A procura da “Estrada do Paraíso” habita A Vida No Campo

Joel Neto e Catarina Ferreira de Almeida mudaram-se de Lisboa para os Açores há sete anos. Agora, escreveram juntos um texto, a partir do livro A Vida no Campo. Uma crise conjugal, quotidianos e dilemas comuns, vida rural e urbana. E como, afinal, a felicidade não tem geografia. Peça de Luísa Pinto sobe esta quinta-feira ao palco da Casa das Artes, em Famalicão.

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O regresso ao ponto de partida fora uma “obsessão de sempre”. Como obsessão havia sido partir. Joel Neto recua à primeira infância para encontrar o menino dos Açores desejoso de voar até à capital. Relembra o estudante na cidade grande (sempre “o açoriano”) com o foco permanente do regresso às origens. Nesses anos, porém, talvez não houvesse ainda a reflexão do que significava verdadeiramente partir, voltar, pertencer. Daquilo que o campo dava e a cidade roubava. Das virtudes da urbe ausentes do mundo rural. E da busca da felicidade. Quando há sete anos o anunciado regresso à ilha se proporcionou, Joel Neto já não estava sozinho. De Lisboa à Terra Chã, na Terceira, viajaram “três entidades”: Joel, a companheira Catarina Ferreira de Almeida e o casal. Juntos, fugiram do colapso das áreas onde trabalhavam: os jornais e a indústria editorial. Mas também do “absurdo” de habitar um território onde sentiam não encaixar. “Vivíamos numa cidade muito cara, onde é muito triste morar quando não se pode usufruir dela”, comenta Joel Neto: “Era uma vida tonta.”

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O regresso ao ponto de partida fora uma “obsessão de sempre”. Como obsessão havia sido partir. Joel Neto recua à primeira infância para encontrar o menino dos Açores desejoso de voar até à capital. Relembra o estudante na cidade grande (sempre “o açoriano”) com o foco permanente do regresso às origens. Nesses anos, porém, talvez não houvesse ainda a reflexão do que significava verdadeiramente partir, voltar, pertencer. Daquilo que o campo dava e a cidade roubava. Das virtudes da urbe ausentes do mundo rural. E da busca da felicidade. Quando há sete anos o anunciado regresso à ilha se proporcionou, Joel Neto já não estava sozinho. De Lisboa à Terra Chã, na Terceira, viajaram “três entidades”: Joel, a companheira Catarina Ferreira de Almeida e o casal. Juntos, fugiram do colapso das áreas onde trabalhavam: os jornais e a indústria editorial. Mas também do “absurdo” de habitar um território onde sentiam não encaixar. “Vivíamos numa cidade muito cara, onde é muito triste morar quando não se pode usufruir dela”, comenta Joel Neto: “Era uma vida tonta.”

Assim se principiou uma nova biografia. Dela, nasceu em 2016 o livro A Vida no Campo, uma espécie de diário de Joel Neto, inicialmente publicado em páginas de jornal. E a partir dessa obra, ergueu-se um texto a quatro mãos, agora revelado no palco da Casa das Artes, em Famalicão (quinta, sexta e sábado, 21h30), com encenação de Luísa Pinto, os actores António Durães e Filipa Alves e a participação especial do jornalista Fernando Alves.

O encontro entre a encenadora e Joel Neto foi um acaso. Convidados para o mesmo programa de rádio - ela a falar de teatro, ele do seu romance Arquipélago ­- Luísa Pinto ouvia e deixava-se fascinar. “Só via imagens à frente, era tão cinematográfico…” Joel ofereceu-lhe o livro, Luísa leu-o de um fôlego. E quando A Vida no Campo saiu, o ritual repetiu-se. “Li e escrevi-lhe: queria muito pôr aquilo em palco.” O escritor e jornalista, nascido no ano da revolução, disse sim. E arrastou a mulher, lisboeta, tradutora e especialista em literatura fantástica, para a aventura. Foi a primeira vez de uma escrita a quatro mãos, de linhas pensadas para serem representadas.

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Como peça de teatro, A Vida no Campo - uma co-produção Narrativensaio-AC e Casa das Artes que segue depois para Castelo Branco (11 de Abril), Bragança (13 de Abril), Almada (26 e 27 de Abril), Ilha Terceira (4 de Maio) e Ilha de S. Miguel (11 de Maio) -, é a história de um casal em crise. Ou talvez apenas de um casal a viver as inevitáveis fracturas de uma vida a dois. Dúvidas, discussões, descrédito, a hipótese da terapia conjugal, ciúme. Escrever em conjunto, contaram, foi dialogar sobre as fases da vida na Terceira: o “deslumbramento, o desencanto, a claustrofobia”, nomeia Catarina. Mas também a noção de maior liberdade, uma vida mais barata e saudável, menos stressante. Num tempo vivido de outra forma. O exercício revelou-se quase redentor: “Às vezes não conseguíamos resolver certos solavancos na vida doméstica e na escrita as coisas deslindam-se.” A exposição impôs o voyeurismo como limite: não queriam violações de privacidade, mas exploravam os contornos de um “jogo de espelhos” onde o leitor tanto podia encontrá-los a eles como a si mesmo. Um certo sorriso toma conta dos dois, como se uma vitória de optimismo se anunciasse: “É um alívio ver os nossos problemas viver no corpo dos outros.”

Os corpos são de António Durães e Filipa Alves, um casal com uma diferença de idades mais acentuada do que a existente entre Joel e Catarina. Ideia de Luísa Pinto: “Li-os e pensei na Pilar e no Saramago. Havia a ilha, um escritor, uma mulher.” E havia também um precipício e provocação maiores: uma jovem deixava a cidade grande, por amor a um homem muito mais velho, contra todos os preconceitos da terra. No palco, os diálogos decorrem num cenário minimal, imagem de marca da encenadora e imposição de um orçamento baixo, de mãos dadas com uma sonoplastia (de Carlos Tê) e vídeo transformados em viagem sensorial. São conflitos de um casal habitante numa ilha, mas que poderia acontecer em qualquer geografia. A convocação para essa análise vem pela voz que inquieta e afaga de Fernando Alves. Sentado numa cadeira, escrivaninha com livros à frente, o jornalista da TSF vai lendo uma série de textos, como se fosse o próprio Joel a escrever naquele momento. 

A “brincadeira a sério” aflige o homem da rádio. Mas quando Luísa Pinto ouviu a reportagem de quase 40 minutos de Fernando Alves na Terceira, a propósito do livro de Joel, chorou de emoção. Nela cabia toda uma ilha, crianças a imitar cagarros, tocadores de violas, um carteiro apaixonado por livros. “Tudo naquela voz inacreditável”, diz como se buscasse explicações: “Tinha de ser ele o narrador.”

A Vida no Campo, diz Fernando Alves, recolhe ensinamentos sobre os obreiros da comunidade para onde Joel regressou, Lugar dos Dois Caminhos. Tem o pai, o avô com quem falava de estrelas, os velhos criadores de gado. “Ele comunica com essas pessoas, mas não com o olhar de vampiro que utiliza as histórias para as tratar jornalisticamente ou na ficção”, sublinha. Ali, o olhar é de “vizinho”, de alguém com honesto desejo de “pertencer”.

A “urgência” de Luísa Pinto era “falar sobre coisas do quotidiano”. Naqueles textos de pequenos nadas cabe, afinal, quase tudo. “Há coisas simples das quais parecemos estar todos esquecidos. É preciso olhar com olhos de ver, observar a nossa terra. A escrita do Joel resgatou-me memórias olfactivas, cheiros da minha rua, das flores e das pessoas, sobretudo das pessoas”, reflecte. A dada altura, o apelo foi tal que chegou a ansiar largar os dias de relógio acelerado e buscar outra vida.

Também Fernando Alves já teve esse plano. Há uns vinte anos, pensou mudar-se para a aldeia dos pais, na zona da Sertã. “Não fui capaz porque percebi que ia morrer”, graceja, “não seria capaz sequer de podar uma árvore”. No vício de acelerar, defeito do ofício também, cabem as suas ansiedades e vive a antítese da filosofia que defende. “Somos um poço de contradições. Passo a vida a prometer-me que vou serenar e procurar momentos de pura contemplação. E a cada dia sou mais acelerado. Também não sobreviveria sem essa vertigem, não há nada a fazer.”

Ou talvez haja. Palavra a Catarina Ferreira de Almeida: “Está tudo no olhar. É preciso uma certa dose de imaginação, mas nem tudo nos esmaga. Temos de encontrar fugas. Seja nos Açores ou numa urbe agressiva.” E Joel Neto completa, numa teoria da relatividade: se Lisboa é avassaladora comparada com Terra Chã, é apenas uma grande cidade de província se posta lado a lado com Nova Iorque.

Fernando Alves, exímio tecedor de mantas a partir de retalhos do real, lembra um dia em que adoeceu e se encontrou fechado na sua casa na “província” lisboeta. Quando de lá saiu, ao fim de três dias, viu uma luz de cinema, quase fictícia, e notou pela primeira vez um azulejo com uma lavadeira de Caneças do início de século XX. Vivia naquela rua há trinta anos e nunca dera por ela. De certa forma, diz Fernando Alves, o seu eternamente adiado regresso à aldeia dos pais tem a ver com aquilo. Tal como Joel Neto descobriu a sua “Estrada do Paraíso” em Terra Chã, o jornalista julgava poder encontrá-la naquele território com o qual tem ainda conserva uma “nostalgia em carne viva”. Mas o caminho pode ter diferente vias: “Podes encontrar a Estrada do Paraíso no sítio onde vives. No largo do bairro. Quando reencontras alguém ou tratas pelo nome as pessoas da tua rua.”

No palco, a luz incide sobre ele. E as palavras do belíssimo texto do casal rendido ao campo ganham corpo na voz mítica da rádio. Mais do que uma geografia, seja campo ou cidade, lembram, é urgente habitarmo-nos a nós mesmos. “Faças o que fizeres, e quanto aos modos de vida, conserva um pé dentro e outro fora.”