José Fragoso: “É possível ter ambição de conseguir mais audiência” na RTP

Tomou posse como director de programas há menos de um mês e quer “desenhar uma grelha estratégica adequada ao perfil da RTP1”, que há um ano criticava por perda de relevância e audiência. “Na televisão e nos media, pensar em orçamentos maiores é utópico.”

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José Fragoso é o director de programas da RTP1 e RTP Internacional Rui Gaudêncio

José Fragoso tomou posse como director de programas da RTP1 e RTP Internacional há menos de um mês, regressando ao cargo que ocupou entre 2008 e 2011. O canal público abriu agora mais uma consulta de conteúdos, procurando novas séries, documentários e animação de produção independente — um processo que Fragoso diz ter sido a sua prioridade à chegada. Há um ano criticava nos jornais a perda de relevância da RTP, agora tem a “ambição de conseguir ter mais audiência”. Mesmo com orçamento limitado — “não temos mais dinheiro hoje e não vamos ter mais no futuro”, diz ao PÚBLICO.

A mais-valia das consultas de conteúdos, modelo encetado em Fevereiro de 2016, mas que este ano só agora se iniciam, é criar “um caminho de transparência”, diz Fragoso. “Dá uma oportunidade às produtoras independentes de mostrar o que têm em carteira”, e que este ano reforça a busca de “projectos que derivam de adaptações de obras literárias portuguesas clássicas ou contemporâneas, ficção histórica e documentário” em vários formatos, da série ao docudrama, além das séries de animação para a RTP2.

“A partir do final do ano”, os produtores escolhidos para criar para a estação pública poderão começar a trabalhar, diz José Fragoso. Os formatos que virão da consulta de conteúdos confundem-se em parte com os ingredientes da grelha do canal no passado recente, mas também com a grelha do futuro. Fragoso deixa antever interesse no humor, no cinema português e sobretudo na co-produção. “Há projectos que merecem uma escala maior e ela muitas vezes é possível em co-produção com outros países lusófonos, como o Brasil ou alguns países africanos, ou países europeus como Espanha. Era importante desenhar projectos que unissem países europeus.”

As co-produções, já prática da casa, permitem optimizar verbas num canal onde o seu antecessor, Daniel Deusdado, trabalhou com “os mais baixos orçamentos de sempre da RTP1 para programas”, como escreveu no PÚBLICO Nuno Artur Silva, ex-administrador dos conteúdos da RTP. Vai pedir um reforço? “Nunca falei de orçamentos no sentido de pedir mais. Na televisão e nos media, pensar em orçamentos maiores é utópico. Os orçamentos são opções. Escolher bem os conteúdos para o perfil estratégico do canal... é isso que espero poder fazer, desenhar uma grelha estratégica adequada ao perfil da RTP1. Muitas vezes, um conteúdo inovador não depende de um bom orçamento, depende de uma boa ideia.”

O consulado de Deusdado, que saiu em fim de mandato, foi marcado pela aposta nas séries de ficção nacional (Madre Paula, Vidago Palace, 1986), nem sempre vitoriosa nas audiências, e pela popular renovação do Festival da Canção e recepção da Eurovisão, mas também por abdicar dos direitos de transmissão da onerosa Liga dos Campeões.

Há um ano, durante esse mandato, José Fragoso deu uma entrevista ao Sol em dizia que “a RTP perdeu relevância na sociedade portuguesa e são cada vez menos os que falam dela, o que não acontecia há dez anos. A RTP corre o risco de perder toda e qualquer relevância”. Hoje, Fragoso mantém: “É um facto, nem precisava de ser eu a dizê-lo. É olhar para os números — o número de espectadores que se aproxima da marca é menor. É possível contrariar essa tendência, devemos fazê-lo com sensatez. Não é uma obsessão mudar de conteúdos para ir à procura de mais audiência, mas é possível ter ambição de conseguir ter mais audiência ao longo do dia.” 

Trabalhará hoje para um público verdadeiramente globalizado, em que o que é feito em Portugal tem como bitola a TV europeia e americana. Há mais canais, mais produção, novos operadores de streaming e uma geração que não se relaciona com o objecto televisor. “A exigência é muito maior”, admite, mas a grelha vertical da estação, com programas diferentes todas as noites, é uma vantagem da RTP, diz, contra a “monotonia cromática da novela às 21h30 e mais uma novela às 22h30”. O audiovisual mudou muito desde que saiu da RTP, os generalistas nem por isso.

“Os canais generalistas em Portugal perderam a capacidade de risco. É transversal aos canais todos. A RTP é claramente a televisão que pode fazer mais pela transformação, que pode ter mais capacidade de risco”, acredita, defendendo, sem pormenorizar, vir a ter “conteúdos surpreendentes nos vários géneros”. A RTP deve ter “conteúdos que tenham uma vocação popular, de aproximação ao país”, e deve “descobrir lados inovadores nos diferentes formatos”. Postula: “O nosso trabalho no canal 1 é um trabalho de aproximação ao grande público.” Promete reforçar, reformatar ou realinhar títulos já no ar, sem detalhar. As novelas nacionais, que nos últimos anos têm tido presença esporádica na RTP, não voltam, nem o futebol mais caro, apesar de serem os grandes agregadores do público televisivo em Portugal.

O futebol é “um conteúdo muito atraente porque é dos poucos que exigem o visionamento em directo, e o espectador de televisão generalista é de conteúdo em directo. Mas uma grelha não se constrói com jogos de futebol”, frisa. José Fragoso passou pelos principais órgãos de informação do país como jornalista e foi também director de programas da TVI, da TSF e da direcção da SIC e SIC Notícias. Na RTP pôs no ar O Último a Sair, Mistérios de Lisboa, Estado de Graça, Masterchef ou The Voice.

Na ficção, fora as novelas, a primazia será “das séries, dos telefilmes e do apoio ao cinema português”. Depois de meses de polémica em torno dos júris de financiamento público do cinema português e sobre o papel das televisões perante o cinema português, Fragoso considera que “hoje a RTP é um parceiro muito importante da maior parte dos realizadores nos grandes projectos cinematográficos”.

Como planeia aproximar-se mais do cinema português: no momento da produção, do financiamento ou da exibição? “Temos de estar associados a projectos que tenham uma componente histórica, de co-produção, que tenham que ver com o nosso quotidiano e realidade, adaptações de obras literárias, projectos biográficos da cultura e história portuguesa”, enumera. Põe a tónica na promoção. “É muito importante que a RTP esteja ao lado dos realizadores no momento da estreia, com os actores nos [seus] programas”, diz, para chamar mais espectadores. “Aí também podemos ser um aliado.”