Sebenta da Quarentena: 40 ideias para os idosos “aproveitarem o tempo” no combate à solidão

Artistas oferecem actividades lúdicas com “mensagens animadoras” para os mais velhos se ocuparem de forma criativa e sentirem “que há pessoas que se preocupam com eles”. Ajuda das juntas de freguesia na distribuição dos cadernos seria preciosa, defendem.

Foto
Sebenta da Quarentena

Uma memória que somos convidados a passar para o papel debaixo de uma ilustração que retrata um casal abraçado no meio de um campo, um “alfabeto das coisas boas”, desenhos para bordar, exercícios lúdicos para adivinhar expressões populares portuguesas ou, ainda, os clássicos quebra-cabeças e as incontornáveis sopas de letras. Estas são algumas das actividades que fazem parte da Sebenta da Quarentena, iniciativa lançada esta quinta-feira e que, através da arte, lança um olho especialmente atento à população idosa – que, em tempos de distanciamento social, enfrenta um “isolamento psicológico ainda maior do que normalmente já acontece” – para lhe oferecer pequenas tarefas que permitem ocupar o tempo e combater a solidão.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Uma memória que somos convidados a passar para o papel debaixo de uma ilustração que retrata um casal abraçado no meio de um campo, um “alfabeto das coisas boas”, desenhos para bordar, exercícios lúdicos para adivinhar expressões populares portuguesas ou, ainda, os clássicos quebra-cabeças e as incontornáveis sopas de letras. Estas são algumas das actividades que fazem parte da Sebenta da Quarentena, iniciativa lançada esta quinta-feira e que, através da arte, lança um olho especialmente atento à população idosa – que, em tempos de distanciamento social, enfrenta um “isolamento psicológico ainda maior do que normalmente já acontece” – para lhe oferecer pequenas tarefas que permitem ocupar o tempo e combater a solidão.

A ideia é assinada por Lara Seixo Rodrigues. A fundadora da plataforma de intervenção artística Mistaker Maker e da iniciativa Lata 65 – um conjunto de workshops de arte urbana para idosos concebido com a missão de ajudar a promover o envelhecimento activo – explica ao PÚBLICO que pensou nestas sugestões para os idosos “aproveitarem o tempo” quando, ao acompanhar a evolução da crise pandémica no país, se apercebeu de que “a maneira como estávamos a comunicar, enquanto sociedade, não era para eles”. “Sempre que víamos os cafés cheios e aquelas pessoas que continuavam com as suas rotinas de jogar cartas no parque, percebíamos que havia muita confusão nas cabeças. Não compreendiam o panorama e por que motivo era tão importante ficarem em casa”, avança. “Precisávamos de simplificar a mensagem.”

Esta sebenta pretende justamente, das ilustrações às pinturas ou às palavras cruzadas, “chegar aos idosos de uma forma leve e divertida, trazendo um conjunto de mensagens animadoras” para que, sobretudo, possam sentir “que há pessoas que se preocupam com eles”. São 40 as ideias porque Lara Seixo Rodrigues quis brincar com a fonética de “quarentena” – assim como decidiu desenvolver uma sebenta porque “era uma forma de comunicar mais facilmente com esta geração”. Também 40 foram os artistas convidados para colaborar com o projecto, de ±MaisMenos± a Clara Não, de Aheneah a Mariana, a miserável. “Quis que eles pensassem nos seus avós enquanto elaboravam as propostas. Perguntei-lhes: ‘Como acham que eles gostariam de passar o tempo?’ Foi uma tentativa de criar algo mais colorido no meio de um momento cinzento.”

Lara Seixo Rodrigues sublinha que esta colecção de trabalhos pode ser utilizada pelos idosos como uma ferramenta para “inícios de conversa com as pessoas que amam”. “Nós damos-lhes instruções simples sobre como realizar cada tarefa se quiserem preencher a sebenta sozinhos, mas também adoraríamos que fossem criativos. Podem pintar meio desenho e deixar a outra metade para o neto completar, por exemplo”, aponta a criadora, manifestando o desejo de “que eles possam encontrar uma nova forma de comunicação nestes tempos estranhos.”

Fotogaleria
Laro Lagosta

O projecto está disponível online, mas a equipa pretende que a sebenta seja impressa e distribuída gratuitamente, a nível nacional, pelos idosos que recebem apoio das suas juntas de freguesia, tendo para o efeito disponibilizado uma rede de voluntários. Lara Seixo Rodrigues adianta que já há um modelo de parceria definido com a freguesia da Estrela, no centro de Lisboa. “Eles têm a sua entrega diária de alimentação a pessoas que estão em situações de maior risco ou vulnerabilidade. Nós, por estarmos aqui perto, vamos juntar-nos a eles.” A Lata 65 já passou pelo lar Geridade, situado na Calçada da Boa Hora, também na capital, e vai “querer entregar lá a sebenta”. Há outras juntas de freguesia nas cidades de Coimbra, Covilhã e Porto que já se associaram ao colectivo, que espera ver “mais entidades dispostas a ajudar” na divulgação da iniciativa.

Mas não é só para a distribuição que a equipa está à procura parcerias. “Há muitos idosos que não têm lápis para colorir, por exemplo. Quisemos resolver esse problema”, observa, apontando para a parceria que a Sebenta da Quarentena conseguiu estabelecer com a Viarco, que se predispôs a disponibilizar material de pintura e desenho. Também já estão assegurados os apoios das gráficas Graph & Co., Paço Print e Publirep, que vão assegurar a impressão dos cadernos.

Nesta que é uma iniciativa sem fins lucrativos – “construída integralmente através de doações da própria Mistaker Maker, dos autores deste projecto e das empresas que a ele se associaram”, faz questão de esclarecer a equipa –, os idosos são convidados, “caso tenham acesso a essas ferramentas”, a partilharem nas redes sociais “os conteúdos que forem criando”, utilizando a etiqueta #sebentadaquarentena (alternativamente, podem entrar em contacto com a organização através da sua página oficial). É “mais uma forma de inclusão”, comenta Lara Seixo Rodrigues, que manifesta a vontade de organizar um segundo volume.

Embora, para já, a prioridade seja garantir que mais municípios aceitem ajudar na entrega das edições impressas. “Há necessidades que são primárias para os idosos neste momento, como o apoio domiciliário ou a distribuição de alimentação”, conclui. “Mas também é importante alimentar a alma.”

Texto editado por Inês Nadais