Há 1500 crianças migrantes desaparecidas nos EUA. Ninguém sabe de quem é a culpa

O Governo norte-americano devia supervisionar a estadia dos migrantes menores que chegam desacompanhados ao país e são entregues a famílias de acolhimento. Mas algo está a falhar.

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Fronteira entre os EUA e o México, onde chegam milhares de pessoas todos os anos Reuters/TOMAS BRAVO

As autoridades norte-americanas perderam o rasto a quase 1500 crianças migrantes que, depois de terem aparecido no território dos EUA sozinhas, tinham sido entregues à guarda de famílias de acolhimento. O caso está a chocar o país, mas ninguém sabe de quem é a responsabilidade.

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As autoridades norte-americanas perderam o rasto a quase 1500 crianças migrantes que, depois de terem aparecido no território dos EUA sozinhas, tinham sido entregues à guarda de famílias de acolhimento. O caso está a chocar o país, mas ninguém sabe de quem é a responsabilidade.

A revelação foi feita pelo secretário assistente interino da Administração para Crianças e Famílias do Departamento de Saúde, Steven Wagner, durante uma sessão de um subcomité do Senado, há cerca de um mês.

Milhares de pessoas atravessam anualmente a fronteira sul dos EUA, provenientes de países como a Guatemala, El Salvador ou as Honduras, de onde fogem à pobreza e à violência de gangues.

Muitos são menores que se apresentam sozinhos às autoridades fronteiriças, que as reencaminham para o Departamento de Segurança Nacional e, depois, para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos. A maioria acaba por ser entregue a familiares que já vivem nos EUA, mas qualquer cidadão pode ser candidato a acolher os menores migrantes. Só em 2017, foram entregues a famílias 40 mil menores, segundo Wagner.

A partir do momento em que são integrados numa família de acolhimento, a situação das crianças passa a ser acompanhada pelo Gabinete de Realojamento de Refugiados. Mas há relatos de vários problemas com a forma como se faz a supervisão das condições de vida dos menores com as novas famílias.

Há dois anos foi revelado o caso de oito crianças que foram entregues a uma rede de tráfico humano e acabaram a trabalhar numa quinta no Ohio, onde eram escravizadas.

Para evitar esses casos, o acompanhamento passou a ser feito pelos dois departamentos em conjunto durante o primeiro ano. Mas continua a haver falhas.

Em Outubro, o Gabinete de Realojamento de Refugiados começou a localizar mais de 7600 menores que tinham sido entregues a famílias, mas pouco mais de seis mil continuavam com elas. Cerca de oitenta tinham tido vários destinos: 28 fugiram de casa, cinco foram expulsas dos EUA e 52 foram colocadas noutras famílias. Mas a localização de 1475 crianças continua por apurar.

O presidente do subcomité do Senado, o republicano Rob Portman, disse estar chocado com a revelação. “O Departamento de Saúde tem a responsabilidade de localizar estas crianças para que não sejam traficadas ou abusadas”, afirmou.

Porém, não há certezas quanto à responsabilidade da agência. “Há muito tempo que é uma interpretação do Departamento de Saúde de que o Gabinete de Realojamento de Refugiados não é legalmente responsável pelas crianças assim que elas deixam de estar aos cuidados da agência”, disse Wagner aos senadores. O responsável garantiu, no entanto, que o departamento irá rever a sua interpretação para garantir uma vigilância mais eficaz dos menores entregues a famílias de acolhimento.