Entrevista

Yu Hua, o romancista chinês aceite pelo sistema que não tolera os seus ensaios

A observação do quotidiano chinês é o mote para o conjunto de ensaios de Yu Hua, um dos nomes obrigatórios da actual geração de escritores da China. Depois da ficção, este vanguardista sempre com um pé no real chega com China Em Dez Palavras, um livro proibido no seu país.
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Deste autor de cinco romances, várias colecções de contos, adaptações para o cinema e televisão, publica-se agora em Portugal China Em Dez Palavras, conjunto de ensaios que pretende ser um retrato da China contemporânea Ulf Andersen/Getty Images

Yu Hua é um dos escritores mais conceituados da actual literatura chinesa e um nome familiar para os leitores do New York Times onde até há pouco escrevia sobre a actualidade do seu país. Considerado um vanguardista, este chinês de 58 anos, autor de cinco romances, várias colecções de contos, adaptações para o cinema e televisão, publicou em Portugal China Em Dez Palavras [Relógio d’Água], conjunto de ensaios que pretende ser um retrato da China contemporânea. “Não sei se existira no chinês actual outra palavra nesta estranha condição: está presente em toda a parte mas não é vista por ninguém. Na China de hoje, apenas os políticos trazem ‘povo’ na boca. O povo propriamente dito raramente a menciona, pode dizer-se que a está a esquecer.” A primeira palavra é Povo, ponto de partida para uma reflexão sobre as contradições da China actual num livro que o confirma como um romancista aceite pelo sistema, que, no entanto, não tolera os seus ensaios. O livro não foi publicado na China, mas acabou por ser lido por muitos chineses. “É possível encontrar uma versão em chinês em formato PDF na internet", refere Yu Hua numa entrevista ao Ípsilon mediada por Tiago Nabais, o seu tradutor para português. “Percebi que o ficheiro teve origem no meu computador. Alguns amigos sabiam que tinha escrito este livro e pediram-mo, e enviei-lhes o PDF por e-mail”, acrescentou, para explicar o modo como China Em Dez Palavras acabou a circular na clandestinidade do seu próprio país.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Este é um livro singular na sua vida de escritor. Como é que nasceu?
Tive a experiência de viver em duas épocas distintas. Cresci durante a Revolução Cultural, que posso, em certo sentido, comparar à Europa na Idade Média. Depois, vivi o período da Reforma e Abertura e a entrada no século XXI, em que a sociedade chinesa passou a parecer-se com o que a Europa é hoje. A Europa necessitou de cinco séculos para realizar uma transformação tão radical, mas a China viveu toda esta mudança em apenas quatro décadas. Foi isto que me levou a escrever o romance Brothers [2005]. Mas quando terminei esse livro, tinha ainda a sensação de que não tinha escrito tudo o que queria sobre o confronto entre estas duas épocas, e pensei que o mais adequado seria fazê-lo num formato de não-ficção, e assim nasceu China Em Dez Palavras.

Na génese, houve um impulso político.
Sim. No início de 2009, quando foi publicada a tradução inglesa de Brothers, fui aos Estados Unidos participar em actividades de promoção do livro. Numa delas, na universidade onde trabalha o meu tradutor de inglês, Allan Barr, falei sobre as questões que estão na base dos ensaios, Povo e Líder. Depois dessa palestra, senti que tinha ali os dois primeiros capítulos de um novo livro. Povo aborda os eventos de Tiananmen, e seria o primeiro capítulo. Tive de imediato a noção de que não poderia ser publicado na China. Mantive a esperança de que pudesse um dia ser publicado no meu país. Senti que tinha a obrigação de deixar, para mim e para os leitores, um texto sobre a nossa história e a nossa sociedade, que é também, inevitavelmente, um escrito político.

Como foi a escolha de cada uma destas dez palavras e de que modo podem elas sintetizar um país?
As primeiras oito são palavras há muito usadas na China; são termos com implicações históricas mas também emblemáticos de todo o processo por que a China passou nas últimas quatro décadas. As últimas duas, Pirataria e Aldrabar, são expressões recentes que surgiram após as grandes transformações sociais. As dez palavras foram escolhidas por mim após alguma ponderação e penso que podem sintetizar a China que se atravessa ao longo destas duas eras.

Escolhe o quotidiano como ponto de partida para esta análise sobre o que chama as dores da China. Porquê?
Talvez porque, ao longo da minha vida enquanto ficcionista, sempre tive o hábito de observar a sociedade a partir do quotidiano. Escrever este livro partindo do quotidiano torná-lo-ia mais autêntico, potenciaria a expressão das coisas que sentia e que pretendia abordar. Ao mesmo tempo, esta perspectiva gera também uma maior empatia da parte do leitor.

Faz distinção entre a sua actividade de ficcionista e a de ensaísta do ponto de vista do seu compromisso ou comprometimento político?
Penso que a ficção tem também um carácter político, a diferença é que é expresso por vias menos directas, através das personagens ou do enredo. O ponto de vista do escritor esconde-se por entre tudo isso. O ensaio é um tipo de escrita directo, onde o que se pretende dizer deve ser expresso de forma clara e objectiva. São dois tipos de escrita diferentes. Quando escrevo ficção, mergulho nas minhas emoções. Mas nos momentos em que me dedico à não-ficção, fico às voltas na minha cabeça à procura de histórias ou exemplos que possam ilustrar o que quero exprimir. Deste ponto de vista, podemos dizer que o ensaio é uma forma mais política, talvez seja até esse o seu principal valor.

Fala de um optimismo ilusório. Até que ponto ele se manifesta e que desafios implica?
O rápido desenvolvimento económico da China fez com que, durante algum tempo, o desemprego quase não existisse, e trouxe uma importante subida dos rendimentos. Entre a década de 90 do século passado e os primeiros anos deste século, os rendimentos da população cresceram de forma constante, e é esta a experiência de grande parte dos jovens chineses: qualquer desejo que articulassem era prontamente satisfeito pelos pais. Muitos miúdos viviam num T1 quando estavam no infantário, passaram para um T2 durante a primária, e quando entraram no secundário viviam já num T3. O que os jovens não sabiam era que, para poderem fazer isto, os seus pais contraíram empréstimos bancários. Com o abrandamento do crescimento começou a notar-se uma subida do desemprego e um aumento dos preços, e os jovens, então a entrar na idade adulta, começaram a sentir grande pressão. A disparidade entre ricos e pobres na China tornou-se já num enorme desafio. Durante algum tempo, os mais pobres iam encontrando formas de satisfazer as necessidades devido ao crescimento dos seus rendimentos, e o que sentiam pelos ricos era apenas inveja. Agora, quando muita gente deixa de ter perspectivas de que a sua vida melhore, essa inveja transforma-se em ressentimento, e este ressentimento é já partilhado por uma grande parte da população. Isto pode ser o princípio de uma crise social na China.

Homero e Mêncio são aqui guias. Qual é a sua relação com estes autores?
Homero e Mêncio são dois sábios da antiguidade, um do Ocidente e outro do Oriente. Coloquei algumas palavras de ambos no prefácio para exprimir uma ideia: os problemas da China são também problemas por que outros países passaram, o que é diferente é o momento em que surgem e as formas através das quais se manifestam.

Sobre a relação entre a dor provocada pelas agulhas gastas e a dor do escritor: “Penso que só quando a dor do outro se torna igualmente nossa conseguimos compreender verdadeiramente o que é a vida, e também o que é a escrita.” Acha o efeito de empatia essencial na escrita?
A empatia e a compaixão são características fundamentais para um escritor, só isso nos permite compreender as personagens que criamos. É também a empatia que nos permite entender tudo o resto. Pensando no belo e no feio, no bem e no mal, na felicidade e no sofrimento, todas estas coisas devem ser tratadas de forma igual, sem discriminação, pelo escritor. Só assim é possível que todos estes elementos apareçam, com força e realismo, na sua escrita.

A sua obra é muito influenciada pelo real, mas marcada por autores como Kafka ou García Márquez. Como é que o real serve de impulso e depois como se liberta dele ou o elabora para o transformar em literatura?
Do ponto de vista da literatura, independentemente de se optar por um estilo realista, fantástico ou absurdo, o que se persegue é sempre a realidade. A literatura não pára de se transformar, e no fundo o que se transforma são as formas com que se aborda e se exprime a realidade. Gosto muito de Kafka e de García Márquez. A grande ajuda que me deram foi a sua liberdade, a liberdade na escrita. Diz-se que todos os caminhos vão dar a Roma, mas uma escrita livre permite-me encontrar o melhor caminho.

É frequentemente convidado a escrever sobre a China actual, alguns desses ensaios estão no New York Times. Qual é a sua preocupação ao escrever sobre a realidade do seu país a quem está fora dele?
Quando escrevia a minha coluna mensal no New York Times, ou quando escrevo para outro jornal estrangeiro, a minha primeira preocupação é sempre tentar contribuir para que os leitores entendam o que se passa na China. No início era muito fácil. Quando comecei a coluna no New York Times escrevia quatro artigos numa semana e ficava com quatro meses resolvidos. Cerca de dois anos depois acabei por desistir, porque nessa altura um mês já não chegava para escrever um artigo. Isto não acontecia porque faltassem temas interessantes, pois na China nunca escasseiam temas novos, mas porque já não conseguia encontrar ângulos novos para abordar a realidade chinesa. Não queria escrever lugares-comuns, e decidi parar.

Chega muito pouco ao ocidente sobre a produção literária na China. Como é que se está a escrever a China das últimas duas ou três décadas?
Em comparação com a literatura japonesa, por exemplo, os leitores ocidentais conhecem muito pouco da China. A China é um país enorme e tem muitos escritores de qualidade, e todos eles, de ângulos diferentes e através de distintos estilos de escrita, escrevem histórias que abordam as mudanças no país. A principal diferença é que nos escritores da minha geração, nascidos nas décadas de 50 e 60 do século passado, se nota uma maior atenção a questões sociais ou históricas, como a Revolução Cultural, enquanto na geração mais nova se sente mais a influência das novas modas e tendências da China actual. Por exemplo, muitas das suas histórias passam-se em cafés ou bares modernos, espaços que só recentemente apareceram nas cidades chinesas.