Este não é o recomeço de Miguel Torga

Se há um ano me tivessem dito que hoje eu ia querer a liberdade na mesma medida que a temia, teria respondido que estavam loucos. Só que é assim que me sinto. Um pássaro cansado da gaiola mas cheio de medo de voar.

Foto
Manuel Roberto

É uma coisa mais ou menos automática: sempre que ouço a palavra “recomeço”, o poema Sísifo, de Miguel Torga, vem à minha mente. Até Março, aliás, acreditava piamente que não havia sequer outra forma de recomeçar que não assim, sem angústia e sem pressa. O problema é que a covid-19 apareceu e está a forçar-me a rever todos os conceitos. O recomeço é só mais um deles.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

É uma coisa mais ou menos automática: sempre que ouço a palavra “recomeço”, o poema Sísifo, de Miguel Torga, vem à minha mente. Até Março, aliás, acreditava piamente que não havia sequer outra forma de recomeçar que não assim, sem angústia e sem pressa. O problema é que a covid-19 apareceu e está a forçar-me a rever todos os conceitos. O recomeço é só mais um deles.

Sabemos que não podemos continuar assim, fechados. Sabemos que, gradualmente, teremos de voltar ao mundo. Mas é impossível não sentirmos angústia quando olhamos para os nossos filhos e pensamos que teremos de voltar a deixá-los na creche, que teremos de voltar aos nossos empregos e que a bolha, que nos tem mantido protegidos, terá de ser substituída por outras pequenas bolhas.

Vamos recomeçar numa espécie de mundo novo, não é? Um mundo com regras diferentes daquelas que sempre conhecemos, um mundo com menos manifestações exteriores de afecto e onde os equipamentos de protecção individual passarão a fazer parte integrante do nosso dia-a-dia. Provavelmente os nossos horários de trabalho serão reajustados e, até existir uma vacina, muitas das coisas que, para nós, eram tão naturais como respirar, passarão a ser interditas. Caramba, escrito assim, confesso que a perspectiva não é muito animadora...

Sou só eu que sinto que, de repente, fui arrancada da minha vida e enfiada à pressa dentro de um livro de ficção científica? Se há um ano me tivessem dito que hoje, depois de 45 dias em casa, eu ia querer a liberdade na mesma medida que a temia, teria respondido que estavam loucos. Só que é exactamente assim que me sinto. Um pássaro cansado da gaiola mas cheio de medo de voar.

Não sei o que nos espera. Sei que vai ser diferente de tudo o que conhecemos, pelo menos nos próximos tempos. Também sei que os passos que vamos dar “nesse caminho duro do futuro” não serão (ainda) em total liberdade. Mas também sei que, com mais ou menos medo, teremos de levantar a cabeça, respirar fundo e seguir caminho. É um bocado a lógica daquele meme brasileiro, viral nas redes sociais, que diz qualquer coisa como “vai sem medo e, se der medo, vai com medo mesmo”, não é?

Sabem, eu sou aquela que sempre acreditou que os recomeços podiam ser mágicos. As possibilidades à nossa frente, a hipótese verdadeira de melhorarmos, de darmos o salto, de nos reinventarmos… Mas este recomeço em particular está a deixar-me meio perdida. E o meu estado de espírito vai da esperança ao medo mais de dez vezes no mesmo dia. Quero muito que este confinamento acabe, tenho muito medo que este confinamento acabe. Quero muito voltar à minha vida, tenho muito medo de voltar à minha vida. Acho que estou presa numa espécie de dicotomia infinita, na verdade.

É, eu queria muito ter conseguido escrever um texto cheio de esperança e de ensinamentos relevantes para a fase que aí vem. Mas acho que só consegui mostrar que, no meu sistema límbico, a esperança e o medo andam de mãos dadas. No fundo, talvez seja esta a minha loucura certa. Aquela em que, como diria Miguel Torga, com lucidez me reconheço. Oxalá ela me ajude a recomeçar.