Bel Olid: “Quando as pessoas têm pouco a perder é difícil contê-las”

A escritora Bela Olid diz que a sentença dos dirigentes independentistas da Catalunha fez transbordar um copo que já estava cheio. Acredita que se está a “criar muita rejeição face ao governo catalão”.

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A escritora Bela Olid diz que começa a haver rejeição ao governo catalão JON NAZCA/Reuters

A escritora Bela Olid, de 42 anos, presidente da Associação de Escritores em Língua Catalã e ex-candidata da CUP (esquerda radical), conversa com o PÚBLICO um dia depois de ter regressado da Feira do Livro de Frankfurt. Viu à distância os protestos dos últimos dias, mas não a surpreende a violência nas ruas de Barcelona. A sentença dos dirigentes independentistas fez transbordar um copo que já estava cheio.

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A escritora Bela Olid, de 42 anos, presidente da Associação de Escritores em Língua Catalã e ex-candidata da CUP (esquerda radical), conversa com o PÚBLICO um dia depois de ter regressado da Feira do Livro de Frankfurt. Viu à distância os protestos dos últimos dias, mas não a surpreende a violência nas ruas de Barcelona. A sentença dos dirigentes independentistas fez transbordar um copo que já estava cheio.

Hoje atingiu-se um ponto de não retorno nas relações com Espanha?
Creio que é como um copo que vais enchendo e no final transborda. Esta semana com a sentença foi um ponto de ‘chega, não’. Manifestámo-nos pacificamente durante dez anos e condenam os nossos líderes a 100 anos de prisão. Não se pode tolerar que duas pessoas como Jordi Cuixart e Jordi Sánchez, que tentavam acalmar os protestos para que fossem o mais possível pacíficos, sejam condenadas a nove anos de prisão. Não há qualquer esperança de compreensão, de justiça nem de entendimento.

Quando as pessoas têm pouco a perder é difícil contê-las. E penso que é isso que tem acontecido esta semana, os mais jovens sobretudo sentem que não têm futuro. E é muito perigoso quando as pessoas sentem que não há futuro, porque então é preciso construí-lo, e se for preciso construí-lo com pedras, pois assim será. Não podes não reagir. Cada coisa nova que faz o Estado espanhol é uma confirmação de que não há caminho por aí.

Os apelos à moderação, tanto em Madrid como na Catalunha, estão desligados da realidade que se vive hoje nas ruas?
Estamos muito indignados com o governo da Generalitat, porque até agora parecia que os maus eram a Polícia Nacional e a Guardia Civil, e que os Mossos d'Esquadra não nos tratavam tão mal. De repente, ver que nas manifestações independentistas são os Mossos que reprimem com toda a violência, isso indigna muita gente. E depois que apareça o presidente da Catalunha ou [o conselheiro do Interior] Miquel Buch a dizer que a polícia está a actuar muito bem, claro que indigna. Por que o que se está ali a fazer é um protesto pacífico, ocupar uma rua, que é algo a que tenho direito – e carregam da mesma forma.

Creio que se está a criar muita rejeição face ao governo catalão. E há a questão dos adolescentes, que cresceram com estes protestos pacíficos, com milhões nas ruas sem que nada aconteça, com o lema ‘nem um papel no chão’, e o resultado foi cem anos de prisão para os líderes. Se nos vão pôr na cadeia de qualquer forma, então vamos em frente. É uma coisa contraproducente. Se por dois actos tão diferentes como protestar pacificamente ou protestar não tão pacificamente, com acções de força, vais para a prisão, que incentivo tens para o fazer de forma pacífica?

A acção dura dos Mossos surpreendeu?
Quem participou no 15-M [os protestos de 2011] sabe que os Mossos também reprimem com a mesma força que os outros. Até agora, nos protestos independentistas estavam a guardar as distâncias, então muita gente tinha a ideia de que ‘os Mossos são dos nossos’. No referendo de 1 de Outubro de 2017, os Mossos não carregaram. Tinham um comportamento muito diferente. Quem não participava noutros movimentos sociais ficou muito surpreendido. Há uma contradição muito forte.

O governo da Generalitat diz à população para se ir manifestar à tarde e depois os Mossos atacam de forma selvagem manifestantes pacíficos. O governo catalão está a ter muitas dificuldades em manter o discurso de que só se atacam os violentos, porque não é verdade e estamos a vê-lo com os nossos olhos.

O receio de que o artigo 155 seja de novo invocado está a paralisar o governo catalão?
Não. Penso que a situação está a fugir das mãos do governo. Acreditava que depois destes dez anos de manifestações pacíficas podia, com mensagens muito tíbias, conter a população, e equivocou-se porque a situação mudou. E sobretudo nos últimos dois anos não foi oferecida nenhuma solução política satisfatória para muita gente. Esta ideia de que vamos esperar um pouco mais, [pedir] diálogo com Espanha... Mas Espanha não quer dialogar, nem vai querer nos próximos anos. Não estão a dar uma solução política, não estão a responder ao que pedem as pessoas nas ruas, que é a independência. E não estão a responder porque não sabem como.

Mas também creio que têm muito medo. É preciso recordar que é a direita que está a governar aqui. O Juntos pela Catalunha é um partido de direita que está numa coligação com a Esquerda Republicana, que teoricamente é de esquerda, mas que votam em muitos casos com a direita sem qualquer problema. Penso que há muito medo por parte da classe política de que as pessoas tomem as ruas e se apercebam do poder que têm. Se nos estamos a manifestar assim pela independência, imagine que nos começamos a manifestar assim por um salário mínimo justo, ou por uma redistribuição dos impostos mais justa.

Vale a pena pôr em risco o autogoverno?
Mas o que é que muda? Neste momento temos um governo ineficaz, que não controla os efectivos policiais, que está a tentar aprovar uma lei a favor da privatização de muitos dos serviços sociais públicos. Portanto para mim é claro que vale a pena preservar o autogoverno, mas a questão é que o autogoverno não está a fazer nada para mudar a situação para melhor.