Comandos: “Nunca falei a nenhum familiar do que passei lá dentro”

Rodrigo Seco foi um dos instruendos do curso 127 dos Comandos no qual morreram Dylan da Silva e Hugo Abreu em Setembro de 2016. Pelos danos físicos e psicólogos sofridos na Prova Zero processou o Estado e exige uma indemnização de 40 mil euros a 12 dos 19 arguidos com quem teve mais contacto na instrução.

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Julgamento prossegue na Ordem dos Solicitadores com audição dos assistentes Daniel Rocha

Além do sofrimento físico e psicológico que associa à sua passagem no curso 127 dos Comandos, o recruta Rodrigo Seco fala do “trauma” e do medo que sentiu pela sua integridade física depois de sair do curso e de abandonar o Exército. Saiu “de rastos” a sentir-se “desiludido e defraudado”. Exige do Estado e de 12 arguidos se forem condenados, uma indemnização de 40 mil euros.

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Além do sofrimento físico e psicológico que associa à sua passagem no curso 127 dos Comandos, o recruta Rodrigo Seco fala do “trauma” e do medo que sentiu pela sua integridade física depois de sair do curso e de abandonar o Exército. Saiu “de rastos” a sentir-se “desiludido e defraudado”. Exige do Estado e de 12 arguidos se forem condenados, uma indemnização de 40 mil euros.

São 19 os arguidos a serem julgados por abuso de autoridade por ofensas à integridade física (em diferentes graus) que terão ocorrido na Prova Zero de dia 4 de Setembro de 2016. O pedido de indemnização civil de Rodrigo Seco deu entrada no Ministério Público em Setembro de 2017.

Ao tribunal, nesta quarta-feira, Rodrigo Seco, que se constituiu como assistente, disse continuar a sofrer danos que continuam a prejudicá-lo na vida. “Isto afectou-me mesmo psicologicamente. Fiquei de rastos. Nunca falei com nenhum familiar do que passei lá dentro.” 

Já antes tinha declarado neste julgamento que quando não aguentavam eram “castigados", mas apenas respondera a perguntas para uma decisão criminal. Agora, e porque a parte civil também será decidida por este tribunal (e não pelo tribunal administrativo), Rodrigo Seco voltou para esclarecer o colectivo de juízes e os restantes intervenientes sobre os “danos sofridos”.

Uma das coisas que mais o chocaram durante a instrução foi o estado em que viu Hugo Abreu, o recruta do mesmo grupo de graduados do oficial, de quem se tornou amigo e que veio a falecer nesse primeiro dia da Prova Zero, 4 de Setembro de 2016. “Quando íamos na viatura, o Hugo ia a revirar os olhos, nunca tinha visto ninguém assim, parecia que ia falecer. Essa imagem ficou-me até hoje, e [ficará] para sempre.”

Seguiam numa viatura depois de terem sido retirados da prova já ao início da tarde, e alguns sem terem almoçado. Também não consegue esquecer a aparente indiferença do instrutor naquele momento. “O meu camarada avisou o instrutor que o Hugo não estava bem e o instrutor não fez nada. Isso chocou-me. Ver uma pessoa assim, e um superior não fazer nada”, especificou. 

Parar mas não desistir

Ele próprio já se sentira mal na instrução e pedira para parar, mas não o deixaram. Quando desmaiou e um dos joelhos foi ao chão, um dos instrutores deu-lhe bofetadas. 

“Disse que foi maltratado – nos exercícios ou nas agressões?”, perguntou o advogado Acácio Ribeiro, em representação do Estado, sobre o motivo de se sentir, além de humilhado, “maltratado”. “Senti dor e senti-me humilhado quando me deram bofetadas. Levantaram-me e disseram para eu continuar, e nisso senti-me humilhado”, repetiu.

Quando pediu ajuda, queria parar a instrução por estar a sentir-se mal, mas quando um instrutor lhe perguntou se queria desistir, respondeu que não, recordou. Afinal não estava a ser obrigado a nada, sugeriu um dos advogados de defesa, atribuindo à desistência o mesmo significado de uma interrupção para recuperar a força: “Queixei-me mas não pedi para desistir, não queria desistir.”

E acrescentou: “Se me tivessem ajudado, se me tivesse alimentado, se tivesse almoçado, se calhar tinha mais força, mais energia para continuar e poderia ter conseguido terminar a prova de tiro.” Foi por isso, concluiu, que se sentiu defraudado.

Carro vandalizado

Uma outra razão apontada no pedido de indemnização civil é “o medo e o receio pela sua integridade física”, lê-se no documento junto ao processo. Instado a explicar que receio era este e por que o sentiu, Rodrigo Seco descreveu situações vividas logo após sair do Exército, embora ressalvando que podiam – ou não – estar relacionadas com este processo.

“Pode não estar relacionado, mas mudei de telefone porque recebia muitas chamadas anónimas, e mudei de carro porque o meu carro foi vandalizado.”

Com uma formação em Educação Física, sem problemas de saúde, “bem preparado” para o curso, Rodrigo Seco tinha o sonho de seguir uma carreira militar, explicou ao tribunal. A experiência no curso de Comandos de Setembro de 2016 transformou-o como pessoa. 

Não consegue descansar, evita sair de casa e o contacto pessoal com os seus amigos e familiares próximos desde então. “Saio para fazer as minhas coisas obrigatórias, ainda hoje evito ir a um café, socializar”, disse.