Partido Democrata corre contra o tempo para manter viva a investigação sobre a Rússia

Os líderes do partido no Congresso exigem que o novo procurador-geral se mantenha longe das investigações, seguindo o exemplo do antecessor. Matthew Whitaker defende que o trabalho de Robert Mueller deve ter limites.

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Assim que o Partido Democrata tirou a maioria ao Partido Republicano na Câmara dos Representantes, ganhando poder para lançar novos inquéritos sobre as actividades e as finanças do Presidente Donald Trump, a atenção virou-se outra vez para a investigação sobre a Rússia.

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Assim que o Partido Democrata tirou a maioria ao Partido Republicano na Câmara dos Representantes, ganhando poder para lançar novos inquéritos sobre as actividades e as finanças do Presidente Donald Trump, a atenção virou-se outra vez para a investigação sobre a Rússia.

Os futuros responsáveis pelas comissões de inquérito na Câmara dos Representantes não perderam tempo e já pediram à Casa Branca que guarde e preserve todos os documentos importantes. Mas não estariam à espera que fosse o próprio Presidente a dar-lhes uma ideia – e um motivo que poucos poderão pôr em causa – para a primeira investigação: o que levou o Presidente a afastar o procurador-geral, Jeff Sessions, e a nomear para o lugar dele um homem que quer travar o trabalho do procurador especial, Robert Mueller, e acusar Hillary Clinton de negligência grosseira em questões de segurança nacional?

Há muito que o prazo de validade de Jeff Sessions como responsável pela Justiça no país tinha chegado ao fim. Apesar de ter sido um dos primeiros nomes sonantes do Partido Republicano a apoiar a candidatura de Donald Trump, logo em 2015, Sessions passou a ser um dos principais alvos da fúria do Presidente pouco tempo depois de ter chegado à Casa Branca, em Janeiro de 2016.

Em Março desse ano, quando as suspeitas de interferência da Rússia nas eleições presidenciais já estavam a ser investigadas pelo FBI, Jeff Sessions afastou-se do processo alegando incompatibilidades. Afinal, tinha sido um dos principais rostos da campanha de Trump e agora era, por inerência, o principal responsável pelas investigações sobre essas suspeitas.

A partir desse momento, Sessions ficou na mira do Presidente Trump, que o acusou várias vezes de ser fraco e de não o proteger das investigações sobre a Rússia. E tudo piorou dois meses depois, quando o vice-procurador-geral, Rod Rosenstein (que ficara a supervisionar as investigações após o afastamento voluntário do seu chefe) nomeou o experiente e respeitado Robert Mueller para servir de procurador especial no caso.

No último ano e meio, os jornais norte-americanos noticiaram várias conversas em privado, na Sala Oval, que apontavam numa direcção: o Presidente Trump queria despedir Sessions e Rosenstein, mas uma decisão como essa iria deixá-lo ainda mais vulnerável às acusações de que estava a tentar obstruir a Justiça – um dos crimes que motivou a abertura de um processo de destituição contra o Presidente Nixon, em 1974, por causa do escândalo de Watergate.

Este clima de tensão entre Trump e Sessions acabou por ter o seu desfecho natural e esperado na quarta-feira, horas depois de se terem conhecido os resultados das eleições, em que o Partido Democrata conquistou a maioria na Câmara dos Representantes e o Partido Republicano manteve a sua maioria no Senado.

Na carta em que anunciou o seu afastamento do cargo, Jeff Sessions fez questão de começar com uma declaração que mostra ao país o estado de degradação a que chegou a sua relação com Donald Trump: "A seu pedido, apresento a minha demissão."

O Presidente reagiu no Twitter com a frase da praxe: "Agradecemos ao attorney general Jeff Sessions pelo seu serviço e desejamos-lhe o melhor!"

Mais do que o afastamento de Sessions, é importante perceber quem é que Trump escolheu para o seu lugar até que haja uma nomeação definitiva.

Até lá, e durante um prazo máximo de sete meses, toda a investigação sobre as suspeitas de interferência da Rússia nas eleições de 2016 vão ficar sob a responsabilidade de Matthew Whitaker, até agora chefe de gabinete de Jeff Sessions.

O Presidente dos EUA fez questão de não escolher o vice do Departamento de Justiça, Rod Rosenstein (o homem que pôs Mueller à frente das investigações, contra a sua vontade), mas sim um funcionário de topo que já deixou claro o que pensa do trabalho de Mueller.

Em Agosto de 2017, num artigo de opinião publicado no site da CNN, Matthew Whitaker disse que "a investigação de Mueller foi longe de mais" porque parecia estar próxima das finanças de Trump e da sua família.

"É tempo de Rosenstein, que é o attorney general em exercício no que toca a esta investigação, ordenar a Mueller que limite o âmbito da sua investigação aos quatro pontos previstos na sua nomeação como procurador especial", disse o responsável indicado por Trump na quarta-feira para ser o novo chefe de Rosenstein.

Ninguém sabe se Matthew Whitaker vai despedir o homem que esteve até agora a supervisionar as investigações sobre a Rússia, ou se vai afastar o procurador especial. O que se sabe é que, com a troca de Sessions por Whitaker, as decisões passaram para as mãos de um responsável que sugeriu, em público, um outro caminho para travar a investigação: "O que o Presidente vai acabar por fazer é pressionar Rod Rosentein a cortar o orçamento de Mueller e a fazer algo mais elaborado do que despedir o attorney general para o substituir", disse Matthew Whitaker na CNN, em Outubro.

E o novo procurador-geral tem outras armas para travar a investigação, se for essa a sua vontade. Como o procurador especial tem de apresentar o relatório final sobre as investigações ao seu novo superior, Whitaker pode simplesmente decidir não enviar esse relatório para o Congresso – e sem esse relatório é praticamente impossível que o Partido Democrata, e a sua nova maioria na Câmara dos Representantes, consigam apresentar um argumento sólido a favor de um impeachment.

Para tentar impedir esse cenário, a líder do Partido Democrata na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, já disse que o novo responsável do Departamento de Justiça deve afastar-se das investigações, à imagem do que fez o seu antecessor.

"Olhando para o seu passado de ameaças para sabotar e enfraquecer a investigação sobre a Rússia, Matthew Whitaker deve afastar-se de qualquer envolvimento na investigação de Mueller. O Congresso deve agir depressa para proteger o primado da lei e a integridade da investigação", disse Pelosi.

Uma exigência feita também pelo líder da minoria do Partido Democrata no Senado, Chuck Schumer, que apontou para os comentários de Whitaker "em defesa do esvaziamento de fundos e da imposição de limites à investigação de Mueller".