dos despedimentos, com mais do dobro dos executados na Europa, um factor a que não deverá ser alheia, estimamos, a disparidade das leis laborais. Enquanto nos Estados Unidos 52% dos museus garantem que vão despedir funcionários, na Europa esse valor desce para 25,2%.

Entre os trabalhadores independentes que responderam ao inquérito, 10,7% dizem ter sido dispensados e 16% não viram os seus contratos renovados. Não é, por isso, inusitado que 27,5% estejam a planear uma mudança radical de carreira.

Financiamento público e privado

De acordo com este estudo, o modelo de gestão de museus que melhor tem vindo a resistir à crise provocada pela covid-19 é o que tem como principal financiador o Estado — 68,5% dos museus inquiridos estão nesta situação, ao passo que 33,8% confiam essencialmente em receitas próprias, que caíram a pique com a brutal quebra no número de visitantes

Os museus norte-americanos, cujo modelo assenta no sector privado e na sua capacidade de o cativar, estão, por isso, entre os mais afectados.

Os museus públicos, garante o ICOM, reduziram menos o seu plano de actividades e dispensaram menos pessoas mas, ainda assim, a situação é preocupante. No plano geral, a redução do número de exposições ronda os 62% e a de outros programas é de 67,4%.

Naturalmente, as expectativas quanto à quebra de receitas são tudo menos animadoras: 49,6% dos inquiridos pensam que o seu museu perderá, no mínimo, um quarto quando comparados os números de 2020 com os de 2019 e 32% estimam uma redução de mais de metade.

Uma vez mais, conclui o ICOM, é urgente que os decisores políticos libertem fundos para apoiar os museus e os seus funcionários, “para que eles consigam sobreviver à crise e dar continuidade à sua missão vital de serviço público”. 

Reconhecendo que a recuperação desta crise será demorada e complexa, este órgão de representação da comunidade internacional de museus lembra: “Os museus, como protagonistas-chave do desenvolvimento e como lugares incomparáveis onde as pessoas se podem encontrar e aprender, terão um papel importante na reconstrução das economias locais e na reparação do tecido social.”

Para Luís Raposo, arqueólogo e presidente do ICOM-Europa, o que este novo estudo vem mostrar é que “aumentou muito o grau de preocupação em relação ao futuro dos museus”. Teme-se, explica, que a capacidade de contratação dos funcionários necessários diminua, sobretudo nos museus privados e associativos, mas também nos públicos, “que em Portugal não têm, sequer, quadros de pessoal próprios”. Com menos pessoas, o trabalho de salvaguarda, estudo e divulgação das colecções não poderá ser, naturalmente, o mesmo. 

A quebra nos planos de actividades — exposições e programas educativos, essenciais à formação de novos públicos — é outra das preocupações.

O PÚBLICO não conseguiu apurar que museus em Portugal terão respondido ao inquérito.