Opinião

De novo, a normalização do Mal

Dois livros mostram-nos que não é preciso muito para nos vermos mergulhados numa noite da História a que pensaríamos nunca mais voltar.

“Sempre acreditei que o tempo estava do nosso lado – como um curandeiro, um professor, um criador de espaço para a inovação e para as ideias fora da caixa. Agora não estou tão segura.” As palavras são de Madeleine Albright, Secretária de Estado dos EUA no tempo do presidente Bill Clinton, e pode lê-las no seu recente livro Fascism – A Warning, uma importante e bem informada, se bem que, nalguns aspectos, superficial, reflexão sobre os tempos estranhos e incertos que vivemos.

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Madeleine Albright ainda viveu os fascismos que deram origem à II Guerra Mundial, tendo fugido para Londres com os pais, quando Hitler invadiu a sua Checoslováquia natal em 1939, tendo a sua avó materna, judia, sido assassinada pelos nazis. Embora imbuída de uma visão, no mínimo, idealista do papel dos Estados Unidos na política mundial do século XX, a ex-Secretária de Estado faz uma análise acutilante dos homens fortes que emergiram no palco mundial e que conheceu pessoalmente, desde Putin e Erdogan a Donald Trump, passando pelo já clássico Orbán e outros, enquadrando-os no quadro geral dos políticos e das políticas que desprezam o primado da lei e o respeito pela separação dos poderes e se concentram nos ataques à imprensa, aos jornalistas e à independência do poder judiciário, erigindo como alvo das suas políticas segregacionistas e de humilhação os imigrantes ou os refugiados.

Estes novos populismos ou nacionalismos, racistas e/ou xenófobos, espalhados um pouco por todo o mundo – Madeleine Albright fala também, por exemplo, de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro na Venezuela –, caracterizam-se pelas visões e soluções redutoras e sedutoras que apresentam aos cidadãos que os apoiam. Nas Filipinas, o presidente Rodrigo Duterte – um assassino confesso eleito democraticamente –, no seu combate purificador à corrupção, às drogas e ao comunismo, oferece recompensas económicas a quem matar mais drogados ou comunistas; quanto às mulheres guerrilheiras, recomendou aos soldados filipinos que não as matassem: devem disparar nas vaginas de forma a torná-las “inúteis”.

Para Madeleine Albright, a actuação de Donald Trump na sua vulgaridade, desprezo pelos direitos humanos e sistemática desumanização dos adversários é extremamente perigosa, tornando aceitável e normal, nomeadamente para os outros líderes políticos mundiais, aquilo que é aberrante e põe em causa os sistemas democráticos. E com esta contínua erosão e degradação dos valores da democracia, poderá bastar uma recessão profunda e prolongada, ou uma série de ataques terroristas ou de assassínios com sucesso e impacto global, ou, ainda, uma qualquer guerra inesperada, para corrermos todos o risco de nos vermos mergulhados numa noite da História a que pensaríamos nunca mais voltar.

É dessa noite, ou melhor do crepúsculo dessa noite, que nos fala um livro essencial, já traduzido em português, A Ordem do Dia, de Éric Vuillard (Publicações D. Quixote). Essencial não só pelo que nos diz mas também pela elegância e sabedoria com que nos diz. São cento e poucas páginas de prosa que se lêem num ápice e em que Vuillard reconstrói literariamente dois eventos históricos marcantes na ascensão do nazismo: a reunião entre Hitler e os grandes industriais alemães, em 1933, em que estes combinaram financiar o Partido Nazi para acabar com a instabilidade económica, o perigo sindical e comunista e o próprio regime democrático e os sucessivos encontros de Hitler com o chanceler austríaco Schuschnigg até à invasão da Áustria.

“Nesse mesmo instante, houve alguns ruídos de portas, e o novo chanceler entrou enfim no salão. Os que nunca se tinham avistado com ele estavam curiosos de o ver. Hitler estava sorridente, descontraído, nada como imaginavam, afável, sim, até amável, muito mais do que poderia pensar-se. Teve para cada um deles uma palavra de agradecimento, um aperto de mão tonificante. Uma vez feitas a apresentações, todos voltaram a sentar-se nas suas poltronas confortáveis. Krupp estava num dos lugares dianteiros ajeitando com dedos nervosos o seu minúsculo bigode; mesmo atrás dele, dois dirigentes da IG Farben, mas também Von Finck, Quandt e alguns outros cruzaram doutamente as pernas. Houve uma tosse cavernosa, a tampa de uma caneta soltou um ligeiro estalido. Silêncio.”