Vamos envelhecer juntos? Cohousing dá os primeiros passos em Portugal

A “habitação colaborativa sénior”, uma “espécie de república”, mas com regras e serviços de apoio partilhados, pode ser uma alternativa aos lares de idosos e à fatalidade de os mais velhos viverem sozinhos.

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Na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto apresentaram-se vários modelos de Cohousing Inês Fernandes

Kerstin Kärnekull tem 75 anos mas parece ter menos dez. Há um quarto de século que a arquitecta sueca escolheu viver no primeiro projecto de cohousing do seu país, uma experiência de habitação “colaborativa” para a “segunda metade da vida”. Localizado em Estocolmo, o Kollektivhuset Färdknäppen inclui 43 apartamentos com um a três quartos, uma pequena cozinha e um espaço comum com 350 metros quadrados onde os amigos se encontram. “Quando envelhecemos, não há nada mais importante do que estar com outras pessoas”, enfatiza.

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Kerstin Kärnekull tem 75 anos mas parece ter menos dez. Há um quarto de século que a arquitecta sueca escolheu viver no primeiro projecto de cohousing do seu país, uma experiência de habitação “colaborativa” para a “segunda metade da vida”. Localizado em Estocolmo, o Kollektivhuset Färdknäppen inclui 43 apartamentos com um a três quartos, uma pequena cozinha e um espaço comum com 350 metros quadrados onde os amigos se encontram. “Quando envelhecemos, não há nada mais importante do que estar com outras pessoas”, enfatiza.

No Färdknäppen, há turnos para preparar refeições, há turnos para fazer limpezas e há turnos para toda uma série de tarefas. E todos colaboram. É “uma escola de democracia”, sintetiza. Nesta comunidade com 56 pessoas entre os 53 e os 93 anos, cerca de dois terços são mulheres. A já longa experiência tem corrido bem. Mesmo aquela ideia feita de que viver em comunidade acaba com a privacidade é um mito, assegura a arquitecta. “Tive um amante durante cinco anos e ninguém percebeu”, graceja.

Kerstin esteve nesta sexta-feira na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto a descrever, perante uma plateia maioritariamente grisalha, como funciona o seu projecto de cohousing, como evoluiu o conceito — que surgiu na Dinamarca nos anos 70 do século passado —, e como esta opção de vida revelou ser a mais acertada no seu caso. “Dizem que se ganha 10 anos por viver num lugar como este”, afirma, jovial.

A arquitecta partilhou a sua experiência na conferência internacional “Cohousing em Portugal — Viver Sustentável”, que foi organizada pela associação Hac.Ora Portugal Senior Cohousing, uma associação sem fins lucrativos fundada em 2018 e que é liderada pelo ex-presidente da Câmara Municipal do Porto Nuno Cardoso.

Uma “espécie de república”

O ex-autarca está convencido de que a “habitação colaborativa sénior”, uma “espécie de república”, mas com regras e serviços de apoio partilhados, é a alternativa aos lares de idosos e à fatalidade de os mais velhos ficarem a viver sozinhos quando não têm retaguarda familiar e não lhes resta outra hipótese. “Já há lares de idosos que são fantásticos do ponto de vista físico. O problema é que a institucionalização faz-se muito tarde e as pessoas chegam muito dependentes. O ambiente acaba, assim, por ser sempre um bocado deprimente. E não há soluções para os séniores mais activos”, lamenta.

Mas se alguém pensa que este é o renascer de comunidades hippies está enganado. “Esse movimento está ultrapassado”, sentencia Cardoso. No cohousing cada família tem garantido o seu espaço pessoal, mas não existe apenas um modelo. Esta é “uma ideia de liberdade”, cada grupo “vai definir as suas regras”, apesar também haver projectos de cohousing institucional, até para os mais jovens, acentua. Tendo em conta o acelerado envelhecimento em Portugal, os idosos são, porém, a prioridade. Outros países europeus já entraram há muito tempo na corrida e Espanha está neste momento “a fervilhar de projectos”, acentua.

Mas se o cohousing vem “ampliar o leque de oferta habitacional” e contribuir para a “regeneração urbana e para a sustentabilidade ambiental”, ainda carece de enquadramento legal em Portugal, afirma o ex-autarca que foi recebido já pela comissão parlamentar para a lei de bases da habitação, onde quer que este modelo venha a ser contemplado.

Num país de proprietários

Ainda júnior em Portugal, a habitação partilhada já tem longos anos em vários países. São muitas as iniciativas de cohousing, como demonstrou Sara Brysch, arquitecta e doutoranda da Co-Lab Research na TU Delft (projecto holandês), que explicou que este conceito é “bastante flexível”. Pode resultar em cooperativas de residentes, em grupos de construção (caso da Alemanha), em soluções de cessão de uso (caso de Espanha).

Também a propriedade dos espaços pode ser privada, colectiva, cooperativa ou então poderá optar-se pelo arrendamento cooperativo (modelo que predomina na Suécia). A ideia é ter casas ou apartamentos independentes (equipados com todos os serviços essenciais de uma habitação, com quartos, casa de banho, cozinha/kitchenette, zona de estar) e um espaço comum partilhado, com sala, cozinha, lavandaria e, eventualmente, quartos para convidados.

A arquitecta deixou claro que o cohousing  “não é uma comuna, não é um condomínio fechado, não é uma cooperativa de construção nem é co-living, porque o modelo mais comercial não inclui a participação dos residentes”. E, frisou, é essencial assegurar a criação de parcerias, financiamento e envolver autarquias.

Em Portugal há um obstáculo: somos um país de proprietários (75% das famílias compraram as casas onde vivem). É uma questão cultural, mas que pode ser ultrapassada. “Ainda temos energia e este é o modo de vida que nos interessa”, atesta a economista Luísa Bernardo, que seguiu com interesse a conferência. “Nós somos potenciais vendedores das nossas casas”, diz, lembrando a frase de uma mulher que optou por este modelo: “Disse ao meu filho: eu é que vou sair de casa."