Rachid Taha é uma espécie de Courrier International

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Rachid Taha mantém passaporte argelino, apesar de viver em França desde os dez anos: "É apenas o meu país de residência. Podia pedir a nacionalidade francesa, mas..." MARC-ANTOINE SERRA

Ao fazer Zoom sobre o seu passado, Rachid Taha pôs-se entre Elvis Presley e Oum Khaltoum. De França, traz a sua indignação de sempre pelo tratamento dado à imigração.

Durante o período da Ocupação Alemã, em plena Segunda Guerra Mundial, várias canções são tomadas como archotes pela Resistência Francesa. Não deixam que a esperança morra, alimentam o sonho de um país a respirar sem o peso da botifarra nazi cravada no peito, juntam as gargantas num mesmo canto quando as forças quebram. É essa uma das maiores forças da canção certa: sem precisar de debater e conciliar visões do mundo, uni-las numa só voz, exaltando um sentido colectivo e colhendo pequenas forças para a crença na conquista de um objectivo comum. La douce France, tema nostálgico, evocador de uma França idílica e parada no tempo, imensamente ingénua mas de uma serenidade simples, torna-se facilmente, no meio do pesadelo nazi, um sítio a que se quer voltar. É uma dessas canções que aquecem a clandestinidade da Resistência e rivalizam com A Marselhesa enquanto hino nacional.

O carácter simbólico da canção é tão forte que o Reich obriga o seu autor, o fou chantant (cantor louco) Charles Trenet, a cantar para os prisioneiros, tentando desacreditá-lo de todas as formas: acusando-o de usar um apelido falso e esconder sangue judeu, lançando também pistas para que seja visto como colaboracionista. O facto é que Trenet, o grande responsável pela modernização da chanson ao importar a vertigem do swing norte-americano, e La douce France conseguem escapar ao lodaçal. Tanto assim que, em 1986, é precisamente esse símbolo que o grupo Carte de Séjour (nome que remete para o documento obrigatório para um estrangeiro poder residir em França) escolhe para incendiar com o seu punk arábico, uma fusão da sonoridade dos Clash com percussões e ouds que não escondem a origem magrebina. Nada há de subtil neste tomar em mãos do hino de Trenet: os imigrantes do Norte de África reclamam-se cidadãos de pleno direito e dizem a quem quiser ouvir que os símbolos nacionais também lhes pertencem. "Foi uma escolha totalmente política", diz-nos Rachid Taha, então vocalista dos Carte de Séjour. "Se fosse norte-americano teria cantado o My way".

A polémica desencadeada por Taha e o seu grupo é tal que muitas lojas se recusam a vender o disco dos Carte de Séjour e a canção é proibida numa série de rádios; por outro lado, aproveitando o rastilho para lançar o debate sobre a integração dos imigrantes, o ministro da Cultura Jack Lang manda entregar uma cópia do tema a cada um dos parlamentares franceses. Taha, vindo do nada, torna-se repentinamente uma voz amplificada muito para lá dos habituais antros underground, e os Carte de Séjour capitalizam de imediato a atenção lançando o single Voilà, voilà, apontado ao mesmo racismo e às mesmas condições de acesso desigual a trabalho, ensino e saúde. "Por todo o lado, os discursos são os mesmos/ Estrangeiro, és a causa dos nossos problemas/ Pensava que isto já tinha acabado/ Mas não, é apenas uma repetição". Assim se cantava em 1987, assim se volta a cantar agora no encerramento do novo disco de Taha, Zoom, desta vez numa versão trabalhada com Brian Eno.

"Continua a haver razões muito vivas para cantar La douce France ou Voilà, voilà", diz-nos Rachid Taha, ao telefone enquanto caminha pelas ruas de Paris. "São as mesmas razões políticas de sempre: a Frente Nacional, a extrema direita a crescer por toda a Europa. O problema dos imigrantes continua muito presente, não mudou nada." A proibição da burqa e a intenção anunciada por Sarkozy em 2010 de retirar a nacionalidade francesa aos criminosos vindos de outras paragens são apenas mais uma demão numa estigmatização para a qual Taha diz não ver fim.

Elvis Presley e Oum Khaltoum

A identidade tem sido sempre uma questão sensível na obra de Rachid Taha. Nascido em Saint-Denis-du-Sig, no território da chamada "Argélia francesa", quatro anos antes da independência total do país em 1962, Taha muda-se para França aos 10 dez anos e balançará sempre entre o desejo de pertença e a rejeição da nacionalidade francesa. "Foi em França que descobri o frio e a estupidez humana", diz em entrevista à revista on-lineL"Oeil Paca. "Sinto-me tão francês quanto argelino", clarifica-nos. "Mas sempre tive passaporte argelino, França é apenas o meu país de residência. Podia pedir a nacionalidade francesa, mas...". Deixa-nos uns segundos suspensos na conclusão da frase. As hipóteses são várias e têm mudado publicamente ao longo dos anos. A mais popular, no entanto, diz que Rachid Taha se recusa a nacionalizar-se como homenagem a um tio torturado e atirado de um helicóptero por militares franceses durante a Guerra da Argélia. Afinal, a hesitação na escolha das palavras segue a via mais prosaica: "... mas é sobretudo uma questão de preguiça - papéis, papéis, aqui é preciso papéis para tudo."

Da mesma forma que se refere a França como um acidental "país de residência", também a música francesa não tem uma particular importância na criação de Rachid Taha. Tudo se resume a um par de músicos/poetas que admira, Alain Bashung e Léo Ferré, e revela não ter qualquer apreço por novos intérpretes - algo que soa também como uma vingançazinha por lojas, imprensa e público, na dúvida, preferirem engavetá-lo na música árabe do que na francesa. O seu interesse, e a direcção de muita da sua música, encontram-se muito mais facilmente numa encruzilhada entre referências magrebinas e norte-americanas. É por isso que se gaba de ter gravado Made in Medina (2001) em Nova Orleães, diverte-se com as geografias quando lhe perguntam se o que faz se inscreve no raï dizendo que é "mais Raï Cooder", e no novo Zoom, às tantas, enfia os nomes de Kurt Cobain e Elvis Presley em Les artistes, num gesto de homenagem. Abandonando quase por completo algumas tendências dançáveis de álbuns passados, diz-se agora "mais próximo de Johnny Cash ou de Elvis Presley". "Era por aí que queria ir: rock"n"roll puro. Sou filho dessa cultura e sinto-me muito próximo da música americana: ouvia muito Elvis e outras bandas como os Led Zeppelin ou os Clash."

Estes três nomes estão bem à superfície em Zoom. Elvis, desde logo, à boleia de Now or never, uma maravilhosa versão do tema que o Rei requisitara ao cancioneiro napolitano, desviada aqui por Taha e pelo produtor Justin Adams para o Mediterrâneo - uma canção clássica por onde irrompem ouds. Adams, guitarrista que acompanha há anos Robert Plant, ex-Led Zeppelin, é o responsável pelos momentos mais blues e rock de Zoom. "Encontrámo-nos em 2005, quando fiz um dueto com o Robert Plant, simpatizámos, ficámos amigos, fui-lhe mostrando aquilo que estava a fazer e ele compreendeu a minha forma de trabalhar. É como quando duas pessoas se encontram num pub, bebem um copo e no fim vão juntas para casa", compara Taha.

Com os Clash a história é outra. Rachid acredita que é ele o responsável indirecto por Rock the Casbah. Em 1981, quando era apenas o desconhecido vocalista de uma nova banda formada nos arredores de Lyon chamada Carte de Séjour, pôs-se a caminho de Paris para assistir a um concerto dos seus ídolos The Clash. No bolso levava uma maqueta do grupo para qualquer eventualidade, como aquela que jura ter acontecido à porta da sala Le Mogador: deu de caras com a banda, depositou-lhes a cassete nas mãos e passado um ano os Clash editavam Rock the Casbah, com Taha desconfiado que a inspiração teria vindo do seu grupo. Essa terá sido uma das razões para gravar Rock el Casbah, a sua versão para o tema, em 2002, aí sim com uma sonoridade de punk rock árabe. Com evidente orgulho, revela que Mick Jones, guitarrista dos Clash que se ouve por aqui em Zoom, prefere a sua versão ao original.

A par destas proeminentes pontes para o rock, o Zoom geral no título do álbum é depois particularizado na canção Zoom sur Oum, numa homenagem a Oum Khaltoum onde a voz hipnotizante da cantora egípcia arranja forma de se alcandorar. "Este disco", esclarece Taha, "é um zoom, um olhar terno sobre o passado, sobre as coisas que fiz antes, sem querer voltar a elas. Desse passado só trouxe as coisas boas, deixei as más de lado. É como se tivesse pegado numa série de ingredientes, de especiarias, e feito um novo prato, uma nouvelle cuisine."

Quando fala destes ingredientes, Taha refere-se ao conteúdo puramente musical. Porque aquilo que verdadeiramente não muda é "a relação de dependência destas canções com a sociedade, a Primavera Árabe, a condição da mulher muçulmana" e que justificam que o músico nos diga que se considera "uma espécie de Courrier International". "Quando vejo como as pessoas vivem", continua, "como três quartos das pessoas do mundo vivem com um ou dois dólares por dia, quando a comida é um luxo e a vida é cara, há guerra por todo o lado, há países praticamente sem água, não posso ficar calado". Nem calado nem feliz com o caminho da Primavera Árabe, que considera ter lançado sementes onde, depois, só cresceram ervas daninhas. "Normalmente", diz, "cresceriam flores, bonitas rosas, uma boa cerejeira, mas ficou o quê? Temos apenas reaccionários que substituíram outros reaccionários."

Zoom é, por isso, um disco político, de quem sempre quis para si o papel de provocador. "Se sou um revolucionário?", pergunta-se na despedida. E responde: "Espero que sim."

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