Doenças cardiovasculares e diabetes: uma relação imperfeita

Sabe-se que o risco de desenvolver doença cardiovascular duplica em pessoas com diabetes mellitus comparativamente à população não diabética. E ainda que uma em cada três pessoas que tem doenças cardiovasculares também tem diabetes. A ligação entre estas duas doenças crónicas é próxima, preocupante e nem sempre valorizada. O Dia Mundial do Coração assinala-se hoje, 29 de Setembro, e motiva o alerta.

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Não nos referimos apenas a números e a estatísticas, mas ao facto de a diabetes ser um factor de risco importante que afecta vários órgãos, nomeadamente, o coração. E se a probabilidade de desenvolver doença cardiovascular é duas vezes maior comparativamente à população não diabética, sabe-se também que as doenças cardiovasculares (DCV) são a principal causa de morte das pessoas com diabetes.

Ambas as patologias têm o denominador comum de serem silenciosas nas fases iniciais, o que traz desafios acrescidos a um diagnóstico adequado. Muitas vezes, um doente percebe que tem diabetes durante um internamento por acidente vascular cerebral (AVC) ou por enfarte agudo do miocárdio. Ou seja, numa fase em que a diabetes já terá provocado danos em vários órgãos.

A Direção-Geral da Saúde (DGS) define a diabetes como uma doença crónica cada vez mais frequente na nossa sociedade cuja prevalência aumenta muito com a idade, atingindo ambos os sexos. Caracterizada pelo aumento dos níveis de açúcar (glicose) no sangue - a hiperglicemia -, estima-se que afecte um milhão de portugueses e que mais cerca de dois milhões tenham risco de vir a desenvolver diabetes.

 A diabetes mellitus tipo 2, à qual correspondem mais de 90% dos casos, é também conhecida como “não insulino-dependente” e ocorre maioritariamente em indivíduos que herdaram a predisposição para desenvolver a doença e que, devido a factores ambientais, entre os quais os hábitos de vida, como a alimentação hipercalórica, o sedentarismo e, por vezes, o stress, vêm a sofrer de diabetes em adultos.

Existe uma preocupação entre a comunidade médica com o adequado controlo da diabetes pelo que se torna imperativo o envolvimento de profissionais de saúde e da sociedade civil na prevenção, no diagnóstico e no tratamento. O trabalho conjunto entre as sociedades médicas, os profissionais de saúde e os doentes pode fazer a diferença no que respeita ao diagnóstico precoce e ao tratamento atempado da diabetes e das doenças cardiovasculares.

Como controlar a diabetes?

Ao ser assintomática, a diabetes vai agravando de forma silenciosa e, em simultâneo, aumenta o perigo para a saúde do coração. Está nas mãos de cada um de nós promover a nossa saúde, procurar adoptar estilos de vida saudáveis e combater a obesidade, um dos factores de risco mais relevantes para o desenvolvimento de diabetes tipo 2.

Quando já existe um diagnóstico, não é indiferente a forma como se controla. “Existem novos fármacos que além de controlarem a glicemia reduzem o risco cardiovascular. Há uns anos, o foco estava na procura de medicamentos que controlassem a glicemia, de forma a evitar hiper e hipoglicemias. Mas, actualmente, temos medicamentos que, para além de tratarem a diabetes, oferecem protecção ao coração e ao sistema circulatório, reduzindo o risco de eventos cardiovasculares”, defende Ricardo Fontes Carvalho, médico cardiologista do Centro Hospitalar V. N. Gaia-Espinho. Nos últimos três a quatro anos, surgiram novas classes farmacológicas que permitem tratar a diabetes e, em simultâneo, proteger o coração e até os rins, foca o também professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. “Graças a estes novos tratamentos conseguimos reduzir o impacto da diabetes no risco de doença cardiovascular. Já não interessa - apenas - baixar o açúcar no sangue, mas a forma como se baixa o açúcar no sangue e que benefícios complementares pode a terapêutica da diabetes trazer para o doente a outros níveis”, defende.

PÚBLICO -

As novidades terapêuticas têm alterado assim o paradigma de compreensão da doença e trazem uma nova esperança na redução do impacto da diabetes no risco de doença cardiovascular. “É importante que o doente saiba que existe esta relação estreita entre a diabetes e as doenças cardiovasculares e que fale com o seu médico, pois há muitas pessoas com diabetes que não sabem que têm doença cardiovascular e também o contrário, doentes com doença cardiovascular que não sabem que têm diabetes. Ter um diagnóstico precoce e iniciar um tratamento com benefícios para ambas as doenças é essencial para as manter devidamente controladas e evitar eventos cardiovasculares de risco, como é o caso do AVC e do enfarte”, refere Daniel Ferreira, cardiologista do Hospital Luz Lisboa e director clínico do Hospital da Luz Centro Clínico Digital.

É fundamental optimizar a gestão destas duas doenças crónicas e isso consegue-se através de uma adequada compliance (adesão à terapêutica) mesmo quando os doentes se sentem bem ou têm bons resultados nas análises ao sangue, mas também através do acompanhamento de uma equipa multidisciplinar e do trabalho articulado entre a cardiologia, a endocrinologia e a diabetologia.

Os resultados do maior estudo mundial sobre doença cardiovascular e diabetes tipo 2 foram apresentados este mês no congresso anual da Associação Europeia para o Estudo da Diabetes (sigla em inglês, EASD). O estudo CAPTURE, desenvolvido pela Novo Nordisk, analisou a prevalência de doenças cardiovasculares, risco cardiovascular e a sua gestão na população com diabetes tipo 2. Neste estudo, demonstrou-se que 1 em cada 3 pessoas com diabetes tipo 2 tem doença cardiovascular estabelecida, das quais, 9 em cada 10 têm doença cardiovascular aterosclerótica. No entanto, apenas 2 em cada 10 pessoas com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica estão medicadas com um tratamento hipoglicemiante com benefícios cardiovasculares comprovados.

Não adie a sua saúde

A pandemia de Covid-19 tem alterado o modo como vivemos e está a ter impacto na procura dos serviços de saúde. Assim, são conhecidos alguns relatos do impacto que o adiamento de consultas tem provocado nos rastreios de algumas doenças, na promoção da saúde e na gestão das doenças crónicas. Com o receio – ainda que legítimo – de serem infectadas com Covid-19, algumas pessoas optaram por não realizar as suas consultas de rotina ou procurar ajuda especializada atempadamente. E se é verdade que muitas consultas e procedimentos médicos foram adiados durante o período de confinamento, também é certo que tudo está a voltar paulatinamente a uma certa normalidade e que é seguro frequentar os centros de saúde, clínicas e hospitais que respeitam as normas recomendadas pela DGS.

O medo de visitar o centro de saúde, por exemplo, vai impedindo que doentes diabéticos tenham a sua diabetes controlada, o que é prejudicial também no que diz respeito à Covid-19 porque coloca os doentes em maior risco de vir a desenvolver complicações graves no caso de serem infectadas com o novo coronavírus.

Neste Dia Mundial do Coração deixamos o alerta: não se esqueça de si nem da sua saúde.


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