Série Vidas

Não é só o barco que é do rio, também Jaime Costa é do Tejo

O estaleiro é a vida e a casa de Jaime Costa, o mestre que não quer ser mestre. É um dos únicos, talvez o último, a pôr velas a navegar no Tejo como se fazia há 50 anos.
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Daniel Rocha

O rio banha, tranquilo, a areia onde, lado a lado, repousam ainda umas dezenas de barcos à espera que alguém lhes deite a mão e os devolva à água. São varinos e fragatas, canoas e catraios, botes. Quando Jaime chegava a Lisboa em miúdo, as docas do Cais do Sodré, do Jardim do Tabaco, do Poço do Bispo ou de Alcântara, estavam apinhadas de gente e destas embarcações. Ali se levavam, por exemplo, produtos agrícolas da outra margem, dos campos alentejanos, que chegavam à capital numa fragata ou numa muleta. “Eram uns milhares de pessoas envolvidas.”

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Hoje, já poucas velas enfunadas se vêem no Tejo, há-de lamentar, amiúde, o mestre Jaime Costa, 65 anos, que está à frente de um dos últimos estaleiros navais onde se reparam e constroem barcos tradicionais deste rio, em madeira. Num cantinho de Sarilhos Pequenos, na Moita, a arte ainda resiste, contra as correntes do tempo, que empurram a arte para a extinção. 

Hoje, está tudo praticamente irreconhecível na margem sul. Dos 42 estaleiros que ali existiam, da Lisnave a Alcochete, resta um. Nos anos de 1950, o pai contava-lhe que havia perto de 800 barcos no tráfego fluvial. Mas a construção da ponte de Vila Franca de Xira e o 25 de Abril ditariam o quase abandono destas embarcações. 

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Jaime Costa tem a ideia de fazer um museu com as ferramentas que pertenceram ao pai e ao bisavô e que ajudaram a lançar ao Tejo muitas embarcações

É um lugar único na paisagem. Os barcos alinham-se na beirada do rio. Lá atrás, os grandes armazéns estão carregados de enormes troncos de madeira. Cheira a tinta e a verniz. Às tantas, agiganta-se uma muleta com nove velas — barco de pesca de arrasto usado entre o Cabo da Roca e o Cabo Espichel, havia de explicar Jaime — que é uma encomenda da Câmara do Barreiro. Naquele dia, estava ainda em construção. No dia 10 de Agosto beijou o rio pela primeira vez, mas faltam ainda vistorias para que possa fazer-se à água.

Não se pode contar a história deste homem sem antes se contar a do pai, também Jaime, homem da terra dos moliceiros, Pardilhó, perto de Aveiro, que chegou a Sarilhos Pequenos com 17 anos. A mãe tinha morrido, eram nove irmãos e tiveram de “se fazer à vida”. Na casa do pai, os homens eram carpinteiros navais, as mulheres eram da padaria. Os ascendentes maternos eram da zona do Rosário, não muito longe dali, e a família proprietária de embarcações. “Eu estava predestinado”, diz o mestre Jaime. Estava mesmo, tanto que acabaria por seguir a arte do pai, que já tinha sido a do avô e do bisavô. 

O pai comprou o Estaleiro Naval de Sarilhos Pequenos no dia 28 de Setembro de 1955. A partir dali, a vida de Jaime foi sempre passada no Tejo. Aos 11 anos começou a aprender o ofício. Passava os dias entre o cheiro a madeira e ia estudar de noite. Tirou o curso industrial e comercial da Escola do Montijo. Ainda esteve para ir para o Técnico, mas o trabalho era muito. Era preciso aprender calafetagem, carpintaria e pintura. Sem manuais. Só com o saber empírico, passado de pais para filhos.

Entre curvas e desvios, ainda havia de tentar a carreira na bola, no Futebol Clube Barreirense, mas meteu-se o serviço militar e o sonho de se tornar um Eusébio ficou pelo caminho. Dos 22 até hoje (fora um ano em que se zangou) nunca mais dali saiu.

De repente, durante a conversa, os olhos muito azuis de Jaime Costa enchem-se de mar, a tristeza e a saudade estampam-se-lhe no rosto, quando se pede que fale do pai. Jaime, “um homem com a quarta classe”, formou naquele estaleiro mais de 20 carpinteiros navais, calafates e pintores. “Com ele não havia indecisões. Era um mestre de estaleiro. Chama-me mestre a mim, mas eu não me considero mestre. Ele [o pai] é o meu ídolo.”

Trabalhava-se quase noite e dia. Não havia tempo para grandes festas, que havia sempre barcos para devolver ao Tejo. “No dia dos meus 12 anos fomos sair e tivemos um desastre. Fomos parar todos ao hospital. Foi a única vez que saí com o meu pai.”

O pai de Jaime Costa dedicou uma vida aos barcos, sem nunca ter entrado num e se ter feito ao rio. Morreu em 2010, deixando aos filhos o futuro incerto de um estaleiro já então transformado em património ainda vivo de uma arte em risco, e cuja história se confunde com a deles. 

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O estaleiro naval de Sarilhos Pequenos é um dos últimos onde se reparam e constroem barcos tradicionais do rio Tejo

A casinha de madeira, um “sonho de miúdo”

Quando os estaleiros navais empregavam dezenas de artistas, as famílias de quem ali trabalhava viviam em barracas que se iam construindo à volta dele e que se tornavam as suas casas. Jaime quis fazer desse “sonho de miúdo”, o de morar à beira-rio, uma realidade. Até já tinha feito ali uma casa para servir de sala do risco, onde se desenhariam as embarcações, e de museu para as peças antigas que foram do bisavô, do avô e do pai, mas acabou por torná-la a sua casa, depois de se ter separado e de ter estado, um ano, a viver num barco com 17 metros, o varino preferido, “que deve ter perto de 100 anos”. 

No fundo, é quase a mesma coisa. É uma casa de madeira, como se do interior de um barco se tratasse. “Aqui, faço de guarda, faço de tudo.” 

Continua a não ter dias de folga. As mãos são poucas para tanto serviço. Hoje, estão ali a trabalhar apenas três carpinteiros navais. Aos 65 anos, Jaime é o mais novo. Tem encomendas até 2021, muitas suscitadas pelo interesse das câmaras municipais da margem sul que querem ter as embarcações para “manter a tradição”, fazer passeios com escolas ou para fins turísticos. A Câmara da Moita, por exemplo, já fez saber que tem interesse em candidatar as técnicas de construção e reparação das embarcações tradicionais do Estuário do Tejo a património imaterial da UNESCO.

“Quando este estaleiro acabar, acaba-se tudo o que havia no Tejo”, vaticina o mestre. “Tenho pena que pelo país fora a classe de carpintaria naval esteja quase extinta. Eu tenho 65 anos. Vou ter de trabalhar até morrer?”, há-de questionar-se, sem deixar de criticar que, apesar do interesse dos municípios em mostrar as embarcações à população, a arte ficou esquecida por muito tempo. Tempo a mais, que afastou os jovens do interesse por aprender o ofício. 

Mas o turismo pode ser hoje uma oportunidade. “Se nós conseguirmos arranjar diversidade [de trabalhos] para os moços, para virem trabalhar não só na carpintaria ou na pintura, eu penso que será mais cativante. De Verão, contactam com as pessoas, de Inverno reparam as embarcações”, diz, sugerindo que os barcos passem a fazer passeios turísticos. Jaime até já pôs uma embarcação a trabalhar em Lisboa a passear turistas. Trata-se do Sejas Feliz, uma fragata construída pelo pai em 1947.

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Além de andar de volta dos barcos, o trabalho passa agora por cativar o filho Ricardo a dar forma às tábuas e tornar-se ele mesmo o “bom formador” que o pai fora.

De vez em quando, Jaime sai no Sou do Tejo, para ir até Cascais ou Lisboa, mesmo que, sinal dos tempos, a chegada à capital não se adivinhe muito simples, porque não há cais para acostar este tipo de embarcações. Dessas vezes, tudo volta onde pertence. Não é só o varino que é do rio, também Jaime Costa é do Tejo.