Uma ré silenciosa no maior julgamento de neonazis da Alemanha

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Memorial de homenagem às vítimas, em Nuremberga MICHAEL DALDER/REUTERS

Os crimes da célula de Zwickau deixaram a Alemanha chocada. Mas há quem diga que uma desconfiança latente em relação aos imigrantes continua a marcar a acção da polícia e que nada mudou.

O maior julgamento de neonazis da Alemanha e um dos processos judiciais mais importantes no país desde o final da II Guerra Mundial começa hoje em Munique. A principal figura do processo é Beate Zschäpe, 38 anos, a única sobrevivente do grupo auto-intitulado "Nacional-Socialista Clandestino" (NSU). Zschäpe prometeu não quebrar o silêncio que tem mantido desde há ano e meio.

No banco dos réus estão ainda quatro cúmplices de uma rede de 129 pessoas que terão ajudado, directa ou indirectamente, o trio do NSU. E a polícia e os serviços de informação interna da Alemanha vão estar de novo a ver escrutinadas as suas falhas na investigação dos crimes.

O trio terá levado a cabo uma onda de assassínios entre 2000 e 2007: sete turcos ou alemães de origem turca, um grego, e uma agente da polícia. As autoridades investigaram os assassínios um a um, sem suspeitar de um motivo racista. Muitas vezes, apontaram para possíveis crimes das vítimas, ligações a grupos mafiosos, actividades ilegais que explicassem ajustes de contas.

"Sinto que o meu pai foi morto duas vezes", sintetizou Semiya Simsek, filha de Enver Simsek, a primeira vítima. "Parece que os neonazis dispararam contra ele, mas as autoridades alemãs mataram-no uma segunda vez." A mãe chegou a ser suspeita. "Durante 11 anos, não tivemos o direito de ser vítimas."

Esta foi uma das questões levantadas por estes casos - cuja resolução aconteceu por acaso, em 2011, numa perseguição policial a dois homens que levaram a cabo um assalto, falhado, a um banco, em Eisenach (ex-RDA). A polícia conseguiu estabelecer um cerco à zona de um parque de campismo para onde tinham fugido, e, ao pressentirem que seriam apanhados, os dois morreram num aparente pacto de suicídio.

Tratava-se de Uwe Mundlos, então com 38 anos, e Uwe Böhnhardt, 34. Na caravana - à qual tinham pegado fogo - a polícia encontrou uma pistola Ceska, a arma com que tinham sido mortas todas as vítimas, sempre à queima-roupa. E um DVD, pronto a enviar a órgãos de comunicação social, mostrando imagens dos crimes e reivindicando a sua autoria.

Pouco depois, Beate Zschäpe terá visto o suicídio nas notícias e incendeia o apartamento em que os três viviam na cidade de Zwickau, também no Leste da Alemanha, e foge. Quatro dias mais tarde, aparece numa esquadra de polícia e diz: "Sou aquela que procuram."

E, desde então, pouco mais disse. Negou os crimes de que é acusada - apesar das provas, desde a arma do crime ao DVD com a reivindicação (em que uma pantera cor-de-rosa aponta os locais do crime, intercalada com imagens das vítimas). "Toda a Alemanha sabe o seu nome, mas ninguém sabem quem é", resumia o diário Die Welt.

Sabe-se que Zschäpe, nascida em Jena (então na RDA), foi afectada pelo alto nível de desemprego na região que se seguiu à reunificação da Alemanha. Mudou de apelido várias vezes no primeiro ano de vida - o pai, provavelmente romeno, nunca assumiu a paternidade - e aos investigadores disse que os dois companheiros eram a sua família. Terá sido com eles que começou a sua radicalização e teve ligação romântica com ambos. Descrita como uma rapariga normal, terá sido quem evitou suspeitas sobre o grupo.

Explosivos na garagem

Os três viviam em clandestinidade desde 1998, quando a polícia descobriu bombas caseiras com 1,4 quilos de TNT numa garagem alugada por Zschäpe, uma espingarda e um jogo chamado Pogromly (uma versão neonazi do Monopólio) em sua casa, segundo a revista Der Spiegel.

Desde então, o grupo viveu de assaltos a bancos (a polícia disse entretanto que lhes poderia imputar uns 15 assaltos) e com relativa impunidade. As autoridades foram fustigadas por uma série de erros. Um dos mais preocupantes terá sido um racismo inculcado que as fez sempre suspeitar primeiro das vítimas e nunca ponderar um motivo racista. Uma frase de um documento interno do estado de Baden-Württemberg de 2007 ficou agora tristemente célebre: o assassino não poderia ser da Europa ocidental. "Porque na nossa cultura a morte de seres humanos é um grande tabu."

Gurcan Daimaguler, advogado que representa algumas das vítimas (77 familiares aparecem como queixosos no processo), diz que na Alemanha "há uma desconfiança em relação à comunidade imigrante".

O facto é que a polícia parece ter dificuldade em ver motivações racistas em crimes. Segundo o Ministério do Interior, houve 63 assassínios racistas entre 1990 e 2012. Mas o semanário Die Zeit e o diário Tagesspiegel documentaram pelo menos 152 mortes por criminosos de extrema--direita no mesmo período.

Activistas da defesa dos direitos de imigrantes dizem que pouco mudou, mesmo depois de o país acordar, chocado, para a violência deste trio. Biplab Basu, activista de um grupo de ajuda a vítimas de violência racista em Berlim, contou um caso recente à revista Der Spiegel: um jovem negro tinha sido agredido no bairro berlinense de Neukölln. Ao chegar ao local, a primeira coisa que a polícia fez foi algemar o jovem, achando que era ele o criminoso.