Amor de avó

A minha avó faz-nos gemada, que é genocídio de pintainhos e diabetes numa tigela. Mas isso é em 2020. Em 2000, é amor em forma cremosa e tonalidade amarela. A casa da minha avó é o refúgio.

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"Quem não exagerou uma dor de garganta para ter doses suplementares de avó, que atire a primeira pedra" Phil Hearing/Unsplash

Tenho seis anos. Os desenhos animados estão a passar, estou a beber um leite com chocolate UCAL e da cozinha vem o cheiro reconfortante de alguma coisa muito boa a ser cozinhada. É sinal de que estou em casa da minha avó.

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Tenho seis anos. Os desenhos animados estão a passar, estou a beber um leite com chocolate UCAL e da cozinha vem o cheiro reconfortante de alguma coisa muito boa a ser cozinhada. É sinal de que estou em casa da minha avó.

A minha avó faz-nos gemada, que é genocídio de pintainhos e diabetes numa tigela. Mas isso é em 2020. Em 2000, é amor em forma cremosa e tonalidade amarela. A casa da minha avó é o refúgio. Bastava transpor aquelas portas que me tornava criança, fosse em que idade fosse. Ali recebia colo, apoio e uma ausência total de julgamento. O que tinha a casa da minha avó de tão especial? Objectivamente, excesso de bibelots, cortinas pesadas, napperons. Molduras com antepassados sisudos a preto e branco atrás de molduras com fotografias coloridas de bebés sorridentes, nós, os netos, simbolizando, talvez, a cor que sempre dizia que trazíamos à sua vida. Tinha muita tralha, no geral. Mas tinha, sobretudo, a minha avó.

Aqueles 30 metros quadrados de sala eram um mundo de infinitas possibilidades: as almofadas transformavam-se em castelos, os bancos em torres, os sofás em barcos. Não havia limites para a aventura. Mas as vozes das novelas brasileiras que às vezes se elevavam e que reverberavam da televisão “porque você fez isso comigo, Reinaldo?” tranquilizavam-me e asseguravam a presença da minha avó, algumas divisões ao lado. Era como se as nossas brincadeiras fossem abençoadas pela energia de avó. A avó que protege e, acima de tudo, perdoa. E o perdão tinha muito uso, naquela terra sem lei, onde bolas e diablos derrubavam abat-jours, quebravam vasos, partiam pratos.

Brincávamos sem parar e era diferente do brincar da escola ou de casa, onde éramos regidos por um sistema penal mais duro, à base do crime e castigo. A avó era uma espécie de Supremo Tribunal. O limite de açúcar poderia ter sido estabelecido com veemência, com penalizações conhecidas e temidas, mas, ali, a pena seria suspensa e, mesmo que chegasse ao conhecimento dos pais, sairíamos absolvidos dos delitos cometidos.

À nossa avó era permitida alguma explicação acerca de fenómenos que nunca antes nos tinham sido apresentados e que nós jamais quereríamos que nos fossem explicados pelos pais, como o incompreensível fenómeno do sexo. Deparados com uma dessas cenas na televisão, diga-se de passagem bastante cinematográfica, ficámos hipnotizados, aterrorizados perante aquela nova e esquisita possibilidade. “Aquilo é muito bom para quem lá está, mas não há necessidade de vermos tanto”, disse a minha avó, despreocupadamente, enquanto mudava de canal. É claro que o assunto não acabou ali. Associar uma avó a um acto horrífico daqueles e ainda apelidá-lo de bom não poderia ficar por ali. “Mas a avó já experimentou aquilo?” Ficámos na ignorância. Uma das lições da minha avó era nunca falar de mais e saber dar uso ao silêncio.

Uma vez, saí de casa da minha avó para ir à Feira Popular. Ao ver-me sair sem casaco, não escondeu a sua preocupação. Teimosa, rejeitei. Estava eu nos carrinhos de choque, absorvida pela adrenalina quando, nos sons dos alto-falantes se ouve: “Madalena, Madalena, está aqui a sua avó para lhe dar o casaco.” O que nesse momento me encheu de vergonha hoje enche-me de saudades.

A casa da minha avó era um paraíso fiscal, onde acumulávamos capital e lucrávamos em gomas, ovos Kinder e Lego, com total sigilo. Era, ao mesmo tempo, um abrigo. Se, noutras ocasiões, a rua era o maior chamariz, quando ali estávamos, protegidos por aquela aura benevolente, com uma despensa cheia de chocolates, o mundo lá fora perdia todo o interesse. Quando, por algum motivo, havia a necessidade de ir à rua, era um acontecimento. A preparação tinha a dignidade da preparação que antecede um combate. Écharpes eram pousadas sobre os ombros, batom vermelho era cirurgicamente aplicado com uma só mão, sem extravasar as bordas nem um décimo de milímetro. A outra mão ia removendo, em gestos lentos, as molas do cabelo, as quais só naquele momento eu percebia que ali tinham estado o tempo todo. As luvas eram colocadas nas mãos e o perfume era borrifado em todo o seu redor. No fim, olhava-se ao espelho, pegava num cilíndrico spray dourado e com ele pulverizava dramaticamente o cabelo. Uma névoa de cheiro intenso invadia a casa de banho, a minha avó atravessava-a em passos determinados e surgia ao pé de mim, gloriosa. Estava pronta.

Era um espectáculo que me causava inevitável admiração. Para uma criança como eu, ainda sem total domínio das suas capacidades motoras, que lutava para pintar dentro das formas dos desenhos, aquilo era uma lição de controlo e coordenação. Ao mesmo tempo, observar aquele ritual transmitia-me segurança e conforto.

O mundo era incerto e cruel. Mas, ali, teria sempre amparo. E quando tinha dor de garganta, real ou menos real, isso significava um dia fora da escola e um dia extra de avó. Quem não exagerou uma dor de garganta para ter doses suplementares de avó, que atire a primeira pedra. A avó sabia sempre topar os nossos exageros, mas nem por isso nos punia, pelo contrário, compensava-nos com mais mimo, percebendo que os crimes tinham origem na carência emocional e que a sua solução passava mais pelos abraços que pela repreensão.

O transe daquele mundo encantado era apenas quebrado pela fatídica hora de ir embora, materializada pela chegada dos pais, os corta-ondas, os quebra-festas. Mas era necessário um desmame. “Daqui a 15 minutos, vamos embora”, anunciavam.

Não havia vez que não tivesse a minha avó à varanda, à espera que eu entrasse no carro. Dizíamos adeus até o carro virar a esquina e começar o duro processo de reintegração na realidade.

Há um mês, partiu. Foi assim que a minha mãe me contou. “A avó partiu.” Uma parte de mim esperou que a frase continuasse: “A avó partiu a anca.” Mas o silêncio que se seguiu assegurou a intransitividade do verbo e a consequente intransitividade da vida.

Desde então tem sido tudo estranho, como um passeio num dia frio sem casaco, uma despensa sem chocolates ou uma varanda vazia sem ninguém a ver se entrei bem no carro.