Militar arrependido suspeita que havia mais generais envolvidos na corrupção das messes

“Disseram-me que o dinheiro das messes de Alfragide e de Monsanto era para os senhores generais, e eu não podia dizer nada a ninguém”, conta capitão que trabalhava no Estado-Maior da Força Aérea.

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O quarto arguido da Força Aérea Portuguesa a confessar em tribunal ter participado num esquema de corrupção que existiu, durante vários anos, nas messes das unidades suspeita do envolvimento não de um, mas de vários generais deste ramo das Forças Armadas.

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O quarto arguido da Força Aérea Portuguesa a confessar em tribunal ter participado num esquema de corrupção que existiu, durante vários anos, nas messes das unidades suspeita do envolvimento não de um, mas de vários generais deste ramo das Forças Armadas.

No âmbito da chamada Operação Zeus as autoridades detiveram oito dezenas de militares e empresários fornecedores das messes, todos por suspeita de participarem num esquema de sobrefacturação.

As quantidades de alimentos entregues pelos civis nas messes eram inferiores às quantidades facturadas à Força Aérea, sendo o lucro que resultava da diferença dividido entre empresários e militares. A maioria dos detidos, entre os quais se encontra o general que dirigia a secção responsável pelo abastecimento de todas as cantinas, senta-se agora no banco dos réus.  

A confessar esta quarta-feira em tribunal o seu envolvimento, o capitão Luís Oliveira trabalhava sob as ordens desta alta patente, tendo chegado, segundo contou, a entregar-lhe envelopes com dinheiro pelo menos duas vezes, em 2016. Porém, Luís Oliveira suspeita que o major-general Milhais de Carvalho, que trabalhava com ele no Estado-Maior da Força Aérea, em Alfragide, não era o único desta patente que recebia dinheiro: “Disseram-me que o dinheiro proveniente das messes de Alfragide e de Monsanto não era, ao contrário das restantes unidades, para repartir connosco: era para os senhores generais, e eu não podia dizer nada a ninguém."

Os juízes que estão a julgar a Operação Zeus no tribunal de Sintra quiseram saber melhor que generais seriam estes, uma vez que só Milhais de Carvalho foi constituído arguido, mas tal como já tinha sucedido quando foi interrogado na fase de inquérito do processo o capitão Luís Oliveira foi vago: “Há generais de três estrelas, de quatro estrelas… Nada me garantia que não houvesse mais ninguém metido nisto”, observou, aludindo aos mais altos dirigentes da Força Aérea Portuguesa.

Milhais de Carvalho sempre negou o seu envolvimento neste esquema de corrupção, tendo este capitão sido o primeiro arguido a implicá-lo directamente. Luís Oliveira admitiu ter andado de messe em messe, pelo país fora, a recolher o dinheiro pago pelos fornecedores aos militares, para depois o entregar ou ao tenente-coronel com quem lidava mais directamente, Alcides Fernandes, ou a este general.