O que explica a diferença de cores entre as aves macho e fêmea? Investigação portuguesa é capa da Science

Até agora, segundo Ricardo Jorge Lopes, o mundo desconhecia o mecanismo que permitia perceber como é que ocorria nas aves a diferença de cor entre machos e fêmea.

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Ricardo Jorge Lopes

A descoberta científica do gene que origina as diferenças de cores entre aves macho e fêmea por investigadores da Universidade do Porto (UP) vai ser a capa da revista Science na próxima sexta-feira.

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A descoberta científica do gene que origina as diferenças de cores entre aves macho e fêmea por investigadores da Universidade do Porto (UP) vai ser a capa da revista Science na próxima sexta-feira.

“Ficámos bastante orgulhosos que o nosso artigo tenha sido escolhido para capa. É o reconhecimento que a nossa investigação tem uma relevância científica extraordinária. E, adicionalmente, porque esta investigação foi liderada e implementada pela nossa equipa”, disse esta quinta-feira, 11 de Junho, à agência Lusa Ricardo Jorge Lopes, investigador do CIBIO-InBIO, Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, InBIO Laboratório Associado da Universidade do Porto.

O reconhecimento internacional da investigação científica é ainda mais “gratificante” para Ricardo Jorge Lopes porque a capa da Science vai ser com uma fotografia da sua autoria.

Até agora, segundo explicou o cientista, o mundo desconhecia o mecanismo que permitia perceber como é que ocorria nas aves a diferença de cor entre machos e fêmea e a hipótese mais validada dessa diferenciação era justificada nos “milénios de competição entre machos pela atenção das fêmeas”.

“Como é que era possível haver machos com cores bastante vivas e fêmeas a terem cores bastante mais esbatidas” era uma dúvida por explicar e que a equipa de investigadores liderada pelo cientista português da UP Miguel Carneiro conseguiu descobrir.

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Esta descoberta vai permitir que os cientistas estudem a evolução da expressão das cores em machos e fêmeas e, também, para entender como as estratégias de acasalamento e de nidificação, pressões de predação e a luz ambiental afectam a evolução da coloração em aves.

“Esse mecanismo é bastante simples. No caso dos canários vermelhos ou ‘mosaico’, só devido a diferenças num gene em particular permite que haja essas diferenças de cor entre os machos e as fêmeas com cores menos vivas. Essa é talvez a descoberta mais importante, que neste caso é um gene responsável pela codificação de uma enzima que degrada carotenóides, pigmentos que vão entre o amarelo e o vermelho e são responsáveis pelas cores em muitas aves, nomeadamente nos canários”, explica.

O estudo científico teve por base canários vermelhos ou “mosaico”, sexualmente dicromáticos (com duas colorações), tendo os machos penas de cores vivas e as fêmeas cores esbatidas. Os canários vermelhos foram obtidos há várias décadas, quando criadores cruzaram canários com uma espécie similar, mas vermelha, da América do Sul, o “Cardinalito” da Venezuela.

Os cientistas encontraram uma única região divergente no ADN dos canários-mosaico, quando comparado com o ADN de outras variedades de canários. E é nessa região que está um gene, que codifica a enzima Beta-Caroteno Oxigenase 2, a causa mais provável para estas diferenças de cores entre sexo masculino e feminino.

Segundo Ricardo Jorge Lopes, que é também curador de aves no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, a enzima degrada os pigmentos vermelhos e amarelos. A diferença entre os machos com cores vivas e as fêmeas com cores esbatidas é resultado da quantidade de pigmentos que são depositados nas penas. Assim, este tipo de gene pode dar origem a machos mais coloridos e fêmeas com menos cor.

A equipa interdisciplinar e internacional das universidades do Porto, de Coimbra, Washington em St. Louis e a de Auburn (estas duas nos Estados Unidos) foi liderada por Miguel Carneiro, que faz investigação em genética de populações, designadamente de aves.