5 Estrelas e Liga são os grandes vencedores, ninguém se aproxima da maioria

“Vence Di Maio, Itália ingovernável”, é a manchete do diário La Stampa. Crescem as forças radicais, afunda-se o centro-esquerda. Salvini esmaga no Norte, movimento anti-sistema ganha o Sul.

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Ainda não estão contados todos os votos nem houve reacções dos líderes da maioria dos partidos, mas já é certo que as eleições de domingo em Itália deram uma vitória inequívoca ao Movimento 5 Estrelas, o partido anti-partidos nascido em 2009 que ultrapassa os 31% nas duas câmaras do Parlamento. Ainda falta atribuir lugares para se ter a certeza da dimensão, mas esta é já a primeira vitória na Europa de forças que se descrevem como anti-sistema.

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Ainda não estão contados todos os votos nem houve reacções dos líderes da maioria dos partidos, mas já é certo que as eleições de domingo em Itália deram uma vitória inequívoca ao Movimento 5 Estrelas, o partido anti-partidos nascido em 2009 que ultrapassa os 31% nas duas câmaras do Parlamento. Ainda falta atribuir lugares para se ter a certeza da dimensão, mas esta é já a primeira vitória na Europa de forças que se descrevem como anti-sistema.

O M5S é o partido vencedor, mas à frente surge a coligação de direita e extrema-direita. Daqui chega a grande surpresa da madrugada eleitoral: o partido mais votado é a Liga, de Matteo Salvini, a formação xenófoba e antieuropeísta que fez campanha insistindo no discurso da “insegurança” provocada pela “invasão de imigrantes” que é preciso “travar”.

Aliás, o resultado da Liga aproxima-se mais do Partido Democrático (segundo, atrás do M5S), ultrapassando os 19% na Câmara dos Deputados e os 18% no Senado, do que o do Força Itália, de Silvio Berlusconi. São resultados absolutamente inéditos para um partido que nasceu com objectivos secessionistas e que, até estas eleições, se chamava Liga Norte.

O FI surge assim como derrotado inesperado. Todas as sondagens pré-eleitorais antecipavam que o partido seria o mais votado na coligação de direita, de tal forma que o antigo primeiro-ministro (impedido de se apresentar) anunciou na sexta-feira o seu candidato à chefia do governo, o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani.

O que Berlusconi viu como um trunfo, o facto de agradar a Bruxelas, onde era percepcionado como força moderadora face ao extremismo da Liga, com um discurso muito crítico da União Europeia, acabou por ser castigado nas urnas. Os italianos atribuem alguns dos seus problemas à União Europeia, e a Liga sabe disso – a chegada de mais de 600 mil imigrantes e requerentes de asilo nos últimos cinco anos, por exemplo, contribuiu para que os italianos se sentissem abandonados pela UE.

Os dirigentes do M5S foram os únicos que passaram a noite a falar. “Agora vamos negociar, connosco não se discutem lugares mas ideias”, insistem, descrevendo-se como prontos a formar governo com quem encontrarem proximidades programáticas.

Muitos dirigentes da Liga também festejaram “um resultado histórico”; Salvini, em silêncio, deixou-se ver através de uma janela, rosto sorridente, dedo levantado em sinal de satisfação. Antes, escrevera no Twitter: “Obrigado.”

Cabe-lhe agora decidir se permanece leal à coligação ou se, pelo contrário, avança para negociações com o M5S, liderado pelo jovem Luigi Di Maio, de 31 anos, o único que apresentou antes do voto a sua lista de ministros para um futuro executivo.

Certo é que se o acordo de cavalheiros definido antes da ida às urnas se mantiver, é Salvini e não Tajani o candidato da coligação à chefia do governo. Escolhia o partido mais votado, e o FI não chega aos 15% no Senado e fica atrás dos 14% na Câmara dos Deputados.

Adeus Renzi?

Mas mais do que Berlusconi, o grande derrotado é Matteo Renzi, líder do Partido Democrático e da coligação de centro-esquerda, que não deverá conseguir alcançar os 20% em nenhuma das câmaras do Parlamento. Renzi, que sem ser eleito, foi primeiro-ministro entre 2014 e 2016, insistiu durante toda a campanha que é o líder incontestado do PD, “assim decidiram os militantes nas primárias”. Entretanto já deixou escapar: “Se tiver de ir, vou.”

Aquilo em que todas as sondagens pré-eleitorais acertaram é na ausência de maiorias. Ninguém se aproxima da maioria absoluta, pelo que agora entra em cena o Presidente da República, Sergio Mattarella, que tem o poder de mandatar um líder para negociar apoios. Para formar governo, o candidato a chefiá-lo tem de passar um voto de confiança no Parlamento.

Será muito difícil a Mattarella ignorar o resultado do M5S e não chamar Di Maio. Em 2013, o então chefe de Estado, Giorgio Napolitano, fez isso mesmo, quando o 5 Estrelas já foi o mais votado, numa vitória com muito menos dimensão, pedindo ao então líder da coligação de centro-esquerda, Pierluigi Bersani, para tentar reunir apoios. Naturalmente, o chefe de Estado deverá ouvir também os dirigentes da coligação de direita.

Absurdo, possível

“Vence Di Maio, Itália ingovernável”, foi a manchete escolhida pelo diário La Stampa. “Centro-direita à frente, explode o M5S”, é o título do jornal Il Messaggero. “M5S primeiro partido, Liga ultrapassa FI, PD afunda-se”, é a escolha do diário económico Il Sole 24 Ore. “A Itália do 5 Estrelas afunda o PD”, é a primeira página do diário Corriere della Sera.

No mapa das cores que foi mudando ao longo da noite, o azul da direita e o amarelo do M5S cobrem quase a totalidade do país. E a diferença entre o Norte e o Sul não poderia ser mais clara, com a Liga a esmagar no seu território de sempre, e o partido de Di Maio a conquistar de forma clara o Sul, mais pobre, com muito mais desemprego, mais desiludido ainda com os partidos tradicionais.

No primeiro canal da televisão pública, analistas e dirigentes passaram a noite a defender um governo que inclua o M5S como uma ideia absurda (o movimento nunca se deu bem com os media mainstream e era o único sem representantes no palco da RAI), sublinhando as suas “propostas impensáveis”, como o subsídio de desemprego de 780 euros por mês, valor que se tornaria também no da pensão mínima.

Mas como em política nada é impossível, no histórico programa Porta a Porta, apresentado por Bruno Vespa, também se discutiam as probabilidades de uma coligação entre o movimento formado em 2009 pelo comediante Beppe Grillo ora com a Liga ora com o PD.

Sabe-se que o M5S e a Liga estiveram em contacto próximo ao longo de 2016, quando ambos defendiam um referendo sobre a permanência no euro (o M5S já abandonou a ideia). O partido anti-partidos, que nasceu para “expulsar a casta do poder” e se diz nem de esquerda nem de direita, preferia discutir com o PD do que com a Liga. Falta saber que PD existirá depois desta derrota.

De alguma forma, os italianos parecem ter seguido o conselho de Beppe Grillo, que depois de votar, enquanto esperava pela mulher dentro do carro e com jornalistas a centímetros do vidro da sua janela, pôs a tocar em alto volume Walk on the Wild Side de Lou Reed.