Hospitais de Coimbra querem estreitar relação entre doentes e profissionais de saúde

Numa primeira fase, o Projecto H2 vai promover acções de formação e recolher inquéritos de satisfação.

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A necessidade identificou-se num conjunto de circunstâncias do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra (CHUC): a subida do número de reclamações dos utentes e o aumento dos processos judiciais contra o hospital por um lado, por outro, a medicina com uma vertente cada vez mais tecnológica e um problema de financiamento dos sistemas de saúde.

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A necessidade identificou-se num conjunto de circunstâncias do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra (CHUC): a subida do número de reclamações dos utentes e o aumento dos processos judiciais contra o hospital por um lado, por outro, a medicina com uma vertente cada vez mais tecnológica e um problema de financiamento dos sistemas de saúde.

A explicação é avançada pelo médico João Pedroso de Lima, que coordena a equipa que está a lançar o “Projecto H2 – Humanizar o Hospital”. A iniciativa tem como objectivo melhorar a relação entre profissionais de saúde e doentes e “promover uma cultura de humanização” no CHUC.

Os problemas identificados não são exclusivos dos hospitais de Coimbra, ressalva, indicando no entanto que “há um conjunto de índices de insatisfação, de burnout, de descontentamento, que obriga a fazer qualquer coisa”. Daí que se deva “centrar a atenção nas pessoas, apelando aos valores humanos como a cortesia, empatia e compaixão”, afirma o médico.

O trabalho no âmbito do projecto que é apresentado na manhã desta quinta-feira, no CHUC, está ainda numa fase de arranque, mas já decorre há meses explica Pedroso Lima. “Já reunimos dentro do hospital com 66 directores de serviço”, sendo que o Projecto H2 já foi apresentado a cerca de mil pessoas, estima o coordenador, a maior parte das quais médicas.

No próprio dia em que é apresentada a iniciativa, tem lugar uma acção de formação em comunicação entre médico e doente: 16 médicos de referência do hospital “vão ser formados como formadores”, para depois passarem o conhecimento a outros médicos. A formação, assegura João Pedroso de Lima, alarga-se depois a outras áreas profissionais do hospital.

A formação de base é um dos problemas identificados. “Há uma falta de preparação dos profissionais de saúde neste aspecto, que vem dos tempos da universidade e se estende ao exercício profissional”, entende. E acrescenta: “Numa consulta médica, em média, um médico interrompe o doente 18 segundos depois de ele começar a falar. Isto é uma medicina centrada no médico e não no doente."

O “Projecto H2 – Humanizar o Hospital” tem um período de lançamento de cinco anos e não tem prazo para terminar – “é um projecto que não acaba, tem que se estar sempre a sensibilizar as pessoas” – sendo que o custo está estimado em 60 mil euros por ano.

No âmbito da iniciativa, serão também lançados inquéritos de satisfação com a colaboração do Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Menos ruído

Outra linha seguida pelo projecto é o combate ao ruído hospitalar. Em Novembro de 2018, o IteCons (instituto de investigação da UC da área da construção) levou a cabo uma avaliação do ruído numa das enfermarias do CHUC. Os valores revelados são “preocupantes”, classifica Pedroso de Lima, tendo atingido “o dobro dos valores recomendados pela Organização Mundial de Saúde”.

As causas vão desde o factor humano ao bater de portas, dos telemóveis aos rádios, passando por televisões e pelos próprios equipamentos hospitalares. A equipa do Projecto H2 vai sugerir ao Conselho de Administração do CHUC um conjunto de medidas para diminuir o ruído em enfermarias piloto. Os valores serão depois comparados com os actuais.