Opinião

No zoológico das startups, só os camelos resistem à covid-19

As startups deverão focar a sua atividade no sentido de construírem uma bossa financeira para si próprias, cuidando da qualidade dos bens e serviços que entregam para não tornarem a sua oferta obsoleta.

As startups-camelos foram aquelas que melhor se adaptaram à situação provocada pela covid-19. Assim como os camelos têm grandes bossas onde conservam água suficiente para um longo percurso, e vivem durante 40 anos, as startups-camelos são aquelas que, pela sua autonomia financeira, fruto de uma gestão controlada entre receitas e gastos, conseguiram ter estrutura financeira – e tesouraria – para honrar todos os compromissos durante o período de confinamento.

Pela savana empresarial tem-se falado muito de startups “Unicórnios” e “Zebras” pelas suas particularidades ao nível do capital e da gestão das próprias empresas. Os unicórnios – associados a personagens de sonhos e contos de fadas – denominam as startups que valem mais de mil milhões de dólares.

As zebras, pelo seu lado, representam as startups de sucesso que, para além do seu foco no lucro e na produtividade, assumem igualmente a missão de responder a necessidades sociais que têm capacidade de solucionar. A zebra, simbolizada pelo contraste do preto e do branco, significa, no ecossistema empresarial, o contraste entre o “profit” e o “non-profit” que, para muitos, é visto como algo dissociável. No entanto, para startups-zebra a indissociabilidade entre o lucro e a responsabilidade social das organizações é a chave e a âncora dos seus negócios.

Perante a crise económica e social provocada pela pandemia, importa refletir sobre o estado atual da calamidade. Considerando toda a biodiversidade metaforizada no ecossistema empresarial, as startups-camelo revelaram-se aquelas que melhor respondem à crise. Enquanto 18% do tecido empresarial teve de fechar portas, temporária ou definitivamente, as startups-camelos, pela sua “bossa” financeira, desenvolvida desde a sua criação, conseguiram, de uma forma relativamente tranquila, atravessar o período crítico da crise, tornando-se casos de sucesso e de resiliência empresarial.

Existiram certamente estratégias específicas na gestão destas startups que, obviamente, não foram implementadas para responder a uma pandemia que ninguém adivinhou. Mas foi exatamente por terem adotado essas estratégias que conseguiram sobreviver à redução para metade da faturação em 26% das empresas portuguesas.

Uma vez que à covid-19 estão a sobreviver os camelos, as startups deverão focar a sua atividade no sentido de construírem uma bossa financeira para si próprias, cuidando da qualidade dos bens e serviços que entregam para não tornarem a sua oferta obsoleta. Para tal, ficam três sugestões: redução do investimento; não comprar nem alugar (em contrapartida, pedir emprestado); e diminuir a dívida.

É preciso recordar que os camelos não conservam mais água do que aquela que realmente precisam. Desta forma, com mais camelos no tecido empresarial, a crise que se avizinha poderá ser superada com maior estabilidade, quer ao nível do negócio, quer ao nível do poder de compra da sociedade portuguesa. Só assim será possível manter o nível de emprego e criar condições para um novo crescimento económico.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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