Precisamos de uma psicologia ao serviço das pessoas

Além da proximidade e da resposta à necessidade de formação, é muito importante que os psicólogos possam ter um forte sentimento de pertença à Ordem.

A eleição dos órgãos sociais da Ordem dos Psicólogos Portugueses, constitui um momento de reflexão sobre as orientações para a regulação da profissão de psicólogo, uma oportunidade para expormos as nossas preocupações em relação à gestão da profissão, e para a troca de ideias e recolha das preocupações dos(as) colegas sobre a formação e o exercício profissional em psicologia. Apraz-me particularmente esta ideia de que todas as psicólogas e psicólogos, sem exceção, se possam sentir representados, ter uma voz e participação ativas na organização que socialmente os representa e autoriza.

Um dos aspetos que mais pode condicionar o acolhimento dessa voz ativa dos colegas na Ordem é a garantia da acessibilidade aos seus serviços, sustentada numa proximidade geográfica entre a sua coordenação e os locais de trabalho e de vida dos associados. Para isso é preciso garantir a descentralização da representação dos profissionais, em todo o país. Muitos questionam a utilidade de estarem inscritos na Ordem, quando não sentem que os seus problemas são acolhidos e apoiados na sua resolução. Muitos referem que o contacto com a Ordem quase se circunscreve ao ato de pagamento das quotas, questionando mesmo a utilidade e obrigatoriedade da afiliação na Ordem.

A Ordem tem que estar mais próxima dos profissionais e oferecer-lhes serviços que supram as suas necessidades, ser um ponto de encontro, de partilha e formação recíproca. Neste sentido, por exemplo, os serviços administrativos de Lisboa deveriam ser descentralizados em delegações administrativas localizadas a Sul, deslocando-se para o Algarve e Alentejo, de modo a permitir o acompanhamento e dinamização sistemática dos objetivos da qualificação profissional, nestas regiões. A proximidade seria também uma forma de garantir um melhor conhecimento dos contextos locais, identificando as zonas de maior carência de serviços de psicologia e procurando estimular o desenvolvimento das condições para aí os desenvolver.

Considero que é fundamental identificar as necessidades de formação profissional e os recursos para as suprir, a partir das perceções dos próprios profissionais da psicologia. A eficácia da formação profissional em psicologia implica garantir que a mesma assuma um conjunto de caraterísticas que não tenho observado na oferta até aqui realizada. Um dos aspetos mais importantes é o de garantir que a formação seja organizada para permitir apoiar os psicólogos a resolver os problemas concretos vividos pelos profissionais, encontrando soluções a partir da experiência realizada por outros colegas, de uma forma regular e sistemática, com follow-up da formação. Uma solução que não é garantida pela oferta existente, em “menu circunstancial”, frequentemente desarticulada com as necessidades percebidas pelos profissionais.

Para isso, é muito importante valorizar a organização de sessões baseadas na discussão sobre os projetos e as preocupações dos colegas. Apoiada na garantia de uma maior proximidade geográfica administrativa, esta seria uma forma de quebrar o isolamento de muitos psicólogos, promovendo o seu envolvimento ativo e incrementando grupos de comunidades de aprendizagem profissional e de supervisão.

Além da proximidade e da resposta à necessidade de formação, é muito importante que os psicólogos possam ter um forte sentimento de pertença à Ordem. Abrir os espaços administrativos às propostas dos membros da Ordem, estimulando a recolha de ideias sobre os procedimentos a adotar na gestão da profissão é condição fundamental para reforçar a integração de todos os colegas numa grande comunidade profissional, garantindo a qualidade do serviço de psicologia a toda a população portuguesa, no estrito respeito pela deontologia profissional, mas também pela abertura à inovação baseada em evidência científica.

É preciso, por exemplo, que se reconheçam as evidências que permitem sustentar o valor de  uma prática da psicologia orientada para uma intervenção nos contextos de vida dos indivíduos e das organizações (nas escolas, municípios, serviços de saúde, justiça, empresas, serviços prisionais e outros), evitando que a prática profissional se limite ao aconselhamento em gabinete e consultório, circunstância importante, mas incompleta no acesso a importantes fontes de informação para avaliar, preparar e monitorizar a prática de intervenção profissional em psicologia, nomeadamente em estreita articulação com outros profissionais desses setores.

Para melhorar a qualidade de vida e bem-estar dos cidadãos, importa valorizar e reconhecer a importância da intervenção das (os) psicólogas(os) na sociedade, dando visibilidade à intervenção dos psicólogos, dando a conhecer as suas áreas de especialização, as valências dessa intervenção e a suas competências específicas.

Precisamos de uma psicologia ao serviço das pessoas, sobretudo num o país onde ainda reconhece pouco a Psicologia. Só assim, podemos facilitar o pedido de apoio psicológico dos cidadãos e dar voz às suas necessidades, para ajustar os serviços às mesmas, procurando também através disso inovar com boas práticas os serviços de psicologia.