“Brexit”: o jogo “desonesto” do Labour e os aspirantes ao lugar de May

Tim Bale, analista e professor da Universidade Queen Mary diz que “não fazendo campanha por um segundo referendo, Corbyn está a arruinar a vontade da maioria dos trabalhistas: a de não haver ‘Brexit’”.

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Protesto contra o processo do "Brexit" em Londres Simon Dawson/REUTERS

O professor de política britânica na Universidade de Queen Mary em Londres, Tim Bale, diz que o acordo de saída foi “o melhor que May conseguiu arranjar” com a União Europeia, “um negociador mais poderoso e mais unido” do que o Governo britânico.

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O professor de política britânica na Universidade de Queen Mary em Londres, Tim Bale, diz que o acordo de saída foi “o melhor que May conseguiu arranjar” com a União Europeia, “um negociador mais poderoso e mais unido” do que o Governo britânico.

É difícil acreditar que Theresa May não estava à espera que o rascunho do acordo de saída iria enfurecer a ala eurocéptica do seu partido ou que não receberia o apoio dos restantes partidos. Qual a estratégia da primeira-ministra?

A primeira-ministra teve sempre a perfeita noção de que o acordo de saída do Reino Unido da União Europeia não iria receber o apoio de alguns dos seus deputados e do Partido Unionista Democrático, que apoia o seu Governo minoritário no Parlamento. Mas foi o melhor que conseguiu arranjar com a UE, que é um negociador bastante mais poderoso e mais unido do que o Governo. E May acredita que muitos dos que não gostam ou são contra o acordo vão acabar por perceber essa realidade. Se também conseguir persuadir alguns deputados do Partido Trabalhista a pensar dessa forma, talvez tenha uma hipótese de o fazer aprovar na Câmara dos Comuns. Nem que necessite de duas votações parlamentares para o conseguir.

Um cenário de saída sem acordo é uma possibilidade?

Acredito que possa acontecer acidentalmente. Mas é improvável, uma vez que o Governo claramente não fez planos para esse cenário e o Parlamento tem deputados suficientes para travar o “Brexit”, para prolongar as negociações ou para convocar um referendo. Mas é claro, que se as negociações colapsarem ou se de um eventual referendo resultar uma vontade por uma saída sem acordo, essa possibilidade pode vir a ser real.

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Tim Bale DR

Se houver uma disputa pela liderança do Partido Conservador, quem poderá estar disponível para desafiar May?

Na linha da frente estão os que abandonaram o Governo, em protesto contra May: David Davis [ex-ministro do “Brexit”], Boris Johnson [ex-ministro dos Negócios Estrangeiros], Dominic Raab [ex-ministro do “Brexit] ou Esther McVey [ex-ministra do Trabalho]. Mas também devemos olhar para Michale Gove [ministro do Ambiente] ou Penny Mordaunt [ministra da Internacionalização], que acreditam que a combinação entre uma suposta lealdade e um claro descontentamento com o acordo os pode ajudar nessa tarefa. É importante sublinhar, porém, que nenhum destes dirigentes políticos vai desafiar May. Só haverá corrida à liderança do Partido Conservador se ela se demitir ou se os deputados tories votarem pela sua saída, numa eventual moção de desconfiança.

Muitos trabalhistas exigem que Jeremy Corbyn tenha uma posição mais firme a favor de um novo referendo. Como avalia a gestão deste processo pelo líder?

O Partido Trabalhista está a jogar um jogo desonesto. Por um lado, garante aos seus apoiantes, e ao país, que quer uma eleição geral e um melhor acordo de saída. Mas por outro, recusa fazer abertamente campanha por um segundo referendo, arruinando dessa forma a melhor possibilidade que tem para cumprir a vontade da esmagadora maioria dos militantes do partido e de muitos dos deputados trabalhistas: a de nem sequer haver “Brexit”. Corbyn está a seguir este caminho porque, para além de ser um eurocéptico, está preocupado em perder votos e apoios nas regiões do país que votaram pela saída caso se oponha ao “Brexit”.