Queda de avião matou mais de 170 pessoas. Maioria é iraniana e canadiana

O Boeing 737 despenhou-se pouco depois de descolar do aeroporto internacional Imam Khomeini, em Teerão. A maioria dos passageiros era de origem iraniana, mas seguiam a bordo 63 canadianos.

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Um avião ucraniano com mais de 170 pessoas a bordo caiu perto da capital do Irão, causando a morte a todos os passageiros e tripulantes. Há vítimas de várias nacionalidades, mas a maioria é iraniana e canadiana. As causas do acidente ainda estão a ser investigadas, embora inicialmente se tenha atribuído a queda uma falha no motor. 

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Um avião ucraniano com mais de 170 pessoas a bordo caiu perto da capital do Irão, causando a morte a todos os passageiros e tripulantes. Há vítimas de várias nacionalidades, mas a maioria é iraniana e canadiana. As causas do acidente ainda estão a ser investigadas, embora inicialmente se tenha atribuído a queda uma falha no motor. 

O Boeing 737 da Ukraine International Airlines despenhou-se pouco depois de descolar do aeroporto internacional Imam Khomeini, em Teerão, às 2h40. Segundo agências internacionais, o avião caiu num terreno agrícola a sudoeste da capital. De acordo com o serviço FlightRadar24, o avião subiu até aos 7925 pés (2,4 km) de altitude, voando a 509 km/h (275 nós) antes de se despenhar.​

As duas caixas negras foram entretanto recuperadas, avança a televisão estatal iraniana citada pela Reuters — ambas ficaram danificadas, mas acredita-se que os dados ainda podem ser recuperados. No entanto, a tensão entre o Irão e os Estados Unidos pode dificultar a investigação, uma vez que vai criar obstáculos à colaboração entre Teerão, NTSB [responsável pela investigação de acidentes aéreos] norte-americana e a própria construtora, a Boeing.

De acordo com a lei internacional, a responsabilidade pela investigação é iraniana, mas as autoridades ucranianas podem também ser envolvidas. E, porque as empresas responsáveis pelo desenho e construção da aeronave e do motor são norte-americanas e francesas, também esses países podem vir a ser implicados.

O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano Vadim Pristaiko​​, citado pela AFP e pela Reuters, avança a nacionalidade das 168 vítimas mortais. Pelo menos 82 eram iranianos, 63 canadianos, dez suecos, quatro afegãos, três alemães e três britânicos. A companhia aérea ucraniana, a Ukraine International Airlines, já antes tinha confirmado que a bordo seguiam apenas 11 nacionais ucranianos, incluindo os nove membros da tripulação. A maioria dos passageiros seguia para outros voos de ligação em Kiev, acrescenta a companhia. 

Os nomes das vítimas já foram, entretanto, tornados públicos pela companhia aérea. As vítimas tinham entre dois e 70 anos. Pelo menos 13 iranianos que seguiam naquele voo eram estudantes universitários da Universidade de Sharif, vocacionada sobretudo para os cursos de engenharia e tecnologia, em Teerão. A universidade publicou uma mensagem de condolências no seu site, com uma lista em actualização das vítimas com ligação à instituição de ensino.

Entre os 63 canadianos que morreram estava uma família de quatro pessoas (com duas crianças) e um casal (Arash Pourzarabi, de 26 anos, e Pouneh Gourji, de 25 anos) que tinha viajado para o Irão para celebrar o seu casamento. Mais de um terço das vítimas mortais eram canadianas, muitas das quais estavam de regresso a casa após terem ido passar férias ao Irão. Segundo fonte citada pelo Guardian, 24 tinham dupla nacionalidade (iraniana e canadiana).

O primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, garantiu que o Governo irá acompanhar de perto a investigação da ocorrência, em colaboração com outros países. Em comunicado, citado pelo Guardian, Trudeau mostrou-se “chocado” com a notícia: “Em nome do Governo do Canadá, a Sophie e eu apresentamos as nossas mais profundas condolências àqueles que perderam familiares, amigos e entes queridos nesta tragédia”, afirmou. De acordo com o censo mais recente, mais de 210 mil pessoas de descendência iraniana vivem no Canadá, uma das maiores diásporas iranianas no mundo.

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, garantiu que os Estados Unidos estão totalmente disponíveis para colaborar com a Ucrânia nas investigações sobre o que esteve na origem da queda do avião.

Algumas imagens publicadas nas redes sociais mostram o avião, em chamas, a despenhar-se. “O fogo era tão intenso que não conseguimos salvar ninguém... Temos 22 ambulâncias, quatro autocarros ambulância e um helicóptero no local”, disse o chefe dos serviços de emergência iraniano, Pirhossein Koulivand, à televisão estatal.

O director do Gabinete do governador de Teerão, a cargo da gestão de crises, Mansour Darajati acrescentou à agência de notícias IRNA as equipas de resgate conseguiram recuperar os corpos, que não estão “em boas condições”, acrescentou a mesma fonte. 

Incerteza sobre causa do acidente

Na primeira comunicação desta manhã, a embaixada ucraniana no Irão citava dados preliminares para afirmar que a causa do acidente era um problema no motor do avião. No entanto, na segunda comunicação do dia, a representação diplomática ucraniana recuou e omitiu a referência à falha no motor como causa do acidente — as primeiras informações não eram, alegadamente, oficiais.

Esta posição está em linha com o que alega o construtor do motor, a franco-americana CFM: “Não temos nenhuma informação neste momento. Qualquer especulação sobre a causa é prematura”, afirmou a empresa que é detida em conjunto pela General Electric e pela Safran, em comunicado.

Questionado em Kiev sobre a possibilidade de o avião ter sido abatido num ataque, o primeiro-ministro ucraniano Oleksii Honcharuk pede que não se “especule sobre a causa” até a mesma ser apurada oficialmente.

Ano começa mal para a Boeing

Em 2019, a Boeing suspendeu, pela primeira vez em 20 anos, a produção de um modelo das suas aeronaves: o modelo Boeing 737 Max 8, o fatídico modelo que provocou dois acidentes aéreos no espaço de meio ano.

A decisão foi tomada na sequência de dois acidentes mortais com aviões desse modelo. O primeiro aconteceu em Outubro de 2018, na Indonésia. O avião seguia com 189 pessoas a bordo e despenhou-se no Mar de Java, poucos minutos depois de ter levantado voo. Não houve sobreviventes.

Menos de seis meses depois, em Março de 2019 aconteceu o segundo acidente, desta vez na Etiópia. À semelhança do primeiro, o aparelho despenhou-se apenas seis minutos depois de ter partido de Addis-Abeba. Mais uma vez, não houve sobreviventes.

Na sequência deste último acidente, vários países proibiram que o aparelho voasse no seu espaço aéreo e várias companhias aéreas cancelaram os pedidos de produção dos 737 Max. A decisão fez-se sentir nas contas da fabricante norte-americana: os lucros da empresa caíram 13% nos primeiros três meses de 2019.

As investigações ao acidente de Addis-Abeba mostraram que a falha não havia sido humana, mas dos sistemas de controlo de navegabilidade.

O avião que caiu nesta quarta-feira não era, no entanto, do mesmo modelo. “O voo foi operado num Boeing 737-800 com a matrícula UR-PSR. A aeronave foi construída em 2016 e foi entregue directamente à companhia pelo construtor”, informa a Ukraine International Airlines.

A companhia aérea ucraniana afirma que o avião passou a última revisão técnica, que aconteceu na última segunda-feira, dia 6 de Janeiro. Citada pela Reuters, a companhia aérea ucraniana defende-se dizendo que este era um dos seus “melhores aviões” e que os pilotos que comandavam a aeronave eram dos mais experientes. Não havia qualquer indício de potencial avaria antes da descolagem.

Os voos da Ukraine International Airlines com destino a Teerão estão suspensos indefinidamente, “com efeitos imediatos”, acrescenta a empresa em comunicado.

A companhia está a tentar contactar os familiares das vítimas. Vai ser aberta uma investigação pelas autoridades ucranianas e iranianas, junto da companhia aérea e fabricante do avião.