Duas memórias sobre hoje e não o Maio de 68

O historiador e colunista do PÚBLICO Rui Tavares lembra a França de 1998, quando viveu em Paris, e Daniel Cohn-Bendit, um dos rostos rostos do Maio de 68, com quem se cruzou enquanto eurodeputado e no grupo parlamentar dos Verdes.

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Quando cheguei a França o Maio de 68 fazia trinta anos. O presidente era o conservador Jacques Chirac e o primeiro-ministro era o socialista Lionel Jospin, um dos mais à esquerda na União Europeia, que nessa época tinha só 15 estados-membros. O ministro da educação era um senhor chamado Claude Allègre e lá fomos alegremente, no Outono de 1998, participar numa manifestação de estudantes dos liceus contra ele. O serviço de segurança da manifestação era assegurado pelos sindicatos, mas a polícia de choque não estava longe. Quando sentiam um tumulto no meio da marcha, os seguranças entravam pela multidão adentro munidos de matracas e pegavam num dos jovens a quem consideravam casseurs — literalmente, “aqueles que partem coisas”, os “quebradores” — para o entregar à polícia. O suposto casseur podia ser apenas um rapaz dos subúrbios, na maior parte das vezes de uma minoria, a aproveitar a oportunidade para apreciar uma vinda a Paris com os amigos, apanhado no meio da confusão por ter a pele mais escura. Ou podia ser mesmo um casseur verdadeiro: quando passámos em frente a uma das instituições de ensino superior a que os franceses chamam pretensiosamente uma “grande école”, alguém partiu a fachada de vidro da entrada do edifício.

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Quando cheguei a França o Maio de 68 fazia trinta anos. O presidente era o conservador Jacques Chirac e o primeiro-ministro era o socialista Lionel Jospin, um dos mais à esquerda na União Europeia, que nessa época tinha só 15 estados-membros. O ministro da educação era um senhor chamado Claude Allègre e lá fomos alegremente, no Outono de 1998, participar numa manifestação de estudantes dos liceus contra ele. O serviço de segurança da manifestação era assegurado pelos sindicatos, mas a polícia de choque não estava longe. Quando sentiam um tumulto no meio da marcha, os seguranças entravam pela multidão adentro munidos de matracas e pegavam num dos jovens a quem consideravam casseurs — literalmente, “aqueles que partem coisas”, os “quebradores” — para o entregar à polícia. O suposto casseur podia ser apenas um rapaz dos subúrbios, na maior parte das vezes de uma minoria, a aproveitar a oportunidade para apreciar uma vinda a Paris com os amigos, apanhado no meio da confusão por ter a pele mais escura. Ou podia ser mesmo um casseur verdadeiro: quando passámos em frente a uma das instituições de ensino superior a que os franceses chamam pretensiosamente uma “grande école”, alguém partiu a fachada de vidro da entrada do edifício.

Por acaso essa era a escola onde eu iria começar a estudar na segunda-feira seguinte. Depois de tratadas as formalidades, lá descobrimos onde era a sala dos computadores e arranjámos uns emails para nos podermos comunicar com Portugal. Passado uns dias, fui expulso da sala, agarrado pelo braço, por um dos grandes demógrafos franceses, que achava que um mero doutorando não deveria poder ter acesso aos computadores.

Só quem esteve na França do Maio de 68 sabe como foi o Maio de 68 — e eu não posso falar do Maio de 68. As pessoas que então estiveram em Paris falam do Maio de 68 como um período em que houve uma suspensão do tempo, em que o ritmo das coisas se tornou diferente, como quando as pessoas se apaixonam ou têm uma epifania. A França que eu conheci é a outra França: a França normal, a França não-revolucionária. Se só se pode compreender o Maio de 68 tendo vivido o Maio de 68, também só se pode compreender porque é que a França tem de vez em um quando uma revolução vivendo a França não-revolucionária. Se, vista de fora, a França tem fama de revolucionária, só vendo a França de dentro se percebe como se trata de um país centralizador, disciplinador e hierárquico. É a direita, e não a esquerda, que determina a França. Entre o Maio de 68 e hoje, a França teve apenas dois presidentes eleitos à esquerda, François Mitterrand e François Hollande, e este com apenas um mandato. De direita teve Charles De Gaulle, Georges Pompidou, Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy. Eleitos pelo centro, mas governando apoiados à direita teve Valéry Giscard d'Estaing e agora Emmanuel Macron. É porque se trata de uma panela de pressão que a França de vez em quando rebenta.

Black-blanc-beur

A Paris hierárquica resume as tensões em que vive a sociedade francesa. A capital é separada dos seus subúrbios por uma circular chamada “boulevard périphérique” — o “périph”, para os amigos. Eu vivia na Cidade Internacional Universitária de Paris, a poucos metros de distância: bastava passar por debaixo do viaduto e ir à cidade de Gentilly fazer as compras aos merceeiros árabes ou aos minimercados portugueses. Nos anos 70 ou 80 tinha havido uma proposta para deslocalizar a minha escola para Gentilly, com uma localização e edifícios perfeitamente convenientes. Os professores recusaram horrorizados.

Na França de 1998 falava-se um pouco do Maio de 68, mas falava-se muito mais do Campeonato do Mundo de Futebol que a França tinha ganho em casa contra o Brasil por 3-0, com dois golos de Zinédine Zidane. A equipa campeã mundial, francesa e multicultural, deixou o país eufórico e esperançoso de ultrapassar as suas tensões (por outro lado, um colega brasileiro que foi à esquadra de polícia denunciar um roubo acabou por lá ficar, depois de ter insultado um polícia que o provocou com o trois-zéro). Mas por detrás do entusiasmo com a equipa da bandeira tricolor, ambiente a partir do qual se cunhou a expressão black-blanc-beur — preto, branco e “árabe” —, persistiam as mesmas feridas abertas pela Guerra da Argélia, a discriminação dos muçulmanos e o nascimento do fundamentalismo. Uns anos antes, a França tinha visto uma série de 14 atentados, os primeiros do terrorismo islamista moderno, culminando com um às portas do metro da Rue de Rennes, que usávamos quase todos os dias. A capital francesa foi a primeira cidade europeia a ter militares com metralhadoras por todo o lado, bem antes do 11 de Setembro. O securitarismo facilmente descambava em paranóia e racismo. O meu amigo, colega historiador e camarada de aventuras, André Belo, moreno e orgulhoso das suas origens algarvias, era sistematicamente parado no metro para verificação de bilhetes. Creio que o mesmo nunca me aconteceu.

Saí de França em 2002. Jospin e Chirac estavam a par nas sondagens para as eleições presidenciais. Na rua, um cartaz de uma estupidez inominável apelava à abstenção alegando que Jospin e Chirac eram indiferentes, e com o mau gosto de mostrar as colunas dos candidatos a 50% nos gráficos das sondagens como se fossem as duas torres gémeas de Nova Iorque, que tinham acabado de ser destruídas no ano anterior. Ninguém ligava grande coisa às sondagens para a primeira volta — onde a esquerda, junta no governo, tinha decidido apresentar seis candidatos diferentes — até rebentar a surpresa: quem passou à segunda volta foi o fascista Jean-Marie Le Pen. Umas semanas antes, nem era certo que o “pai” Le Pen se pudesse apresentar às eleições, por falta de assinaturas. Agora, o país estava virado do avesso. As primeiras manifestações de protesto começaram a passar debaixo da nossa janela nessa mesma noite, em direção à Place de la République. Depois de toda a condescendência da esquerda, era um pouco tarde demais.

A França doente iria em breve tornar-se um problema europeu com outra surpresa, ao chumbar o tratado que estabelecia uma Constituição para a Europa. E boa parte do que estamos a viver hoje na Europa tem as raízes nessa outra França que não é a França dos libertinos no século XVII, dos philosophes no século XVIII, dos revolucionários da Comuna no século XIX, da Frente Popular e do Maio de 68 no século XX — mas a perpétua França reacionária, a República onde a classe política vive permanentemente obcecada com a escolha do próximo presidente-rei e onde a liberdade-igualdade-fraternidade é decantada pelo desdém aristocrático com que os ricos e bem-nascidos olham para os suburbanos, os provinciais e os imigrantes.

Sem pachorra para o Maio de 68

E isso leva-me a uma segunda memória relacionada com o Maio de 68, mas que não é sobre o Maio de 68. Anos mais tarde, no Parlamento Europeu, convivi e trabalhei com Daniel Cohn-Bendit, o símbolo da contestação estudantil no Maio de 68, e assisti de perto ao fim da sua carreira parlamentar. Nunca falámos do Maio de 68 porque ele não tinha pachorra para ter de falar pela enésima vez no Maio de 68. O livro mais recente em que ele tinha tentado encerrar o assunto chamava-se Forget 68, “esqueçam 68” assim mesmo em inglês para chatear os seus compatriotas: “Escrevi Forget 68 porque 1968 foi um momento extraordinário para todos aqueles que o viveram, foi um acelerador da história, mudou muitas coisas, mas hoje vivemos noutro mundo”, justificava ele numa entrevista.

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Daniel Cohn-Bendit Philippe Wojazer/Reuters

Há só duas coisas que distinguem Daniel Cohn-Bendit do narcisismo intenso que afeta grande parte dos políticos-estrela como ele. A primeira é que se trata de alguém profundamente anti-autoritário: não só por tratar toda a gente por tu, como toda a gente o trata por Dani, mas porque mesmo enquanto presidente do grupo parlamentar dos Verdes europeus era tão intensamente indiferente à decisão final que cada um tomasse sobre o seu voto como tinha sido empenhado na discussão que levasse a essa decisão. A segunda é que se trata de alguém profundamente não-cínico, e isso porque há uma coisa que o emociona na política, e essa coisa é a Europa.

Em 2014, Daniel Cohn-Bendit fez o seu discurso de despedida no Parlamento Europeu, na sessão que lembrava o início da I.ª Guerra Mundial, deflagrada cem anos antes. Tinha cinco minutos de tempo de palavra. Falou dez. Em alemão no início, em francês quase o tempo todo — e com uma palavra em árabe. Com a garganta a quebrar, às vezes num fio de voz, explicou que a União Europeia não nasceu no fim da I.ª Guerra Mundial nem no fim da IIª Guerra Mundial por causa das ilusões de hegemonia da Alemanha e dos grandes estados coloniais como a França e a Grã-Bretanha. Enquanto franco-alemão, virando-se sucessivamente para cada um dos seus dois países, explica que dali a poucos anos nenhum país europeu faria parte do G8 — “nicht mal Deutschland!”, grita, nem sequer a Alemanha!, “é preciso que os alemães ponham isso na cabeça” — a não ser que haja uma Europa unida, e essa Europa unida tem de ser descentralizada “porque é preciso que os franceses percebam que o modelo centralizado da République Française não funciona nos dias de hoje”. A União Europeia só pode funcionar se as ambições hegemónicas forem anuladas: “Se temos uma crise política hoje é porque há tendência hegemónicas na Europa, há tendência a achar que a verdade só se encontra num país, e eu digo-vos: se continuamos assim, vamos acabar a destruir aquilo que construímos.”

Aí, nessa ocasião, como a seguir no seu verdadeiro último discurso parlamentar europeu, na reunião do nosso grupo parlamentar, Daniel Cohn-Bendit conta a mesma história que contou inúmeras vezes, de cada vez que visita uma escola secundária, por exemplo: “Nasci em 1945; fui concebido no primeiro momento biologicamente possível para os meus pais após o desembarque na Normandia; pois bem, imaginem que eu nascia e dizia aos meus pais ‘daqui a cinquenta anos não vai haver fronteiras na Europa, o Reno entre a Alemanha e a França vai ser um rio como os outros’ — pois bem, os meus pais diriam ‘temos dois problemas: o miúdo fala cedo demais e só diz disparates’”. “Na Europa conseguimos o inverosímil — inch’Allah! inch’Allah!” (“louvado seja Deus” — dito em árabe para irritar os islamófobos).

Não houve uma palavra sobre o Maio de 68 então; mas há uma linha fiel que liga o Maio de 68 a esse discurso sobre o passado e o futuro da Europa. É que o Maio de 68 pode ter sido uma revolta em França, mas 1968 foi uma revolução europeia e mundial, de Praga a Chicago. Não foi a primeira revolução europeia: essa terá sido 1848, a famosa Primavera dos Povos. Mas foi uma revolução contra dois géneros de autoritarismo paternalista: um paternalismo nacional, representado por De Gaulle em França e pelo silêncio dos pais que tinham convivido com o nazismo na Alemanha, e um autoritarismo internacional, representado pelos tanques soviéticos que esmagaram a Checoslováquia e pelos bombardeamentos de napalm dos EUA no Vietnam. E dessa dupla oposição nasceu uma esquerda que reencontrou as suas raízes libertárias e as voltou a juntar à sua paixão pela igualdade, e que ao fazê-lo teve de recusar os dois imperialismos em simultâneo, o soviético e o americano. Essa esquerda libertária cresceu depois com a luta contra a proliferação nuclear e acabou por atingir a maturidade na criação do movimento ecológico. Mas talvez um judeu alemão de língua francesa como Cohn-Bendit, nascido como apátrida e expulso da universidade francesa após o Maio de 68, tenha extraído da sua identidade particular uma sensibilidade para a dimensão europeia como sendo o espaço fundamental para a ação dessa esquerda eco-libertária. Ainda que depois tenha redescoberto as suas raízes nos grandes visionários do século XIX e XVIII, de Victor Hugo a Voltaire, essa esquerda pró-europeia que celebrou a queda do Muro de Berlim tem de facto o seu nascimento no Maio de 68. Mas os seus herdeiros são os estudantes Erasmus que já terão feito, diz-se, mais de um milhão de bebés nas últimas décadas. É aí que está o futuro.

É por isso que autoritários paternalistas de todos os géneros continuam a olhar com muita desconfiança para o Maio de 68, como olham hoje com desconfiança para as identidades cosmopolitas dos jovens europeus. É por isso também que a melhor maneira de comemorar 1968 é viver resolutamente em 2018 sabendo que o tempo não volta para trás.