Alemanha

Merkel tenta travar crise no Governo por causa da política de refugiados

Os aliados da chanceler na Baviera querem adoptar medidas para fechar as fronteiras, enquanto a dirigente alemã insiste na necessidade de uma política europeia comum. Por agora, a coligação que tanto tempo levou a formar resiste.
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Apenas três meses depois de tomar posse para mais um mandato, a chanceler alemã está a braços com a difícil tarefa de encontrar um compromisso sobre a política de imigração e acolhimento de refugiados com os seus aliados rebeldes da Baviera, a CSU, partido irmão da sua CDU.

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A autoridade de Angela Merkel, assim como o futuro da aliança que sustenta o seu Governo (e que incluiu os sociais democratas do SPD), estão em risco. Num contexto de radicalização de posições sobre o regulamento de Dublin e a política comum para requerentes de asilo, o ministro do Interior, Horst Seehofer, quer apresentar aos alemães o seu “Plano Mestre para as Migrações” a tempo de este os influenciar antes de umas eleições complicadas para a CSU na Baviera, em Outubro.

Em causa está a disputa de eleitores com o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), em crescendo precisamente graças ao discurso anti-imigração. Nas legislativas do ano passado, o AfD, criado apenas em 2013, conseguiu entrar no Parlamento alemão, tornando-se na terceira força, com 92 deputados, atrás da CDU e do SPD.

Ora o plano de Seehofer prevê que as autoridades alemãs rejeitem avaliar quaisquer pedidos de asilo a pessoas que já se tenham registado antes num país do Sul da União Europeia, por onde entra a maioria dos que tentam chegar ao continente.

Para Merkel, isso seria o fim da sua política de “portas abertas”, que começou no pico da crise, em 2015 (quando outros encerravam fronteiras e construíam valas e muros), e entretanto já diminuiu bastante em escala – uma política rejeitada por 65% dos alemães (ouvidos em diferentes sondagens), que gostariam de ver um maior controlo nas fronteiras alemãs. A chanceler argumenta que esta medida levaria outros a adoptar políticas semelhantes, impedindo uma já muito difícil solução comum aos países da União.

Depois de um encontro tenso entre Merkel e Seehofer na quarta-feira à noite, esta quinta-feira realizaram-se uma série de reuniões de crise – segundo o diário regional Augsburger Allgemeine, um importante deputado da CSU em Berlim diz que o partido admite abandonar o bloco no parlamentar que constitui com a CDU.

Já de acordo com a agência de notícias DPA, Seehofer terá dito aos companheiros de partido que está decidido a “desafiar” a chanceler se isso for preciso. Mas a CSU desmente: Hans-Peter Friedrich, veterano dirigente do partido bávaro, foi à televisão alemã garantir que o partido está unido em apoio a Seehofer mas não exige o fim da cooperação com a CDU.

Tudo isto vem a lume um dia depois de Seehofer ter recebido o chanceler austríaco, Sebastian Kurz, que dirige um Governo de coligação com a extrema-direita e integra um grupo de países (com a Dinamarca e a Holanda) que quer abrir campos fora da UE para pessoas a quem foi recusado asilo.

Novo eixo

Com o caso do MS Aquarius (o navio gerido por uma ONG que a Itália não deixou aportar quando tinha 629 resgatados do Mediterrâneo a bordo) ainda em resolução, a visita de Kurz terminou com o ministro alemão a dizer-se preparado para formar um novo eixo de cooperação Roma-Viena-Berlim. Um alinhamento “daqueles que estão disponíveis para arranjar soluções para o problema da imigração ilegal”, descreveu Seehofer.

A política anunciada pelo novo Governo italiano, uma aliança entre o partido anti-sistema Movimento 5 Estrelas, e a extrema-direita populista da Liga, de Matteo Salvini, está nos antípodas do que Merkel tem defendido. A ordem de encerrar os portos, dada por Salvini, que é ministro do Interior, foi criticada por espanhóis (que vão receber as 629 pessoas) e franceses, e elogiado pelo líder húngaro, Viktor Orbán.

“Merkel está sozinha!”, escreve o tablóide Bild, explicando que a chanceler viu o apoio à sua abordagem – que permitiu a entrada na Alemanha de 1,6 milhões de pessoas desde 2014 – evaporar-se por completo dentro do bloco conservador, CSU e CDU.

Depois de reuniões com os dois grupos parlamentares, em conjunto e em separado, a chanceler disse à liderança da CDU que propôs como alternativa a possibilidade de os requerentes de asilo já rejeitados pela Alemanha poderem ser barrados na fronteira. E está a tentar conseguir tempo, na expectativa de ser ainda possível um acordo europeu na cimeira da União marcada para 28 e 29 de Junho.

Convenceu alguns: “Faz sentido rejeitar pessoas que tentem entrar uma segunda vez na Alemanha – Merkel moveu-se na direcção de Seehofer”, afirmou Mike Mohrin, veterano líder da CDU que antes apoiara a CSU.

Mas o ministro presidente do governo bávaro, Markus Söeder, não parece disposto a qualquer recuo. “Isto tem de ser decidido e depressa”, afirmou, citado pela televisão alemã. “Acredito que só haverá decisões na Europa quando a Alemanha der o tom e tornar claro que pode proteger melhor as suas fronteiras”.

Uma humilhação

O SPD, que também se reuniu para discutir as diferenças de opiniões neste tema, apela ao fim da crise entre os conservadores; para a líder Andrea Nahles, “montar um drama destes em nome de umas eleições regionais não é apropriado”.

A verdade é que mesmo que Merkel consiga segurar os parceiros, não sai bem destes episódios. Na quarta-feira, enquanto se encontrava com o líder austríaco, Seehofer faltava a uma conferência sobre integração em Berlim. Um acto visto por muitos na Alemanha como uma humilhação para a chanceler, mesmo porque não é comum a realização de encontros bilaterais entre membros de governo que não estão ao mesmo nível (a gravidade é tanto maior se for verdade que Merkel não foi avisada, como escreve alguma imprensa alemã).

A chanceler insiste que a Alemanha não pode agir sozinha. “Pessoalmente, considero que a imigração ilegal é um dos grandes desafios da União Europeia”, disse numa conferência de imprensa depois das reuniões no Parlamento. “Por isso acredito que não devemos agir unilateralmente, de uma forma não coordenada e com custos para terceiros”.