Televisão

Quebra de audiências é mais acentuada na SIC, mas TVI também perde espectadores

Entre Julho de 2012 e Julho de 2018, o share de audiências da TVI diminuiu 4 pontos percentuais. Na SIC, que contratou Cristina Ferreira, a redução foi de 5,3 pontos percentuais. É no horário da manhã que a TVI é mais forte.
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LM MIGUEL MANSO

Menos espectadores e menos share (valor comparativo que permite avaliar quais os canais que obtiveram uma preferência em relação aos restantes num mesmo momento). O fenómeno é comum aos dois canais generalistas privados. Mas a diminuição é mais acentuada na SIC. Entre Julho de 2012 — ano em que a metodologia de análise das audiências foi alterada e passou a ser da responsabilidade da GFK — e o último mês para o qual existem dados disponíveis, Julho de 2018, o share (métrica que corresponde à quota de mercado por programa) do canal do grupo Impresa diminuiu 5,3 pontos percentuais. Na TVI, também houve uma diminuição, mas ficou-se pelos quatro pontos percentuais, segundo contas feitas pelo PÚBLICO com base em dados cedidos pela Mediamonitor.

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No que diz respeito ao rating, percentagem de portugueses que vêem um determinado canal, no mesmo período, a SIC perdeu 96 mil espectadores e a TVI 42 mil.

Quanto ao share mensal dividido pelos diferentes períodos do dia, há uma conclusão que salta à vista: a TVI domina as manhãs. A estação de Carnaxide tem um share médio de 22,9% (contas feitas desde o início de 2017). Na SIC, a média é de 14,4%. Logo atrás surge a RTP 1 com 12,5%.

Nos outros horários, o canal 4 também está na frente. É na hora de almoço, entre as 13h e as 14h30, que a SIC se aproxima mais da TVI, com uma diferença de apenas 0,7%.

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Na quarta-feira, soube-se que Cristina Ferreira, co-apresentadora do programa Você na TV em parceria com Manuel Luís Goucha, irá para a SIC. Ocupará as manhãs do canal e o cargo de consultora executiva da direcção-geral de entretenimento, liderada por Daniel Oliveira, apurou o PÚBLICO. Porém, a data de chegada de Cristina Ferreira aos ecrãs da SIC ainda não é conhecida.

Pode a contratação de Cristina Ferreira ajudar a SIC a ultrapassar em audiências a sua concorrente directa TVI? Francisco Cádima, professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, diz que esta “não é uma questão fácil”. Cristina Ferreira “não está isolada” e actua muito com um “partner”. Teria de se avaliar se a apresentadora tem mais sucesso junto das audiências sozinha ou acompanhada.

Na quinta-feira, o Correio da Manhã avançava que o salário anual da apresentadora será de um milhão de euros. Uma parte desse vencimento dependerá das audiências, dizia no mesmo dia a Visão.

“Se o Manuel Luís Goucha agarrar mais audiências no confronto directo a TVI vai continuar a ganhar”, detalha o professor da FCSH. Lembra, porém, que os programadores “terão de arranjar uma solução para a sua saída”.

Por sua vez, Eduardo Cintra Torres, professor na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa, acredita que se a Impresa decidiu investir na apresentadora é porque “acredita que vale a pena”. Pode ser uma estratégia, diz o académico, “para devolver espectadores” ao canal de Carnaxide.

Cintra Torres lembra ainda que Cristina Ferreira “não é apenas uma apresentadora”. Na TVI, “exerce cargos de chefia” e mesmo fora da televisão “mostrou capacidade empresarial que não tem nada a ver com outras pessoas na sua profissão”. “Conseguiu transformar-se numa marca.”

Quanto ao interesse nos programas da manhã, Cintra Torres explica que servem “para atrair público para outros programas”. Em termos de audiência, congregam as pessoas disponíveis para ver televisão a essas horas: pessoas mais velhas e desempregados. Em termos comerciais “não são muito interessantes, mas pagam-se a si próprios”.

Sousa Tavares na TVI

Na quinta-feira, soube-se de mais uma transferência. Miguel Sousa Tavares, que comenta o Jornal da Noite da SIC todas as segundas-feiras, passará a falar sobre a actualidade na TVI — mas mantém a sua coluna no Expresso.

É algo que “não tem comparação”, diz Cintra Torres. “Não vejo relação nenhuma. O papel que ambos exercem é bastante diferente.” E nota que uma substituição semelhante seria irem buscar o Daniel Oliveira. Mesmo à informação “não vai trazer diferença nenhuma”.

RTP fica de fora

Já a RTP fica de fora destas transferências. Francisco Cádima nota que “a RTP não concorre directamente com estas duas”. Por vezes, “quer concorrer, mas não tem o perfil nem o contrato com o Estado para isso”.

“É um canal que tem um estatuto estatal e que se comporta no meio concorrencial das empresas e do capitalismo, com os mesmos programas. Inclusive de manhã. Seria um escândalo nacional se a RTP fosse pagar um milhão de euros à Cristina Ferreira”, diz Cintra Torres.

Numa entrevista que deu ao PÚBLICO, em Julho, José Fragoso, director de programas da RTP, afirmava ter “ambição de conseguir mais audiência”. Mesmo com orçamento limitado — “Não temos mais dinheiro hoje e não vamos ter mais no futuro”.

No jogo das audiências, Francisco Cádima lembra que não é só a pessoa à frente do ecrã que conta. “Há muitas variáveis em jogo.” O sucesso depende dos formatos, das equipas de produção e até da iluminação do cenário.

Notícia corrigida a 24 de Agosto: a diferença entre o share de cada canal era apresentada em percentagens e não em pontos percentuais.