A escrava preferida de Thomas Jefferson já tem um quarto na mansão de Monticello

O principal autor da Declaração de Independência dos EUA, onde se defende que "todos os homens são criados de forma igual", foi proprietário de 600 escravos e teve filhos com uma escrava. A Fundação Thomas Jefferson vem agora propor um debate sobre essas contradições.

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Os historiadores dizem que Jefferson e Hemings tiveram seis filhos DR

Quase 200 anos depois da morte de Thomas Jefferson, muitos americanos continuam a coçar a cabeça à procura de uma explicação para as contradições na vida do seu terceiro Presidente.

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Quase 200 anos depois da morte de Thomas Jefferson, muitos americanos continuam a coçar a cabeça à procura de uma explicação para as contradições na vida do seu terceiro Presidente.

A sua filosofia de liberdade deu forma à Declaração de Independência dos Estados Unidos da América e à afirmação de que todos os homens são iguais à nascença, mas a sua defesa pseudocientífica do racismo fez dele um dos mais célebres e convictos esclavagistas do estado da Virginia, que não hesitava em separar famílias como forma de punição.

Para sublinhar estas contradições, a fundação que gere a memória da gigantesca plantação de Monticello, na Virgínia, onde Jefferson viveu grande parte da sua vida, inaugurou no passado fim-de-semana uma exposição polémica: num dos quartos, os visitantes podem agora conhecer a vida de Sally Hemings, a escrava que terá sido mãe de seis filhos de Thomas Jefferson.

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Pintura de Thomas Jefferson por Rembrandt Peale (1805) DR

A existência dessa relação de várias décadas, iniciada depois da morte da primeira e única mulher de Jefferson, Martha, é aceite pela generalidade dos historiadores. Mas nem sempre foi assim.

Durante dois séculos, os que se atreveram a unir os pontos deixados pela História e a dar credibilidade aos testemunhos orais das gerações que diziam descender do casal foram sempre rotulados pelos admiradores de Jefferson como uma espécie de historiadores de mexericos – escritores em busca de fama que transformavam aquilo que pareciam ser vinganças pessoais com 200 anos em supostas revelações polémicas na actualidade.

A história conta-se em poucos parágrafos.

Tudo começou em 1802, nas páginas do jornal Recorder, quando um jornalista chamado James Callender, conhecido por lançar ataques venenosos contra inimigos políticos de Thomas Jefferson, se virou contra o seu antigo aliado, depois de lhe ter sido negado o posto de responsável dos correios na Virginia.

Num artigo intitulado "O Presidente, mais uma vez", Callender acusou Jefferson de hipocrisia ao esconder uma relação com uma das suas escravas: "Ela chama-se Sally. O filho mais velho dela chama-se Tom. Dizem que as feições dele têm parecenças impressionantes com as do Presidente, embora mais escuras", escreveu Callender.

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Imagem do texto assinado por James Callender Recorder

O tema foi muito falado na época, mas o Presidente Jefferson, no cargo há dois anos, não fez qualquer comentário público e tudo acabou por ser varrido para os rodapés de conversas em surdina, até se diluir na passagem das décadas e dos séculos.

As provas do ADN

Tudo mudou em 1998, com a publicação de um estudo na revista Nature. Depois de analisar o ADN de descendentes masculinos dos Jefferson e dos Hamings, uma equipa de investigadores concluiu que "a explicação mais simples e mais provável" é que Thomas Jefferson foi o pai de Eston Hemings, o filho mais novo de Sally Hamings, nascido em Maio de 1808.

Em termos científicos, os investigadores apenas podem afirmar que o pai de Eston Hemings era um Jefferson — e não o Jefferson —, mas os historiadores e os especialistas na vida e obra do Presidente americano passaram a aceitar essa forte probabilidade como um facto, já que as investigações complementares apontam para o mesmo resultado.

Por exemplo, através dos registos de viagens, só é possível colocar um dos Jefferson na plantação de Monticello por alturas da concepção dos seis filhos que Sally Hemings teve entre 1795 e 1808: Thomas Jefferson. Isto, mais a investigação publicada na Nature, mais os testemunhos à época e as histórias de família passadas de pais para filhos nos últimos dois séculos, levou a Fundação Thomas Jefferson (referida, por vezes, pelo nome da plantação, Monticello) a pôr um ponto final na discussão há duas semanas: “Monticello afirma que Thomas Jefferson concebeu filhos com Sally Hamings.”

No texto publicado no seu site, a fundação salienta também o facto de que os filhos da escrava Sally Hemings “foram autorizados a abandonar a plantação ou a tornaram-se emancipados com o testamento de Jefferson, uma ocorrência única entre as famílias escravizadas em Monticello”.

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Os terrenos onde funcionou a plantação de Monticello e mansão de Thomas Jefferson DR

“Violação?”

Mas a decisão de pegar na história de Hemings e de a colocar no centro da nova exposição em Monticello levantou outros problemas, para além de comunicar aos visitantes — e, por extensão, a todo o povo americano — que a vida de um dos mais importantes presidentes do país deve ser vista com outros olhos sempre que a sua frase mais conhecida é repetida: “Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados de forma igual, que são dotados pelo seu Criador com certos Direitos inalienáveis, entre estes a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade.”

Como qualquer escravo, Sally Hemings não tinha nenhum direito — e muito menos o direito a recusar-se a ter relações sexuais com os seus proprietários. E, para além de ser escrava, Sally era adolescente quando a relação entre os dois começou — Thomas Jefferson, o seu proprietário, já tinha mais de 40 anos.

“Não é mesmo possível saber qual foi a dinâmica” dessa relação, disse a presidente da Fundação Thomas Jefferson, Leslie Greene Bowman, ao New York Times. “Foi violação? Houve afecto? Sentimos que tínhamos de apresentar um leque de pontos de vista, incluindo o mais doloroso de todos.” No quarto das memórias de Sally Hemings, os visitantes são agora confrontados com essas dúvidas através da palavra “violação”, seguida de um ponto de interrogação.

Obra da extrema-esquerda

Na era do movimento #MeToo, e num momento da História dos Estados Unidos em que as relações entre brancos e negros voltam a ser discutidas sob uma nova perspectiva, muitos americanos olham para a exposição em Monticello como mais uma tentativa de se reescrever o passado.

Grupos como a Thomas Jefferson Heritage Society foram criados para resistirem a qualquer tentativa de se olhar para o terceiro Presidente norte-americano como um homem complexo, com várias camadas e cheio de contradições. Um homem que tanto é reconhecido pela sua defesa intransigente da liberdade, registada em vários documentos importantes, como é questionado por ter mantido mais de 600 escravos a trabalhar na sua plantação; e que tanto denunciava os excessos e extravagâncias da Europa, como gastava fortunas em livros, tapetes e vinho importados de França.

Apesar de a História não ser parca em personalidades que praticavam o contrário daquilo que defendiam, para a Thomas Jefferson Heritage Society, a ideia de que o Presidente americano teve filhos com uma escrava é obra da extrema-esquerda.

“À medida que os activistas de esquerda apontam a mira para estátuas de soldados da Confederação, para juízes do Supremo Tribunal e até para Cristóvão Colombo, alguns na extrema-esquerda puseram os olhos em Thomas Jefferson, autor da Declaração de Independência e terceiro Presidente dos Estados Unidos”, acusa a associação no seu site.

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Este quadro satírico (Virginian Luxuries, autor desconhecido, c. 1825) ilustra a contradição do exercício do poder de um dono de escravos na América do início do século XIX The Colonial Williamsburg Foundation

Jefferson como um espelho

Mas os historiadores olham para as contradições na vida de Thomas Jefferson sob outras perspectivas: por um lado, no plano pessoal, Jefferson era um ser humano complexo, e isso não deve ser escondido do grande público; por outro lado, o debate sobre essa complexidade pode ser fundamental para compreender a sociedade americana, no passado e no presente.

“Não sei como se explicam essas contradições”, disse ao Washington Post o historiador Paul Finkelman, especialista em escravatura e autor do livro Slavery and the Founders: Race and Liberty in the Age of Jefferson (A Escravatura e os Fundadores: Raça e Liberdade na Era de Jefferson).

“Mas é algo em que o povo americano deve pensar. Porque essas contradições são também a contradição da cultura americana, da sociedade americana. Nós acreditamos na liberdade e na igualdade, mas temos muito mais dificuldades para pô-las em prática”, diz o historiador.

No caso de Thomas Jefferson, Finkelman defende que não é suficiente argumentar que na época dele era assim.

“Entre 1780 e 1810, a população de escravos negros da Virgínia que foi libertada subiu de 2 mil para 30 mil. Isso aconteceu por iniciativa dos proprietários de escravos, vizinhos de Thomas Jefferson, que decidiram emancipar os seus escravos e libertá-los. Tomaram decisões conscientes que sacrificaram os seus próprios elevados padrões de vida porque era imoral ser proprietário de seres humanos. Thomas Jefferson não foi um deles. George Washington teve escravos durante toda a vida, mas também lhes deu terra para trabalharem, preparou-os para a liberdade e, quando morreu, libertou todos os seus escravos e deu terra a todos eles. Thomas Jefferson não fez isso”, sublinha o historiador.

A exposição sobre Sally Hemings vem pôr em evidência essas contradições, mas os organizadores dizem que o principal objectivo é dar voz aos escravos e aos seus descendentes — uma voz que se perdia completamente entre os louvores a uma das figuras mais importantes e complexas da democracia americana.

“A partir de agora, os visitantes têm uma exposição inclusiva, que conta a história não só de Thomas Jefferson e da sua família, como também a das famílias escravizadas”, disse à NPR Gayle Jessup White, uma descendente de Sally Hemings que ajudou a montar a exposição em Monticello. “Isto não é apenas sobre Thomas Jefferson, é sobre as pessoas que tornaram possível a vida de Thomas Jefferson.”