Macron governa à direita, suscita paixões e gera grandes antipatias

Desde que foi eleito, há um ano, lança reformas a um ritmo imparável. Mas os franceses não sentem que a sua vida tenha melhorado, sobretudo os mais jovens.

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O estilo de governar de Macron exaspera mais de metade dos franceses Frederick Florin/Reuters

Tornou-se “o Presidente dos ricos” para muitos franceses. Emmanuel Macron, que repetiu como um mantra não ser “nem de direita nem de esquerda”, teve um primeiro ano de governação à direita, lançando reformas a um ritmo imparável, mas com um défice de preocupações sociais. Mas mais do que isso, o estilo de governar exaspera mais de metade dos franceses. “É incapaz de dialogar. Pensa deter a verdade absoluta e quer impor o seu ponto de vista sem consultar ninguém.”

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Tornou-se “o Presidente dos ricos” para muitos franceses. Emmanuel Macron, que repetiu como um mantra não ser “nem de direita nem de esquerda”, teve um primeiro ano de governação à direita, lançando reformas a um ritmo imparável, mas com um défice de preocupações sociais. Mas mais do que isso, o estilo de governar exaspera mais de metade dos franceses. “É incapaz de dialogar. Pensa deter a verdade absoluta e quer impor o seu ponto de vista sem consultar ninguém.”

Estas palavras são de um eleitor de esquerda que na segunda volta das presidenciais, há um ano, votou em Macron, para impedir a vitória da líder de extrema-direita Marine Le Pen. São citadas por Bruno Cautrès, do Centro de Investigação Política do Sciences Po, em Paris, ao fazer a análise da mais recente vaga do Observatório de Política Nacional do instituto de sondagens BVA, no qual apenas 43% dos franceses diz ter uma boa opinião do seu Presidente. “As palavras negativas para falar do ‘estilo Macron’ são duras e traduzem um efeito de saturação próximo da exasperação e da rejeição”, explica o investigador.

Essa atitude não se encontra só nos eleitores de esquerda, diz Cautrès. “Está presente nos que votaram pela Frente Nacional de Le Pen. Mas é nitidamente menos comum nos simpatizantes dos Republicanos”, sublinha.

Outra sondagem, desta vez do instituto Ipsos, para o Le Monde, de Abril, mostra que a República em Marcha (LREM), o partido de Macron, é apercebida como um partido de direita por 50% dos eleitores – inicialmente, só um terço pensava assim.

Outro estudo feito pelo Ipsos, em colaboração com o Le Monde e a Fundação Jean-Jaurés, mostra que os franceses se dividem em três categorias em relação ao seu Presidente: há 33% de "apaixonados" por Macron, que defendem a sua acção, 39% de detratores, e 28% que se sentem divididos. Mas, numa escala de zero a dez, em que dez é o máximo à direita, a opinião dos franceses evoluiu claramente: se em Março de 2017, antes das presidenciais, a maioria colocava Macron no ponto 5,2 da escala, quase perfeitamente ao centro, agora vêem-no entre o ponto 6 e 6,7 - já claramente à direita, explica Gilles Finchelstein, director da Fundação.

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“A clivagem esquerda-direita só falsamente desapareceu. O efeito de sedução [de Emmanuel Macron] funcionou muito melhor nos eleitores de direita. Macron divide os franceses sobretudo pelo seu estilo: é elevado aos céus pelos seus eleitores, que lhe louvam a juventude, o dinamismo, o carisma, o respeito que está a ter pelas promessas eleitorais. E é vilipendiado pelos seus detratores, que criticam a arrogância, o narcisismo, o desprezo de classe, o sentimento de superioridade”, descreve Cautrès.

“The Boss”

Macron e os seus fiéis pontuam o discurso de expressões em inglês típicas dos gestores: querem fazer de França um start-up country, dizem que France is back. E, ao mesmo tempo este é um Presidente literato, que lê e promove os clássicos, dá entrevistas a revistas literárias. O governante quer diz querer fazer a França entrar num “novo mundo”, lançando quase uma nova reforma por dia, a uma velocidade que imparável, mas reabilita símbolos clássicos do poder francês, como a recepção a Vladimir Putin no Palácio de Versalhes – o Palácio do “rei Sol”.

Recuperou o conceito do “monarca republicano”, e cultivou a distância em relação aos media – numa clara intenção de diferenciação de François Hollande, o “Presidente normal". Macron é um Presidente jovem que agrada sobretudo aos mais velhos – essa contradição do tempo da campanha manteve-se no primeiro ano de governação – e assume-se hoje como o Presidente da “verticalidade”. Ele está no vértice do poder, e o poder é solitário. “The Boss”, como é a sua alcunha no Palácio do Eliseu”, escreve a revista Nouvel Obs.

É com esta autoridade que Macron espera transformar França nos cinco anos do seu mandato. As reformas que possam dar frutos mais cedo estão a ser lançadas primeiro – a pensar nos resultados eleitorais das europeias de 2019 e das municipais de 2020.  Alguns analistas esperam que na segunda parte do mandato de Macron haverá uma viragem à esquerda.

Este ano, a grande reforma será dos caminhos-de ferro, da empresa pública do sector e do estatuto dos ferroviários. “Todos os grandes liberais procuram uma grande vitória”, disse ao Le Monde Stéphane Sirot, da Universidade de Cergy-Pontoise. “Reagan enfrentou os controladores aéreos, Thatcher os mineiros e Emmanuel Macron quer ganhar aos ferroviários. Se ultrapassar este obstáculo fará saltar a principal tampa antes de uma reforma de maior envergadura, como a das pensões”, afirmou.

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Macron recuperou o conceito de "monarca republicano" Charles Platiau/REUTERS

Le Pen e Melénchon

Os sindicatos não têm conseguido grande coisa com Macron. O Governo envolve-os nas negociações das reformas, mas são as ideias governamentais que vingam. “O método Macron é ‘vocês discutem, eu decido”, disse ao jornal Les Echos Laurent Berger, secretário-geral da central CFDT, pouco satisfeito com a metodologia.

O certo é que Macron conseguiu redesenhar a paisagem política francesa. O seu partido, a República em Marcha (LREM), é como um elefante que ocupa quase todo o palco. Aos restantes resta-lhes as margens.

Os políticos identificados claramente como líderes da oposição face ao Presidente e ao seu Governo são Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa (51%), e Marine Le Pen, da Frente Nacional, com 47%, segundo uma sondagem BVA. Até Benoît Hamon, que saiu do PS para fundar o movimento Géneration.s, associado ao DEM25 de Yanis Varoufakis, tem melhores resultados que os partidos tradicionais: 25% dos franceses reconhecem-se nas suas ideias.

As duas forças que dominaram a oferta política das últimas quatro décadas são relegadas a uma quase insignificância – 16% dizem que o novo líder do Partido Socialista, Olivier Faure, defende bem os seus interesses, e o mesmo pensam 19% de Laurent Wauquiez, líder dos Republicanos.