José Saramago em 1994 ao PÚBLICO: “Não vivi nada que valha a pena ser contado”

Republicamos esta entrevista que José Saramago (1922-2010) deu ao suplemento Leituras do PÚBLICO em 1994 quando estava a escrever o romance Ensaio Sobre a Cegueira.

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PAULO RICCA / PUBLICO

Com é que está a correr o Ensaio Sobre a Cegueira?
Um romance — ou qualquer coisa que se pareça com isso, neste caso — é uma obra que necessita de uma disciplina que não tenho podido impor-me, por causa do corrupio de viagens em que tenho andado. Estar oito ou dez dias em casa no intervalo de duas viagens não dá para eu trabalhar. É um livro particularmente difícil porque, embora haja uma sequência, é uma história um pouco atípica. É a primeira vez que tenho tanta dificuldade em avançar com um livro. É uma história em que as personagens não têm nome e conduzir, ao longo de duas ou três centenas de páginas, uma quantidade de figuras às quais não posso dar um nome levanta dificuldades tremendas. É um livro em alguns aspectos inesperado. Não é que haja mudanças radicais, mas são muitas. É um livro que apela muito menos para os sentimentos do leitor na sua relação com a história ou com as personagens. Porque não as há: elas aparecem e desaparecem, e se reaparecem não se sabe que são elas. No fundo é como se você tivesse diante de si uma multidão de quem sabe pouco e, insisto, de quem não conhece esse dado essencial que é o nome. Porque quando algo tem nome existe: uma cadeira existe mais se eu lhe chamar cadeira.

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Com é que está a correr o Ensaio Sobre a Cegueira?
Um romance — ou qualquer coisa que se pareça com isso, neste caso — é uma obra que necessita de uma disciplina que não tenho podido impor-me, por causa do corrupio de viagens em que tenho andado. Estar oito ou dez dias em casa no intervalo de duas viagens não dá para eu trabalhar. É um livro particularmente difícil porque, embora haja uma sequência, é uma história um pouco atípica. É a primeira vez que tenho tanta dificuldade em avançar com um livro. É uma história em que as personagens não têm nome e conduzir, ao longo de duas ou três centenas de páginas, uma quantidade de figuras às quais não posso dar um nome levanta dificuldades tremendas. É um livro em alguns aspectos inesperado. Não é que haja mudanças radicais, mas são muitas. É um livro que apela muito menos para os sentimentos do leitor na sua relação com a história ou com as personagens. Porque não as há: elas aparecem e desaparecem, e se reaparecem não se sabe que são elas. No fundo é como se você tivesse diante de si uma multidão de quem sabe pouco e, insisto, de quem não conhece esse dado essencial que é o nome. Porque quando algo tem nome existe: uma cadeira existe mais se eu lhe chamar cadeira.