Ordem aponta a falta de pelo menos 96 obstetras no Norte e Centro do país

Bastonário dos médicos reuniu-se com 15 directores de serviço de Ginecologia/Obstetrícia e Neonatologia do Norte e Centro do país onde foram discutidas e denunciadas “as graves carências de especialistas”.

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asm ADRIANO MIRANDA

A Ordem dos Médicos defendeu na última segunda-feira que faltam 96 obstetras no Norte e Centro do país, sublinhando que mais de metade dos obstetras do Serviço Nacional de Saúde (SNS) têm mais de 55 anos. Logo, estão dispensados de fazer urgências. Um alerta feito após a reunião com 15 directores de serviço de Ginecologia/Obstetrícia e Neonatologia dos hospitais do Norte e Centro do país, onde foram discutidas e denunciadas “as graves carências de especialistas” nestas áreas.

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A Ordem dos Médicos defendeu na última segunda-feira que faltam 96 obstetras no Norte e Centro do país, sublinhando que mais de metade dos obstetras do Serviço Nacional de Saúde (SNS) têm mais de 55 anos. Logo, estão dispensados de fazer urgências. Um alerta feito após a reunião com 15 directores de serviço de Ginecologia/Obstetrícia e Neonatologia dos hospitais do Norte e Centro do país, onde foram discutidas e denunciadas “as graves carências de especialistas” nestas áreas.

“No Hospital de Braga são necessários mais três obstetras com urgência, na Unidade Saúde Local de Matosinhos mais cinco, na Unidade Local de Saúde do Alto Minho mais sete, na Unidade Local de Saúde do Nordeste mais oito. Lembro que Bragança tem apenas quatro especialistas e todos com mais de 55 anos, ou seja, se deixarem de fazer o serviço de urgência externa, a maternidade fecha a urgência”, detalhou o bastonário Miguel Guimarães aos jornalistas.

Por lei, os clínicos podem deixar de fazer urgências nocturnas a partir dos 50 anos e todas as outras a partir dos 55 anos.

O dirigente adiantou que as graves carências de obstetras são sentidas também nos Centros Hospitalares de Entre Douro e Vouga (quatro), de Trás-os-Montes e Alto Douro (seis), Médio Ave (dois), São João, no Porto (seis), Póvoa de Varzim/Vila do onde (sete a 10), Tâmega e Sousa (oito a 10), Gaia/Espinho (três), Tondela Viseu (cinco), Coimbra (15), Cova da Beira (cinco), Baixo Vouga (sete), e ainda no Hospital de Guimarães, que necessita de mais cinco obstetras.

“São números que mostram a dificuldade que estes directores de serviço e que os médicos que trabalham nestas maternidades têm para assegurar os cuidados que as nossas grávidas precisam (...). Estes médicos têm feito um enorme esforço, têm feito muito mais horas extraordinárias do que aquelas que deviam fazer para manterem a capacidade de resposta. Mas é evidente que estes médicos estão cada vez com mais stress, precisam de ter mais apoio do Ministério da Saúde”, disse, sublinhando que estes números são ainda provisórios.

No caso do Norte, frisou, estes profissionais foram “completamente desconsiderados” na atribuição de vagas: das 45 vagas dos dois concursos para obstetrícia e ginecologia, apenas cinco vagas fora atribuídas para o Norte do país, que serve cerca de 3,7 milhões de pessoas. Situação que motivou uma carta que os responsáveis dos serviços pretendiam entregar à ministra da Saúde.

Envelhecimento médico

Miguel Guimarães explicou ainda que à falta de especialistas acresce o problema do envelhecimento da classe médica, que, a curto prazo, pode agravar a situação. “Nós temos uma percentagem, mas muito, muito elevada de médicos com mais de 55 anos. No caso da obstetrícia e ginecologia são mais de 50% com mais de 55 anos e dois terços com mais de 50 anos, o que significa que, a curto prazo, o número de médicos de obstetrícia e ginecologia que se vai reformar vai ser muito elevado. E, portanto, (...) temos que rapidamente começar a actuar”, defendeu.

Questionado pelos jornalistas, Miguel Guimarães afirmou, contudo, que tanto quanto é do conhecimento da Ordem do Médicos, a hipótese de um funcionamento rotativo das maternidades no Norte e Centro do país, à semelhança do que foi discutido em Lisboa, “não foi colocada em cima da mesa”.

O encerramento rotativo de urgências obstétricas é uma das possibilidades em estudo para resolver o problema da falta de médicos especialistas em obstetrícia e anestesia que estão a impedir a realização de escalas completas durante o Verão na Maternidade Alfredo da Costa, Hospital de Santa Maria, Hospital Amadora-Sintra e Hospital São Francisco Xavier. A situação tem motivado a realização de várias reuniões entre os directores de serviço com a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo e com a Ordem dos Médicos.

O dirigente revelou também que, “se calhar ainda esta semana”, vão ser apresentadas à ministra da Saúde, Marta Temido, mais algumas propostas no sentido de resolver o problema da falta de especialistas, propostas que vão agora ser compiladas e trabalhadas e que saíram da reunião desta segunda-feira.