Refugiados

É possível integrar bem os refugiados? Em Portugal há bons exemplos

Os Ateka e os Dzay são duas famílias, a primeira é síria e a segunda curda iraquiana. Não se conhecem, mas em comum têm uma história de países de origem em guerra, de fuga, de viagens com risco de vida, de campos de refugiados e de chegada a um país desconhecido, Portugal.
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Quando Hend Ward começa a contar os números até dez em árabe, há duas dezenas de crianças que repetem: "Wahed, teneen, talateh, arba'a, khamseh...” É como se fosse uma canção que os meninos do colégio católico entoam com a auxiliar, que usa hijab. Hend Ward é síria e vive em Portugal depois de ter fugido à guerra com o marido e os filhos; são a família Ateka. Também a curda iraquiana Frmesk, que foi acolhida e trabalha num outro colégio, em Braga, onde os quatro filhos estudam gratuitamente. Tal como os Ateka, a família Dzay faz parte de um grupo de refugiados que instituições portuguesas acolheram e procuram integrar. São pessoas que contrariam a ideia de que o país é apenas um ponto de passagem para outros lugares.

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Em 2016, Portugal concedeu estatuto de refugiado ou protecção internacional a 400 pessoas, duas vezes mais do que em 2015, de acordo com o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre migrações, divulgado no Dia Mundial dos Refugiados. O documento aponta que em dois terços dos casos foi dado visto humanitário e aos restantes estatuto de refugiado. Entretanto, a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR), criada em 2015 para acolher e integrar refugiados através de instituições locais, já recebeu cerca de 700 pessoas. Destas, metade ainda está em Portugal. “Destes mais de metade são crianças para quem a vida se tornou sinónimo de normalidade, brincando em segurança, tendo acesso à educação e saúde, estando junto dos pais”, sublinha o coordenador da PAR, Rui Marques.

A PAR nasce por iniciativa da sociedade civil para dar uma resposta à actual crise mundial de refugiados. “Para muitos a opção foi ficar em Portugal e aqui ter o seu porto de abrigo até que o seu país volte a ter paz. Outros procuram juntar-se a familiares e amigos que estão noutros países europeus, o que é perfeitamente compreensível”, continua Rui Marques. Foi o que aconteceu com os curdos Dzay que 15 dias depois de chegarem a Portugal, viajaram para a Alemanha para Shyda Dzay, 36 anos, ser submetido a uma intervenção cirúrgica ao coração. Por lá ficaram nove meses, até que há três, a polícia bateu-lhes à porta “às duas da madrugada e deportou-nos para Portugal”, recorda o homem, sentado no sofá da sala da casa de Braga, rodeado pela mulher e os quatro filhos.

Na altura, a família foi realojada por Helena Pina-Vaz, directora do Colégio Luso Internacional de Braga (CLIB) e que faz parte da comissão-executiva da PAR, que, tal como todas as instituições anfitriãs do programa tem a responsabilidade de cuidar das famílias de refugiados, integrá-las na comunidade e ajudá-las a tornarem-se autónomas. Esta é uma das alternativas que Portugal encontrou para apoiar os refugiados que continuam a chegar à Europa através de rotas como a dos navios Aquarius e Lifeline que tiveram recentemente os holofotes voltados para eles. O ministro da Administração Interna português já divulgou que “vai receber cerca de 30” das mais de duas centenas de refugiados a bordo do Lifeline. Há uma semana, a União Europeia chegou a acordo sobre a migração e decidiu criar plataformas de desembarque de migrantes fora da Europa, assim como criar, de forma voluntária, centros de identificação de refugiados.

“No coração da família”

“Trato os meninos como se fossem meus filhos. Gosto muito de trabalhar com as crianças”, confessa Hend Ward, 30 anos, enquanto mima as crianças do colégio Sol dos Pequeninos, em Miramar, Vila Nova de Gaia, com beijos. Os abraços e os afectos multiplicam-se entre as crianças e a auxiliar de educação, que ali trabalha há mais de um ano. “A Hend é uma de nós e o lenço na cabeça não causa qualquer receio nas crianças nem em nós”, declara Joana Pinto, educadora de infância da sala dos dois anos, onde a síria é auxiliar. “As crianças procuram-na para brincar, para mimos ou até mesmo quando se magoam “, continua.

Hend faz parte da rotina das crianças. “Recebo-os de manhã quando chegam ao colégio, brinco com eles, dou-lhes de comer, ajudo-os a acordar e a vestir depois da sesta”, conta entusiasmada por “ser tão bem acolhida pelos colegas e pais das crianças” sem qualquer preconceito ou juízo de valor por ser refugiada, tal como aconteceu com o marido Alamir Ateka, de 38 anos, na fábrica onde trabalha, e com os filhos Abdul e Batoul, um rapaz e uma rapariga de 11 e sete anos respectivamente. Todos se sentem bem integrados depois de terem sido acolhidos já lá vão dois anos, vindos do campo de refugiados na Grécia. E depois de terem fugido de Alepo, na Síria.

“Esta é uma história de bondade humana, de como se acolhe e integra uma família que confiou em nós. Todos os que aqui estamos recebemos muito mais do que damos”, vai dizendo Sónia Aires, directora do colégio Sol dos Pequeninos onde Hend trabalha, durante a missa, no Centro de Reflexão e Encontro de Universidades (CREU), no Porto. A ouvi-la está também a família Ateka, que é muçulmana. “O que está em causa são as pessoas e não o islamismo. São pessoas a quem Deus nos pede para acolher. Não é a diferença que as torna menos válidas”, ressalva o padre José Eduardo Lima, superior da Comunidade de Jesuítas do Porto, que integrou a equipa que remodelou a casa onde a família vive. “Nós Te pedimos, pela Tua ardente intercessão, que derrubes este muro, os muros dos nossos corações e todos os muros que geram ódio, violência, medo e indiferença, entre os homens e entre os povos”, escuta-se na capela a “Oração a Nossa Senhora que derruba os muros”. De seguida, Alamir reza em árabe.

Em Braga não foi muito diferente. “Acolhemos as famílias, e já vamos na sexta, por uma questão de humanidade”, diz Helena Pina-Vaz. “Sempre me fizeram confusão as situações de emergência e ficar numa cadeira a ver tudo acontecer”, elucida. Os Dzay só têm a agradecer: “A Helena faz tudo por nós”, diz Frmesk, 30 anos. O marido Shyda, 36 anos, acrescenta que Helena “está no coração da família, para sempre”. Uma mão não chega para enunciar as situações em que a directora do colégio – que as quatro crianças curdas frequentam com uma bolsa –, os ajudou, como, por exemplo, o dinheiro que adiantou para Frmesk comprar os óculos. Helena vai respondendo com um enorme sorriso e dizendo “está muito contente com eles, que são uma família muito simpática e trabalhadora”.

Alamir sonha com uma fábrica

Com o dinheiro que já amealharam, desde que chegaram a Portugal, os Ateka já compraram um carro que Alamir conduz para ir para o trabalho. “Foi um filme para ter a carta de condução que não era reconhecida cá. Agora tem uma carta internacional pedida na Síria que lhe dá autorização para conduzir durante um ano”, revela Maria João Jardim, uma das voluntárias da instituição de acolhimento. “Foi fundamental para terem a sua autonomia e a fábrica onde trabalha é afastada da casa”, justifica Sónia Aires. Alamir é cortador de tecidos e estofador na empresa de mobiliário Soft Crafts, em Gondomar, um trabalho que faz com imensa facilidade porque já era chefe numa fábrica do ramo, que pertencia à sua família, em Alepo. Gostava de, um dia, ter uma fábrica em Portugal semelhante à que tinha para poder dar uma vida melhor aos filhos.

“Sei fazer o sofá do princípio ao fim e até costurar”, diz de caneta presa numa das orelhas, enquanto corta um tecido com uma tesoura de grande porte e vai apontando para o outro lado do armazém onde tem um espaço com o seu nome em árabe e em português e onde estofa o mobiliário. O gestor da empresa Carlos Matos considera-o “um excelente trabalhador e um dos melhores funcionários”. “É muito despachado, inteligente, uma mais-valia para a empresa porque traz ideias novas”, acrescenta Rute Almeida, dos recursos humanos.

Apesar de Alamir não falar correctamente português, convive bem com os colegas com quem joga futebol.“É uma pessoa muito querida na empresa e sabemos que vem de uma cultura diferente”, resume Carlos Matos, referindo que todos respeitam quando Alamir vai rezar no intervalo ou quando, há pouco tempo, cumpriu o Ramadão.

Também a família Dzay sonha ter uma vida melhor em Braga e Shyda, que sempre trabalhou na construção civil, gostaria de construir a sua própria casa. Agora, a família vive num T3 no centro da cidade. O sonho pode vir a ser concretizado, porque Helena Pina-Vaz está “a tentar adquirir um terreno para construírem”. E ajudas não deverão faltar na construção graças aos voluntários da Habitat for Humanity Portugal, uma organização cristã dedicada à eliminação da pobreza habitacional, de que Helena Pina-Vaz é presidente.

Enquanto não tem a sua casa, Shyda constrói edifícios para os outros e “a empresa de construção civil onde trabalha há um mês está muito contente com o fantástico trabalho dele e até decidiu pagar mais do que o salário mínimo”, conta a directora do colégio. Shyda sorri satisfeito, mostrando no telemóvel fotografias dos trabalhos especializados, como de cerâmica, que fazia no Curdistão iraquiano por conta própria com uma equipa a seu cargo. “Até deixar de haver mármore por causa do Daesh e ficar sem trabalho”, lamenta o curdo, pertencente a um dos três grandes grupos étnicos iraquianos.

Também a mulher é elogiada pelo seu trabalho no CLIB. “A cozinheira considera-a muito boa trabalhadora”, confirma Helena Pina-Vaz, enquanto a filha Sham, 11 anos, traduz do inglês para o curdo o que a responsável acaba de dizer. Frmesk devolve um sorriso, pois apenas fala curdo e a menina ainda sabe poucas palavras em português.

“Percebemos logo que iríamos ficar bem”

O dia 17 de Maio de 2016 está na memória dos Ateka. Chegaram ao aeroporto de Lisboa e tinham um grupo de nove pessoas à sua espera, entre elas estava Sónia Aires, do colégio onde Hend agora trabalha. “Vimos pessoas sorridentes e percebemos logo que iríamos ficar bem”, conta enquanto mostra no telemóvel as fotografias desse dia. Hend ainda se comove quando recorda a chegada à casa “muito limpinha e mobilada, que até bonecas tinha”. “Senti logo que era a minha casa e fiquei muito feliz”, conta. De tão cansada, “só queria deitar-me e não lembrar mais o que passámos para aqui chegar”, continua.

Então, a família foi rodeada por dezenas de voluntários, uns que já lhes tinham remodelado a casa, outros que os levaram às consultas médicas ou a tratar de documentos e outras burocracias. “Para a semana vamos buscar os passaportes deles a Vila Real, porque no Porto é indefinido o tempo de espera”, relata Sónia Aires. Também a educadora Cátia Gama, do Sol dos Pequeninos, levou os meninos a passear, à praia e à piscina, e o Natal foi passado na casa de Sónia Aires. 

“O difícil era a mesmo falar a língua. A Nadia – marroquina que é casada com um português e são vizinhos da família – ajudou muito nas traduções”, lembra Hend. “Ia ao médico com eles para traduzir e depois já me telefonavam para fazer de intérprete”, conta, por seu lado, Nadia Ettaquass.

Hend já não se imagina a viver noutro país. “Eu gosto de aqui estar. Temos trabalho, amigos e os meus filhos andam bem na escola”, suspira de alívio. Também os Dzay gostam “muito de viver em Braga”, assegura Frmesk. “Temos trabalho, casa e amigos e não queremos regressar ao Curdistão iraquiano, porque não temos família e não é seguro para os nossos filhos devido aos ataques do Daesh”, continua. O filho Darya, 14 anos, acrescenta que “nunca poderia ser alguém no Iraque porque não há oportunidades como em Portugal”. Ele sonha ser “como Cristiano Ronaldo” mas, até lá, ainda tem muitos golos para marcar e muito que estudar, por enquanto está no 6.º  ano no CLIB onde tem “bons amigos”. O mesmo dizem os irmãos Sham, de 11, que quer ser ginasta ou médica, Mohannad, de oito, e Tablo, de quatro anos, que percorrem os corredores do colégio com um enorme à vontade como se já o frequentassem há muito e não apenas há três meses.

Tudo parece bom, excepto os preços das coisas. “É tudo caro”, queixa-se a síria Hend. Até Maio, a família tinha apoio do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), mas terminou, diz Sónia Aires. Durante dois anos, as famílias recebem uma bolsa mensal de 150 euros por cada adulto e 75 euros por menor para fazer face às despesas. Rui Marques, da PAR, explica que “as famílias conhecem, desde o início, a duração do apoio e as condições subjacentes. Assinaram um acordo de acolhimento, na sua língua materna, com essa informação”. Por isso, realça: “compete-lhes um esforço para se tornarem autónomas. As que não conseguirem terão da parte do Estado português o apoio similar aos portugueses nas mesmas circunstâncias. Creio, no entanto, que será uma minoria que enfrentará essa necessidade”. “Já sabíamos que [o subsídio] iria acabar e começámos a juntar dinheiro. Vamos pagar 200 euros de renda mensais durante cinco anos”, informa Hend.

“Não podemos ignorar” 

“Quando começámos a ver as notícias no Verão de 2015 e vi as imagens na televisão daquela criança síria morta a dar à costa na praia, interroguei-me logo ‘como é possível? O mundo está virado do avesso e estamos aqui tranquilamente...’ Ocorreu-me logo a pergunta: ‘Senhor, o que queres que faça?’”, lembra Sónia Aires. Logo depois lembrou-se de acolher uma família e tudo ficou mais fácil com o surgimento do projecto PAR com o mote “Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”, de Sophia Mello Breyner Andresen.

O passo seguinte foi inscrever na plataforma o colégio Sol dos Pequeninos como instituição anfitriã de acolhimento e que sempre trabalhou causas humanitárias. “Tem muito a ver com vontade e acreditar, e as coisas acontecem, porque sem grande esforço tínhamos cerca de 70 voluntários a ajudar”, diz. Quando a família Ateka chegou a Portugal, ficou muito admirada “como é que havia tantas pessoas a ajudar a troco de nada”, gente com profissões diversas, médicos, professores, engenheiros.

Em Braga não foi muito diferente. Helena Pina-Vaz, directora do CLIB, também sentiu que não podia baixar os braços, acostumada que está com causas humanitárias, é voluntária na construção de casas em Moçambique, Quénia, Bolívia e Camboja. Também para este último país já levou várias vezes alunos do colégio para participarem em projectos de voluntariado. Foi como um chamamento, confessa. “Passámos o Verão de 2015 a ver estas notícias. Chorar e ter pena não era suficiente. Pensámos em acolher uma família e envolver o colégio”, recorda.

No início do ano lectivo, os alunos começaram a juntar alimentos, roupas e a angariar dinheiro para a renda de uma casa, mas depois já não foi preciso porque alguém cedeu uma habitação. A criação da PAR não poderia vir em melhor altura. “Fomos uma das primeiras instituições anfitriãs a acolher famílias. Passamos a ser responsáveis por encontrar-lhes casa, emprego, ajudar com o português, e temos bolsas para as crianças poderem frequentar esta escola durante dois anos”, enumera.

O primeiro casal com quatro filhos, vindo da Grécia, chegaria em Maio de 2016, e  um ano depois foi para a Alemanha. Em Setembro, acolheria outro casal sírio com um bebé, que decidiu mudar-se para Lisboa onde tinha pessoas conhecidas. Em Fevereiro de 2017, viria um casal com um menino de três anos que também se mudou para a Alemanha. Em Maio de 2017 foi a vez de uma família síria com dois meninos que ainda frequentam o colégio. E depois outra família síria que tinha sido acolhida na Turquia e que também tem um menino na mesma escola. A sexta família são os Dzay. 

Onde fica Portugal?

“Tinha uma vida boa em Alepo, na Síria, há sete anos até que, um dia, durante o Ramadão, acordámos às sete da manhã com muito barulho, pessoas a fugir e a gritar”, recorda Hend com os olhos a marejar. “Fugimos a correr, de pijama, só com alguns documentos por causa dos bombardeamentos”, continua comovida. “Batíamos à porta das pessoas, a pedir ajuda e elas davam-nos dinheiro para comprarmos leite e fraldas.” Então, o filho tinha cinco anos e a filha oito meses e “só chorava porque queria leite”. Alamir arranjou emprego, mas tiveram de fugir para Tartus, só que voltariam a ter de se mudar, desta vez para a Turquia, para que Alamir não fosse destacado para a guerra.

Mas não ficariam por ali. “Viajámos, durante três horas, com 35 pessoas, numa carrinha frigorífica onde transportavam carne. Nunca irei esquecer a cara da minha filha, na altura com quatro anos, a ficar muito azul. A menina só chorava e eu com a minha cara encostada à porta quase sem conseguir respirar”, vai desfiando, enquanto mostra uma fotografia do barco pequeno atolado de gente, no qual viajaram para a Grécia. Passariam depois para um barco maior que os levaria para terra e a polícia encaminhou-os para um campo de refugiados. “Era muito mau, porque dormíamos oito pessoas numa tenda pequena, não tomávamos banho e os meus filhos choravam muito de frio.” Iriam depois para um pavilhão onde dormiam nas bancadas e mais tarde para a Macedónia, onde pernoitavam em tendas, à espera que abrissem fronteiras para conseguirem juntar-se a familiares na Alemanha.

“O dinheiro já tinha acabado, mas fomos alojados num hotel na Grécia e andávamos sempre a mudar de sítio.” Certo dia, recorda, “telefonaram a informar que iríamos para Portugal e fomos logo ver à Internet que país era este e onde ficava”. Alamir sorri, aliviado: “Vimos que tinha muitas fábricas de cerâmica, peixe, vinho, turismo, sol e bom tempo.” O filho Abdul ainda se recorda “de fugir, ser muito cansativo, tínhamos de dormir no chão à chuva e andar muito”.

Também a família Dzay fugiu, em 2016, por causa da guerra no Curdistão iraquiano para a Turquia, onde estiveram duas semanas. Fizeram duas viagens de barco, num mais pequeno com cem pessoas e noutro maior, em dois dias, para dois locais diferentes da Grécia, até chegarem ao campo de refugiados de Idomeni. Por ali ficaram durante três meses à espera de uma solução. “Era má a vida no campo. Em 20 dias só tomamos banho uma vez”, recorda Frmesk. Foram depois recolocados, durante 14 meses, num hotel “sem fazer nada, à espera dos papéis” para serem acolhidos num país europeu, neste caso Portugal. Daqui decidiram seguir para a Alemanha até serem obrigados a regressar.

“Portugal tem um dos contextos menos negativos para o acolhimento e integração de refugiados na Europa”, acredita Rui Marques, acrescentando que o país “tem sido muito elogiado internacionalmente e a PAR recebeu o Prémio Cidadão Europeu no Parlamento Europeu, [em 2017], o que é um incentivo para fazer melhor e com mais qualidade”. Mas, ressalva, “é importante que o Estado português melhore os procedimentos burocráticos e a sua exasperante lentidão nalguns casos”. Mais, continua, “há um grupo significativo de famílias acolhidas cujo processo de integração na sociedade portuguesa está a decorrer muito bem. Outras há que, por vários motivos, têm mais dificuldade nesse processo”. Mas, modo geral, refere, “o balanço é muito positivo e é um grande desafio com muitos obstáculos para ultrapassar que vão desde as marcas da experiência traumática que viveram, cultura, língua diferentes, saudades de casa, preocupação com os seus que ficaram para trás, bem como as dificuldades que encontram na burocracia em algumas das nossas instituições e a incerteza quanto ao futuro”. Os Ateka e os Dzay não se conhecem, mas em comum têm uma experiência de integração com o apoio das instituições ligadas ao PAR.