Crimes da extrema-direita: autoridades alemãs querem fortalecer o “olho direito” da polícia

Acusada de ser cega perante os crimes da extrema-direita, a polícia vai mudar a forma como lida com esta ameaça, após o assassínio do político conservador Walter Lübcke e da divulgação de “listas de alvos” de grupos neonazis.

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Manifestação da extrema-direita em Chemnitz , em 2018 FRANZ FISCHE/EPA

Há anos que responsáveis pela luta contra os crimes de extrema-direita se queixam de não lhes ser dada a importância devida. Desde 2001 que as autoridades se concentram na luta contra o islamismo. Mas desde então já vários crimes da extrema-direita deixaram o país chocado, e o último não teve precedentes na Alemanha do pós-guerra: o assassínio de um político, em Junho.

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Há anos que responsáveis pela luta contra os crimes de extrema-direita se queixam de não lhes ser dada a importância devida. Desde 2001 que as autoridades se concentram na luta contra o islamismo. Mas desde então já vários crimes da extrema-direita deixaram o país chocado, e o último não teve precedentes na Alemanha do pós-guerra: o assassínio de um político, em Junho.

Um plano da BKA (polícia criminal) quer mudar isso – usando técnicas de análises de dados já aplicadas na prevenção do terrorismo islamista, aumentando o número de agentes a trabalhar nestes casos, e tentando facilitar o acesso a bases de dados mais antigas para conseguir detectar mais cedo pessoas que estejam prontas a atacar.

O caso de Walter Lübcke foi um choque especial. Conservador, católico, da União Democrata Cristã (CDU), partido da chanceler Angela Merkel, não era o típico político de esquerda que poderia ser alvo da extrema-direita. Parece tê-lo sido por uma razão: a defesa dos refugiados.

Vários peritos acreditam que o criminoso (que confessou e logo a seguir, com outra equipa legal, mudou a versão) escolheu Lübcke devido a um comentário que fez em 2015 num encontro público para explicar o acolhimento de refugiados na localidade Lohfelden. Quando foi confrontado por uma série de vozes contra os refugiados, Lübcke, inicialmente calmo, irritou-se perante a exaltação na assembleia, e a dada altura respondeu que quem não quisesse respeitar os direitos humanos “era livre para sair da Alemanha”. Esta frase foi tirada do contexto e divulgada nas redes sociais. Seguiu-se uma campanha de ódio contra o político, que chegou a estar sob protecção policial, até tudo acalmar de novo.

O comentário foi de novo publicado no Facebook este ano, em Fevereiro, por uma antiga colega de partido de Lübcke, Erika Steinbach, que saiu para o partido de direita radical Alternativa para a Alemanha (AfD). A onda de ódio voltou.

Daniel Köhler, director do Instituto Alemão de Estudos de Radicalização e Desradicalização, em Estugarda, culpa Steinbach. “Ela nunca ameaçou Lübcke, mas deu uma plataforma aos que o fizeram”, disse o analista à rádio pública americana NPR.

Lobos pouco solitários

Tanjev Schulz, especialista em extremismo de direita, disse ao New York Times que as autoridades tendem a olhar para os crimes da extrema-direita como obra de pessoas sozinhas, os chamados lobos solitários. “Mas o objectivo estratégico dos neonazis tem sido sempre desestabilizar o Estado.”

Os autores dos crimes podem estar sozinhos quando os cometem, “mas mesmo assim, não estão a agir sozinhos”, sublinhou à revista alemã Der Spiegel Miro Dittrich, da Fundação Amadeo Antonio, que se dedica a analisar racismo, anti-semitismo e movimentos de extrema-direita (o nome é do angolano Amadeu Antonio Kiowa, que morreu depois de ter sido atacado por um grupo de skinheads em 1990 na cidade de Eberswalde). Os autores dos crimes “sabem que há uma comunidade que os encoraja e que os vai celebrar e glorificar depois dos seus actos”, sublinhou Dittrich.

Os crimes da extrema-direita acontecem aqui e ali, mas quando são vistos no conjunto tomam outra importância: 169 assassínios desde 1990, segundo uma investigação de dois jornais, Die Zeit e Der Tagesspiegel.

“Estatisticamente, há três ataques violentos de extrema-direita todos os dias na Alemanha. Não temos outra forma de extremismo violento que represente uma ameaça dessas”, notou Daniel Köhler, cujo instituto estuda também a radicalização jihadista.

Outros ataques contra políticos falharam por pouco: como a presidente da Câmara de Colónia, Henriette Reker, que em 2015 foi atacada por um homem que a esfaqueou no pescoço quando estava em campanha (quando foram divulgados os resultados da eleição, a política, que venceu, ainda estava em coma). Recebera ameaças de morte antes deste ataque e continuou a recebê-las depois; uma referia-se à morte de Lübcke: “A fase da limpeza começou com Walter Lübcke. Vão seguir-se muito mais, incluindo tu. A tua vida vai acabar em 2020”.

A semana passada, uma candidata à liderança do Partido Social Democrata (SPD), Petra Köpping, foi posta sob protecção policial depois de receber ameaças de morte.

O assassino que confessou matar Lübcke tinha um historial de participação em iniciativas de extrema-direita e em dois casos de agressões graves a estrangeiros, uma das vítimas quase morreu. Mas depois de ser pai deixou de aparecer nos encontros com outros neonazis, desapareceu da “cena”, como lhe chamam, e as autoridades deixaram de o seguir.

Os números da ameaça

A agência que monitoriza a força de grupos que possam ameaçar a democracia – extrema-direita, ou islamistas, por exemplo – estima que existam 21,400 membros de grupos de extrema-direita, dos quais metade prontos a cometer actos violentos.

O jornal Die Zeit sublinha que há uma discrepância entre o número de pessoas consideradas prontas a atacar – cerca de 700 islamistas e apenas 41 de extrema-direita, quando há 12 mil pessoas de extrema-direita “prontas a cometer actos violentos”. O semanário diz que o novo mecanismo de análise planeado pela polícia pode ajudar a diminuir esta discrepância.

Há ainda quase 500 extremistas com mandados de captura que a polícia não consegue localizar, a maioria por crimes como roubos, fraude ou infracções de trânsito. Pode não parecer relacionado, mas foi precisamente um roubo que levou ao fim do movimento de extrema-direita NSU, que durante dez anos matou dez pessoas, a maioria de ascendência turca, e uma polícia – a polícia descobriu que os crimes tinham tido motivação política e de ódio racial apenas anos depois, quando dois elementos do grupo se suicidaram após terem sido descobertos.

Uma sobrevivente do NSU foi julgada mas não deu informações relevantes, num caso que tem ainda hoje muito por explicar e a propósito do qual os media repetiram uma e outra vez: “A polícia é cega do olho direito”.

Finalmente, há o problema da presença de pessoas de extrema-direita tanto na polícia como no Exército. Há suspeitas de que os 30 membros de um grupo que elaborou uma “lista de alvos” com moradas e encomendou sacos para cadáveres, como se descobriu em Junho, tivesse ligações à polícia. Mais, que os dados da lista tivessem tido origem em bases de dados da polícia. Em 12 anos, diz o diário Die Welt citado dados do Ministério do Interior, houve 30 casos de actos de extrema-direita cometidos por elementos da polícia.