Estes médicos não usam bata nem estetoscópio

Não procure pelo médico-tipo que vê no hospital. A grande maioria dos médicos de saúde pública não usa bata nem estetoscópio. E mais do que tratar, procura prevenir a doença e promover a saúde de comunidades inteiras.

O início da década trouxe consigo uma nova epidemia que tem demonstrado e colocado em destaque a importância da saúde pública para as populações. Segundo dados da Ordem dos Médicos, temos em Portugal atualmente cerca de 450 médicos que são especialistas em Saúde Pública. Depois de formados nas faculdades de Medicina, embarcam numa especialidade exigente onde são treinados e capacitados para planear, gerir e monitorizar a execução de diversos programas de saúde, com especial foco na promoção de saúde, na prevenção da doença e na proteção da saúde.

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O início da década trouxe consigo uma nova epidemia que tem demonstrado e colocado em destaque a importância da saúde pública para as populações. Segundo dados da Ordem dos Médicos, temos em Portugal atualmente cerca de 450 médicos que são especialistas em Saúde Pública. Depois de formados nas faculdades de Medicina, embarcam numa especialidade exigente onde são treinados e capacitados para planear, gerir e monitorizar a execução de diversos programas de saúde, com especial foco na promoção de saúde, na prevenção da doença e na proteção da saúde.

Hoje, estes profissionais têm ganho exposição mediática pelas suas capacidades para lidar com surtos de doenças infecciosas, atividade que desenvolvem regularmente através do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica. Mas o trabalho de um médico de saúde pública não se limita e vai muito além dessa vertente.

Afinal, o que faz um médico de saúde pública?

Vamos colocar-nos na pele de um jovem casal, a Maria e o Miguel, que esperam que a sua primeira filha nasça brevemente, a Matilde. Tal como outros milhares de casais em Portugal. Uma análise de padrões demográficos e estilos de vida permite, por exemplo, adequar políticas de natalidade e de necessidades de saúde para esta franja populacional.

Mal nasça, a Matilde vai receber a vacina contra a hepatite B. Esta é a primeira de várias vacinas que irá receber durante a sua vida, destinada a protegê-la de doenças como o sarampo, meningite ou da infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV). O Programa Nacional de Vacinação vai sendo adequado e implementado de acordo com a melhor evidência disponível. Já na escola, vai ter sessões sobre hábitos de higiene oral ou alimentação saudável. Estas sessões, que pretendem educar para a saúde de modo a habilitar as crianças a terem um maior e melhor controlo sobre as escolhas que determinam a sua saúde, são o reflexo de programas geridos a nível local por médicos de saúde pública.

Quando crescer, a Matilde vai ser confrontada com a enorme quantidade de informação sobre saúde (e muita desinformação) que existe no mundo. Mas poderá encontrar  mensagens cuidadosamente preparadas para si (e também para os políticos ), devidamente fundamentadas em investigação científica consistente.

O trabalho desenvolvido na área da saúde pública deve ser enquadrado nas Dez Operações Essenciais em Saúde Pública, definidas pela Organização Mundial da Saúde.

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E quando finalmente “for grande”, a Matilde vai trabalhar em Portugal. Num local de trabalho que deve ser devidamente acautelado e adaptado, que lhe permitirá também proteger a sua saúde de posturas incorretas ou mesmo da exposição a substâncias tóxicas.

Um dia a Matilde vai ficar doente e vai precisar de ir ao médico. Tal como agora, os médicos vão estar devidamente formados e preparados para tratar e notificar novas doenças e vão atuar de acordo com as intervenções mais custo-efetivas (já que estamos sempre a falar de recursos limitados para necessidades infindáveis). Esta formação, a criação de normas e fluxogramas ou mesmo os estudos sobre quais as melhores e mais económicas soluções são muitas vezes preparados por médicos de saúde pública, e é para estas tarefas que eles se especializam.

Estes médicos, devido ao seu exercício do poder de Autoridade de Saúde delegado pelo Estado, são ainda responsáveis por tratarem de juntas médicas de avaliação de incapacidade, com vista à atribuição de atestados multiusos. Mas será que têm tempo para tudo? Estas tarefas, apesar de justas e importantes para a pessoa que recorre a elas (e que, ao contrário das descritas atrás, não trazem ganhos em saúde), não são de facto exercício de saúde populacional. E, neste ponto, não será mais urgente pensar a reorganização dos serviços de saúde e a integração de cuidados, incluindo uma visão mais abrangente e promotora de saúde? Para, por exemplo, quando a Matilde tiver netos, estes consigam navegar mais facilmente no Serviço Nacional de Saúde.

Parece um mundo de ilusão, mas muito do trabalho feito pelos médicos de saúde pública não se vê num primeiro olhar.

E onde trabalham os médicos de saúde pública?

Pode encontrar médicos de saúde pública em vários níveis do sistema de Saúde e Serviço Nacional de Saúde, desde as Unidades de Saúde Pública de nível local até à Direção-Geral da Saúde. Estes médicos não trabalham sozinhos, mas sempre lado a lado com uma equipa multidisciplinar constituída por enfermeiros, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, higienistas orais, psicólogos, entre outros profissionais indispensáveis e fundamentais à execução dos projetos e programas.

Não procure pelo médico-tipo que vê no hospital. A grande maioria dos médicos de saúde pública não usa bata nem estetoscópio. E mais do que tratar, procura prevenir a doença e promover a saúde de comunidades inteiras.

Membros da Direção da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico