OMS: Avaliação à gestão da pandemia sim, mas não para já

Reunião da Organização Mundial de Saúde promete investigar “todos os actores” na resposta à pandemia da covid-19, incluindo a si própria.

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Tedros Adhanom Ghebreyesus prometeu "boa fé" na investigação Denis Balibouse/Reuters

Uma avaliação ao que correu mal durante a resposta à pandemia da covid-19, transparente e de boa-fé, envolvendo todos os actores incluindo a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) foi a promessa feita pelo director-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, na Assembleia Mundial da Saúde, que decorre, online, esta segunda e terça-feira.

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Uma avaliação ao que correu mal durante a resposta à pandemia da covid-19, transparente e de boa-fé, envolvendo todos os actores incluindo a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) foi a promessa feita pelo director-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, na Assembleia Mundial da Saúde, que decorre, online, esta segunda e terça-feira.

A própria OMS foi criticada pelo que foi visto como uma atitude deferencial em relação à China, elogiando a sua gestão da pandemia e desaconselhando a suspensão de viagens de e para a província onde começou o surto, Hubei. A posição da OMS em relação à China explica-se não pelas quantias actualmente doadas — embora o Presidente chinês tenha anunciado uma doação de dois mil milhões de dólares esta segunda-feira — mas pelo potencial do país como parceiro na gestão de problemas futuros de saúde global, incluindo outras pandemias que possam surgir ao saltar de animais selvagens para humanos.

A avaliação é uma proposta da União Europeia e da Austrália que deverá ser aprovada por uma maioria dos 194 Estados-membros. “Iniciarei, o mais brevemente possível, uma avaliação independente para analisar a experiência conseguida, as lições aprendidas e para fazer recomendações para melhorar a preparação e a resposta nacional e global à pandemia”, declarou Ghebreyesus.“Para ser verdadeiramente completa, essa avaliação deve incluir a resposta de boa-fé de todos os actores”.

Na sua intervenção, o Presidente chinês, Xi Jinping, defendeu que esta avaliação precisa de “uma atitude científica e profissional”, “tem de ser liderada pela OMS”, e que “os princípios de objectividade e justiça têm de ser mantidos”. Xi prometeu ainda uma verba de mais de dois mil milhões de dólares (cerca de 1,85 mil milhões de euros) nos próximos dois anos para ajudar ao combate à covid-19, em especial em países em desenvolvimento  uma quantia que é, segundo a Reuters, equivalente ao orçamento anual do ano passado da OMS e mais do que compensa a suspensão de verbas dos EUA, à volta de 400 milhões de dólares por ano (entretanto o Presidente disse estar a considerar recomeçar parcialmente os pagamentos à OMS).

Segundo o jornalista especializado em diplomacia do diário The Guardian Patrick Wintour, esta investigação será semelhante a outras anteriores levadas a cabo pela OMS, como a que foi feita ao surto de Ébola na África Ocidental. Embora não chegue a ser a investigação pretendida pelos EUA e Austrália, resulta de um compromisso conseguido pela União Europeia e Índia.

Com o texto da resolução ainda a ser acertado, a investigação dará provavelmente espaço a examinar a cooperação da China com a OMS, diz Wintour. Outras investigações de pandemias da OMS resultaram já em conclusões, mas tendem a focar-se em propostas de reformas estruturais e não em críticas a acções de países específicos.

EUA faz crítica velada à China

Os EUA aproveitaram o seu espaço na reunião para criticar a OMS, sem a nomear a China. “Houve um falhanço desta organização em obter a informação de que o mundo precisava, e esse falhanço custou muitas vidas”, acusou o secretário da Saúde e Serviços Humanos Alex Azar. “Numa aparente tentativa de esconder o surto, pelo menos um país ignorou as suas obrigações de transparência, com custos tremendos para todo o mundo.”

Mas o encontro parece ter escapado de ter ficado refém da troca de acusações entre Washington e Pequim.

Uma comissão de supervisão inicial de sete membros concluiu que a OMS “demonstrou liderança e fez progressos importantes na resposta à covid-19”, cita a agência Reuters, notando que “uma compreensão imperfeita e em evolução” é normal numa fase em que uma nova doença está a emergir, criticando ainda a “crescente politização na resposta à pandemia”. A comissão é a favor de uma investigação mais tarde, porque neste momento “pode dificultar a capacidade da OMS responder com eficácia”.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também defendeu que não chegou ainda a altura de fazer avaliações. Agora é altura para unidade: ou ficamos unidos, ou vamos falhar”, declarou, depois de afirmar que até agora “estamos todos a pagar o preço de estarem a ser postas em prática estratégias contraditórias”. E tudo deverá piorar com a pandemia a afectar agora regiões mais pobres do mundo.

Tedros alertou também para o facto de a pandemia estar no início. “Mesmo nas regiões mais afectadas, a proporção da população com anticorpos não é mais de 20% e na maioria dos locais é mesmo menos de 10%. Ou seja: a maioria da população mundial continua susceptível a este vírus”, declarou.