Leite

Agros desafia Lactogal a manter preços ao produtor

Accionistas estão divididos quanto à redução de um cêntimo por litro, que esteve na origem de uma manifestação contra a Lactogal.
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Centenas de produtores exigiram mudanças na Lactogal Adriano Miranda

A Agros, uma das uniões de cooperativas fundadoras da Lactogal, e responsável por três quintos do leite que entra nas fábricas do gigante português do sector, juntou esta sexta-feira a sua voz aos protestos dos produtores que se revoltaram contra o anúncio do corte de um cêntimo no preço pago pelo litro de leite recolhido nas explorações. E exige mesmo a reversão da medida, da qual discorda.

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Em comunicado enviado à imprensa, a administração da Agros afirma que vai convocar uma reunião da administração da Lactogal – na qual está representada por três dos nove administradores – para discutir o recuo em relação ao corte que motivou os protestos. Uma medida que apanhou de surpresa os produtores e que foi decidida sem o apoio do pilar da empresa com mais peso na produção.

Aliás, o comunicado da Agros, assinado pelo seu presidente, José Martins Capela, deixa transparecer uma divisão entre esta união de Cooperativas e os restantes accionistas quanto ao rumo que tem sido seguido na Lactogal, que “foi fundada por produtores de leite para produtores de leite”, frisam. “Em coerência com os desígnios dos fundadores, a Agros não poderia deixar de manifestar publicamente o seu desagrado pelos avultados lucros que a Lactogal teve nos últimos anos, pois estamos perante uma empresa de raízes cooperativas em que o lucro não pode ser só o seu objectivo”, insiste.

Depois de ter aceitado, perante uma quebra no escoamento de leite na ordem dos cem milhões de litros, avançar com um resgate de direitos de produção, para reduzir em 60 milhões de litros a matéria-prima que entra nas fábricas, a Agros, que pela sua dimensão tem de garantir mais de 60% desse resgate, por via incentivo ao encerramento de explorações, discordou do passo seguinte tomado pela administração da Lactogal.

“É uma contradição comunicar medidas para reduzir o volume de leite recolhido pela Lactogal, com o fundamento da valorização da matéria-prima, e em simultâneo anunciar uma descida do preço pago por litro de leite”, escreve o conselho de administração da Agros. “Por a Agros ser coerente com os seus princípios, por a Agros não aceitar estas contradições, por sermos produtores de leite todos os dias da semana e não alguns, fomos contra a proposta da Lactogal de redução do preço pago por litro de leite em um cêntimo”, vinca Capela, numa declaração que contraria a afirmação, expressa num comunicado da Proleite, de que o corte fora decidido na semana passada “por unanimidade”.

O comunicado da Agros surge um dia depois de uma manifestação ter juntado centenas de produtores – a maioria de Entre o Douro e Minho, de facto – em frente à sede da Lactogal. A administração desta empresa, liderada por Casimiro de Almeida atirou, em comunicado, a responsabilidade do protesto para uma associação socio-profissional, a Aprolep, que nada tem a ver com a Lactogal, insistia, mas a assunção pública desta posição crítica, por parte de um dos seus accionistas, coloca o problema, e a divisão de posições, dentro do gigante do sector.

Os manifestantes gritavam “Casimiro para a rua, a Lactogal não é tua”, e a Agros não só não se demarcou deste apelo à saída do histórico líder da empresa fundada em 1996, como deixou bem expresso, no final do seu comunicado, que o futuro das organizações depende das lideranças saberem enfrentar cada dificuldade como um novo desafio (…) sendo que para esse desiderato é necessário ter em cada momento a capacidade de dar espaço àqueles que querem mais”, concluiu.