Sim, senhor secretário geral

Armando Iannucci, o maior satirista político britânico, filma os bastidores da política como uma farsa screwball tão inquietante como desopilante

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Os mais atentos a estas coisas do humor saberão quem é Armando Iannucci, o argumentista e comediante escocês que assina este Morte de Estaline tão desopilante como inquietante: é o homem que ajudou a criar o pivot Alan Partridge com Steve Coogan, que está por trás desse Sim, Senhor Ministro moderno e cheio de profanidades que é a britcom The Thick of It (e respectiva versão cinematográfica, In the Loop) e da aclamada série da HBO Veep, com Julia Louis-Dreyfus. E o que Iannucci e a sua troupe fazem da BD de Fabien Nury sobre a batalha pela sucessão na URSS após a morte do camarada Estaline inscreve-se nessa linhagem da política como terreno fértil para o humor (negro neste caso, entre o screwball e a comédia de enganos, entre a farsa teatral e o absurdo Monty Pythonesco): a realidade é mais estranha do que a ficção, a comédia está paredes meias com a tragédia, contado ninguém acredita. E a política é muito menos uma estratégia a longo prazo do que a solução colada com cuspo para o inesperado em que ninguém pensou – no caso, a morte súbita do “pai dos povos” e o modo como imediatamente o núcleo duro se posiciona para aproveitar a situação ao máximo em seu favor (qual bem-estar do povo, qual carapuça, porque o poder não deixa ninguém imune).

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Os mais atentos a estas coisas do humor saberão quem é Armando Iannucci, o argumentista e comediante escocês que assina este Morte de Estaline tão desopilante como inquietante: é o homem que ajudou a criar o pivot Alan Partridge com Steve Coogan, que está por trás desse Sim, Senhor Ministro moderno e cheio de profanidades que é a britcom The Thick of It (e respectiva versão cinematográfica, In the Loop) e da aclamada série da HBO Veep, com Julia Louis-Dreyfus. E o que Iannucci e a sua troupe fazem da BD de Fabien Nury sobre a batalha pela sucessão na URSS após a morte do camarada Estaline inscreve-se nessa linhagem da política como terreno fértil para o humor (negro neste caso, entre o screwball e a comédia de enganos, entre a farsa teatral e o absurdo Monty Pythonesco): a realidade é mais estranha do que a ficção, a comédia está paredes meias com a tragédia, contado ninguém acredita. E a política é muito menos uma estratégia a longo prazo do que a solução colada com cuspo para o inesperado em que ninguém pensou – no caso, a morte súbita do “pai dos povos” e o modo como imediatamente o núcleo duro se posiciona para aproveitar a situação ao máximo em seu favor (qual bem-estar do povo, qual carapuça, porque o poder não deixa ninguém imune).

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Já dizia Mark Twain que a comédia é “a tragédia somada ao tempo que passa” e o maior truque de Iannucci e da sua equipa é pegar numa tragédia real e trazê-lo ao nível das pequenas irritações do quotidiano, como se organizar um funeral de estado não fosse diferente de produzir um sarau cultural na sede do grupo excursionista. No processo, devolve uma dimensão humana a personagens que para muitos de nós não passam de nomes em livros de história, despindo-os de qualquer diplomacia ou pretensões, retirando-lhes o verniz institucional, transformando-os em funcionários públicos dispostos a tudo para salvar a sua pele. Tudo entregue a actores de primeira água - Steve Buscemi como Khruschev, Simon Russell Beale como Beria, Michael Palin como Molotov, Jason Isaacs como Zhukov – que ferram os dentes nas personagens como se não tivessem papéis destes todos os dias.

É um guião inspiradíssimo, hilariante e simultaneamente perturbante nas suas guinadas de tom constantes (entradas, saídas, bebedeiras, purgas, mortes e desgraças que literalmente estrangulam a gargalhada na garganta), desenhado ao milímetro para nos fazer rir e pensar (sobre o passado mas também sobre o presente e as viragens totalitárias que se começam a infiltrar) e deixar um travozinho amargo na boca. Mas é um guião ao qual falta uma encenação igualmente inspirada – Iannucci filma-o com ritmo e competência, sem rasgos nem tropeções, ilustrando sem estragar. Não é nada mau, sobretudo hoje em dia que já pouca gente sabe filmar comédia para cinema. E A Morte de Estaline é, ainda assim, das melhores comédias que temos visto nos últimos anos.