Museus de história natural e da ciência em Portugal: uma ferramenta para tempos de crise

Estes museus têm um papel fundamental no estudo, monitorização e prevenção de doenças tropicais, uma vez que ocupam uma posição privilegiada para informar os agentes de saúde pública sobre a história natural e distribuição dos animais que são hospedeiros e vectores destas doenças.

O Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP) reabre hoje, 2 de Junho, ao público. Após quase três meses de portas fechadas devido à pandemia, os nossos visitantes, estudantes e investigadores podem novamente tirar partido do muito que as suas colecções têm para oferecer. Nos últimos dez anos, o MHNC-UP tem sido alvo de uma profunda remodelação com o objectivo de o transformar e adaptar às exigências do século XXI. Algumas das faces mais visíveis dessa transformação são a Galeria da Biodiversidade e o Jardim Botânico do Porto, cujos méritos têm sido reconhecidos nos prémios nacionais e internacionais que lhes têm sido atribuídos. Em menos de uma década, o projecto tornou-se uma referência mundial no que toca à forma de comunicar ciência, levando o MHNC-UP a entrar na rota das mais importantes exposições internacionais.

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Colecção de aves sul-americanas do História Natural e da Ciência da Universidade do Porto José Eduardo Cunha

Tal como a maioria dos seus congéneres, os museus de história natural e da ciência não se limitam à sua face pública. A grande maioria do seu acervo encontra-se depositado nas suas reservas e geralmente fora dos olhares (e por vezes do conhecimento) do público. A nível global, os milhares de milhões de espécimes destas reservas são utilizados diariamente por centenas de investigadores, estudantes e naturalistas amadores para um sem-número de investigações sobre o mundo vivo. Da descrição de novas espécies para a ciência, à avaliação dos impactos das alterações climáticas na conservação das espécies, ou ao estudo da relação entre espécies hospedeiras e agentes patogénicos, os museus têm um papel insubstituível na compreensão deste tipo de fenómenos.

Os três maiores museus de história natural e da ciência portugueses, o MHNC-UP, o Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa, e o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, albergam cumulativamente mais de três milhões de espécimes. Muitos destes espécimes fazem parte de colecções obtidas durante expedições que remontam a meados do século XVIII, e a sua cobertura geográfica extravasa as fronteiras nacionais, tendo um especial relevo no que se refere aos países africanos de expressão oficial portuguesa. Integrados nas três principais universidades nacionais, estes museus beneficiam de uma sinergia profícua (embora ainda claramente subaproveitada) com o ensino e a investigação. Fazem também parte de redes colaborativas como o Roteiro Nacional de Infra-estruturas de Investigação, e ainda de consórcios nacionais e europeus, nomeadamente o PRISC – Infra-estrutura de Investigação Portuguesa em Colecções Científicas, o PORBIOTA – Infra-estrutura Portuguesa de Informação e Investigação em Biodiversidade, e a DiSSCo – Distributed System of Scientific Collections.

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Colecção do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto José Eduardo Cunha

Durante as últimas semanas, o MHNC-UP não esteve parado. As suas colecções continuaram a ser estudadas remotamente por estudantes de mestrado e doutoramento e investigadores nacionais e estrangeiros. Os curadores e técnicos do museu continuaram a recuperar, cuidar e catalogar as suas ricas colecções para que estejam acessíveis à comunidade. A equipa de divulgação e comunicação contínua a partilhar com o público as “estórias” do museu e a colaborar activamente com outras instituições de ensino. Tudo isto para que o museu continuasse a servir a comunidade mesmo em tempos de crise.

Não obstante os desafios que actual crise mundial colocou e coloca aos museus, é crucial reafirmar a importância que este tipo de instituições tem para a ciência e a sociedade. Um estudo publicado recentemente na prestigiada revista Proceedings of the National Academy of Sciences (EUA) colocou em evidência as vantagens e a importância da colaboração entre as entidades de saúde pública e os museus de história natural e da ciência para o delineamento de estratégias integradas de mitigação e resposta a este tipo de crises. O mesmo estudo mostrou ainda que os museus de história natural e da ciência têm um papel fundamental no estudo, monitorização e prevenção de doenças tropicais, uma vez que ocupam uma posição privilegiada para informar os agentes de saúde pública sobre a história natural e distribuição (histórica e actual) dos animais que são hospedeiros e/ou vectores destas doenças, bem como sobre a sua relação com as comunidades humanas.

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Colecção do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto José Eduardo Cunha

As colecções do MHNC-UP, tais como as das suas congéneres nacionais, são ricas em espécimes deste tipo de animais. Tendo em conta a nossa relação histórica e cultural com os PALOP, bem como a nossa integração em redes globais com o LifeWatch ou o DiSSCo, estas colecções podem ser postas ao serviço de projectos científicos internacionais e políticas integradas de colaboração entre Estados, integrando futuras redes de vigilância epidemiológica internacionais e contribuindo para responder a perguntas fundamentais como: onde ocorrem agentes patogénicos que podem tornar-se epidémicos/pandémicos? Quais os seus hospedeiros selvagens ou domésticos? Que relação tem com o ecossistema?

Urge por isso dar uso a estas colecções, trazê-las para a esfera pública e científica e explorar todo o seu imenso potencial. Pese embora a sua antiguidade e por vezes a incompreensão a que foram votadas durante demasiado tempo, estas colecções são uma ferramenta extraordinária que será cada vez mais indispensável para a ciência e a sociedade.

De uma forma mais geral, os museus de história natural e da ciência são cada vez mais instituições ímpares no mundo actual porque são capazes de conjugar investigação histórica acumulada em séculos de colecções de espécimes e objectos com as mais modernas e sofisticadas ferramentas de investigação, e depois transformar este conhecimento em formas originais de comunicação com o público que cada vez mais misturam arte e ciência, proporcionando assim a todas as pessoas espaços únicos de contemplação, reflexão e interrogação sobre um planeta completamente dominado pela nossa espécie.