Guiné-Bissau

Líder parlamentar da APU-PDGB raptado pela polícia da Guiné-Bissau

Um dia depois de ter reiterado o apoio ao Governo de Aristides Gomes e de ter acusado o Presidente de assaltar o poder, Marciano Indi só foi libertado depois de uma acção de “diplomacia parlamentar”, disse ao PÚBLICO o presidente da Assembleia.
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Esta sexta-feira termina o prazo dado pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) ao Presidente da Guiné-Bissau para nomear um primeiro-ministro e um Governo de acordo com os resultados das eleições legislativas de 2019 e Umaro Sissoco Embaló não só não o fez, como terá pedido a agentes da polícia para levar à força o líder da bancada parlamentar da APU-PDGB, Marciano Indi, para parte incerta.

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De acordo com uma fonte bem posicionada no Ministério do Interior guineense, o chefe de Estado não gostou de ouvir o deputado reiterar, na quinta-feira, o seu apoio, e dos outros deputados da APU-PDGB, ao Governo legítimo de Aristides Gomes, demitido por Embaló quando este se autoproclamou Presidente, e terá dado a ordem. E mais ainda de o ouvir denunciar “o assalto ao poder por via da força” que o Presidente tinha liderado.

Indi terá sido levado à força por agentes da Polícia da Ordem Pública que o levaram na direcção do aeroporto. De acordo com testemunhas do rapto, citadas por Vítor Indi, irmão do deputado, em declarações à Rádio Capital guineense, os polícias terão dito que o iam matar, embora esta versão não tenha podido ser confirmada. Sobre alegados ferimentos sofridos por causa de agressões dos agentes, Cipriano Cassamá, o presidente da Assembleia Nacional Popular, negou ao PÚBLICO que eles existam.

“O deputado está bem. Esteve aqui em minha casa e eu levei-o depois até à sua residência, onde está agora com a sua família”, explicou o presidente do Parlamento, escusando-se a dar mais pormenores sobre o caso, por estar numa “reunião com autoridades”, dizendo apenas que a libertação de Marciano Indi se devera a uma acção de “diplomacia parlamentar”.

No entanto, a verdade é que Marciano Indi sofreu ferimentos ligeiros na cabeça em consequência do rapto, tendo obrigado ao enfaixamento da sua cabeça, como se pode ver na fotografia a que o PÚBLICO teve acesso.

Um desfecho feliz para uma acção que poderia ter tido consequências dramáticas. Vítor Indi exigiu na rádio ao chefe do Estado-maior General das Forças Armadas, Biagué Na Ntam ao Presidente e ao primeiro-ministro que respondessem pelo paradeiro do irmão. Mas nenhum deles se pronunciou sobre o sucedido.

Marciano Indi e os outros deputados da APU-PDGB são uma pedra no sapato de Umaro Sissoco Embaló que contraria o seu discurso de que há uma nova maioria, com o Madem-G15, o PRS e a APU-PDGB. Por duas vezes, Nuno Nabiam, o primeiro-ministro e líder do partido, garantiu que havia um novo acordo de maioria, que deixava de fora o PAIGC, o vencedor das eleições, e ambas as vezes os seus parlamentares recusaram-se a segui-lo, mantendo-se fiel ao acordo assinado em Março de 2019.

Os deputados da APU reiteraram que não reconhecem o acordo assinado por Nabiam e ao PÚBLICO, em Março, Indi considerou o Governo de Nabiam “inconstitucional” e foi peremptório: “Estamos com o Governo de Aristides Gomes a 100%”. Nessa entrevista, o deputado reconhecera que todos estavam a ser pressionados e ameaçados para mudarem de posição, mas garantiu que “não dariam nenhum passo à retaguarda”.

Esta semana, a própria direcção do partido demarcou-se do seu líder, acusando-o de ter assinado um acordo com o Madem-G15 e o PRS em nome individual. Falando de “desmandos” de Nabiam, o longo comunicado da direcção superior do partido diz que o primeiro-ministro tentou “ludibriar e convencer a comunidade internacional, em especial a CEDEAO, enquanto mediador da nossa crise política, de que existe tal maioria parlamentar fabricada para justificar a demissão do Governo legítimo da X legislatura, chefiado pelo Dr. Aristides Gomes”.

A direcção da APU-PDGB termina a “reiterar a sua fidelidade e respeito ao acordo assinado com o PAIGC em 12 de Março de 2019” e exorta o Presidente “a indigitar o partido vencedor das eleições legislativas de 10 de Março e cuja coligação provou a existência de uma maioria parlamentar capaz de garantir a estabilidade governativa”.

A firmeza dos deputados da APU-PDGB deixou pouca margem de manobra a Embaló. Por um lado, o seu reconhecimento como Presidente pela CEDEAO depende de cumprir as outras duas exigências da organização, a revisão constitucional e a entrega do Governo a um primeiro-ministro apoiado pela maioria parlamentar. Por outro, como o PAIGC continua a manter a maioria, o chefe de Estado não tem realmente poder político para demitir Nabiam, que foi quem lhe garantiu o apoio dos balantas, o maior grupo étnico da Guiné-Bissau, representando um quarto da população.

Nabiam teria deixado ontem a mesa negocial que busca encontrar uma solução para a crise política que permita a estabilização política e social para um encontro com homens grandes balantas em Biambe, no sector de Bissorã, região do Oio. Naquilo que poderá ser encarado como uma demonstração de força para Embaló, que terá apenas o apoio da polícia, enquanto Nabiam terá consigo as Forças Armadas.

Com a carta tribal em cima da mesa como grande trunfo no jogo político, não admira que Vítor Indi, nas suas declarações na Rádio Capital, tivesse apelado às populações de Safim, Bijimita e Biombo, tudo regiões de etnia papel (etnia que representa 7% da população e à qual pertencia o antigo Presidente Nino Vieira) para salvar o irmão. Na tarde desta sexta-feira, a população invadiu o posto de controlo de Safim, situada a 15 km de Bissau, queimando pneus nas ruas e protestando contra o rapto de Marciano Indi.

Entretanto, Umaro Sissoco Embaló convocou os partidos com assento parlamentar para audiências no Palácio Presidencial no dia 25, com vista à formação de um novo Governo que possa ajudar a superar o tenso impasse político que se vive actualmente.