Música

Morreu o cantor franco-argelino Rachid Taha

Nos anos 1980, pertenceu ao grupo Carte de Séjour, antes de se afirmar a solo com uma música singular, confluência de rock com electrónicas e sons tradicionais argelinos, sempre com uma veia politizada muito afirmativa.
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MARC-ANTOINE SERRA

Excessivo e provocador, capaz de fundir rock, electrónicas e sons tradicionais argelinos raï, o cantor franco-argelino Rachid Taha morreu esta terça-feira, aos 59 anos, na sua residência em Paris. Sucumbiu a uma paragem cardíaca, anunciou a sua família, citada pela AFP. Eram conhecidos os seus problemas de saúde, que de resto o levaram, no ano passado, a cancelar um espectáculo no festival MED, em Loulé.

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Ao longo dos anos actuou por diversas vezes em Portugal, tendo passado, por exemplo, pelos festivais  Cosmopolis, em Lisboa, Músicas do Mundo, em Sines, ou Ritmos, no Porto. Quem o viu ao vivo certamente não o esquece: transformava qualquer sala numa imensa pista de dança em que o rock, a música tradicional argelina e as programações electrónicas colocavam em delírio a assistência. Isso, e claro, a sua forma contagiante de estar em palco, marcada pela sua postura excessiva, que por vezes também se aproximava da figura charmosa do artista decadente, gerando comparações com Serge Gainsbourg ou Shane McGowan, dos The Pogues.

Rachid Taha nasceu em Sig, uma cidade argelina a cerca de 60 quilómetros de Orã, a 18 de Setembro de 1958, rumando com os pais à Alsácia, em França, com apenas dez anos. "Sinto-me tão francês quanto argelino", dizia em entrevista ao PÚBLICO em 2013, naquela sua forma tão pessoal de afirmar uma identidade que respirava várias encruzilhadas, entre o desejo de pertença e a rejeição da nacionalidade francesa, e que ao longo dos anos o levou a assumir posições politicas.

Nos Carte de Séjour (nome que remete para o documento obrigatório para um estrangeiro poder residir em França), banda formada em 1981, conciliou a cultura argelina com o punk e o rock britânicos – era o "rock'n'raï" –, abordando temas como a imigração, o racismo, as condições desiguais de acesso ao trabalho, o ensino e a saúde. Essa veia politizada foi assumida desde o início em canções que se viriam a tornar símbolos de luta como La douce France e Voilà, voilà.

Canções que nunca o abandonaram, aliás. "Continua a haver razões muito vivas para interpretar essas canções. São as mesmas razões políticas de sempre: a Frente Nacional, a extrema-direita a crescer por toda a Europa. O problema dos imigrantes continua muito presente, não mudou nada", dizia ao PÚBLICO na mesma entrevista de 2013.

Essa mistura de géneros musicais, e de combate político e social, acabou por transformar-se na sua senha artística, garantindo-lhe um lugar próprio na paisagem musical gaulesa e europeia, através de uma atitude descomplexada. No início dos anos 1990, quando as electrónicas de dança ainda não haviam sido credibilizadas em França, Rachid Taha lançou discos que apontavam directamente para a pista de dança; depois, quando toda a gente se converteu às electrónicas, publicou um álbum de versões de canções árabes tradicionais, Diwân (1998).

Foi quase sempre assim, Rachid Taha: um músico em contracorrente que acabou por criar a sua própria corrente.