Isaura & Cláudia Pascoal: “A Eurovisão? Difícil, mas não impossível!”

Não será fácil repetir a vitória de 2017 na Eurovisão, mas, para elas, não é impossível. O fundamental é lançarem as suas carreiras. A de Isaura, aliás, terá novos capítulos em breve, com o lançamento do seu álbum de estreia, que o PÚBLICO já ouviu.

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Foi na última quinta-feira, ainda ela não sabia que iria ganhar o Festival da Canção, embora esse cenário não fosse improvável. Isaura Santos, de 28 anos, mais conhecida por Isaura, convidou-nos para ouvir, no seu pequeno estúdio nos arredores de Lisboa, aquele que será o seu primeiro álbum, a lançar nos próximos meses.

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Foi na última quinta-feira, ainda ela não sabia que iria ganhar o Festival da Canção, embora esse cenário não fosse improvável. Isaura Santos, de 28 anos, mais conhecida por Isaura, convidou-nos para ouvir, no seu pequeno estúdio nos arredores de Lisboa, aquele que será o seu primeiro álbum, a lançar nos próximos meses.

Há canções que ainda não estão finalizadas, outras que são apenas esboços, mas não é preciso ouvir o produto final para se perceber que estamos perante alguém que sabe o que quer. E não é de agora. Quem tem seguido o seu percurso, desde que lançou os primeiros originais, em 2015, sabe que estamos perante não apenas uma voz, mas perante uma autora de corpo inteiro – alguém que tem uma visão e a sabe potenciar com voz, emoção, música, composição, produção, um imaginário e ideias válidas.

Esta segunda-feira, depois do triunfo, exulta, mas reconhece que foi uma vitória renhida. “Como esperava – e estava contente por isso – havia várias canções que poderiam ter ganhado. A Catarina [Miranda] fez uma belíssima actuação e o Peu [Madureira] cantou que se fartou. Foi uma noite muito bonita. Tivemos nós o privilégio de ganhar e sinto-me agradecida por irmos à Eurovisão.”

E agora, como irá ser, de 8 a 12 de Maio, no Altice Arena de Lisboa? “Vai ser difícil ganhar, mas também achávamos que era difícil no ano passado. Ou seja, é difícil, mas não impossível. Aquilo que o Salvador [Sobral] e a Luísa [Sobral] fizeram, naquele momento tão bonito, é difícil de repetir, mas vamos dar o nosso melhor e agora temos dois meses para nos prepararmos e melhorar, no sentido de termos a melhor representação possível.”

A vitória, agora, da canção que compôs e que também acaba por co-interpretar, apenas lhe irá dar mais visibilidade. Isaura, natural de Gouveia, deu nas vistas em 2010, tinha então 21 anos, com uma participação no concurso televisivo Operação Triunfo, acabando por lançar o primeiro EP, Serendipity, em 2015, e posteriormente, em 2016, o single 8, e o ano passado, I need ya, ao mesmo tempo que se mostrava ao vivo, em salas ou festivais.

A canção O jardim foi composta por ela, a pensar na avó, Zaida Lourenço, que morreu há cerca de um ano. Demorou a encontrar intérprete para ela. Foi num almoço de família que, às tantas, lhe sugeriram que ouvisse Cláudia Pascoal. Assim fez. Depois de a ouvir na Internet, fez-se clique. Algumas trocas de mensagens depois nas redes sociais e estava encontrada a voz que desejava.

Cláudia Pascoal, de 23 anos, é de Gondomar, tendo também passado por programas televisivos de talentos como The Voice, tendo estado activa desde então, seja com algumas gravações solitárias ou em grupo, apostando em registos diversos, seja na interpretação de baladas ou de sons mais aproximados ao jazz.

Esta segunda-feira ainda lhe custava digerir os acontecimentos. “Tudo isto tem sido surreal”, afirma, “é como estar a viver um sonho, um daqueles sonhos que nunca imaginas ter sequer”. Para já, existe o objectivo Eurovisão, onde promete "interpretar da forma mais vibrante que possa a canção da Isaura”, e depois o relançar da carreira: “Quero muito lançar música minha ainda este ano e espero que o meu percurso agora siga um rumo diferente, mais entusiasmante, porque é esta a actividade que quero prosseguir.”

Das duas é evidentemente Isaura quem vai na dianteira. Já é alvo de um culto pronunciado. Em 2016, andava em digressão com outro talento da nova música feita em Portugal, Francis Dale, e numa conversa com o PÚBLICO já se mostrava consciente do seu lugar.

“Nunca achei que fosse um programa de TV, como aquele em que entrei, a resolver fosse o que fosse, mas sim o trabalho, o afinco, as ideias e a persistência. Dito isto, a Operação Triunfo foi importante porque me deu uma noção de espectáculo que não possuía e técnica através das aulas. Talvez não tenha aprendido exactamente o que queria, mas ficou claro o que não queria.”

Personalidade não lhe falta. Manda-se para a frente. Sabe ouvir. Mas não prescinde de afirmar as suas concepções. O álbum que vem aí terá dois lados diferenciados. As primeiras canções são mais exteriorizadas, uma música pop electrónica capaz de gerar júbilo colectivo, algo que sentia ser necessário em espectáculos ao vivo onde expunha, basicamente, música de cariz mais intimista.

A segunda metade do disco será marcada por composições mais melancólicas. Depois da morte da avó não conseguia compor canções efusivas. À guitarra acústica, que é a forma como compõe, saíam-lhe introspectivas e resolveu assumi-las. Acima de tudo, a verdade para si própria, diz. É um álbum que exporá uma sonoridade de cariz electrónico, mas onde também haverá elementos acústicos, com destaque para a guitarra. Mas, além do revestimento, o que lhe interessa são os climas, as pulsações, a forma como os quase silêncios coabitam com os ritmos electrónicos, sempre com a ideia da canção clássica em mente.

São temas electrónicos emotivos aqueles que tem para propor, respirando a influência da soul moderna mais tecnológica como da pop minimalista, num espectro que vai de James Blake a FKA Twigs, dos The xx a Lorde ou Grimes. Até agora havia culto. A partir de agora é provável que o grande público também a olhe com curiosidade. “Espero que sim”, reflecte, “até porque o álbum será a continuidade desta canção": "Espero que as pessoas me reconheçam não apenas como a Isaura que viram na TV, mas como alguém que escreve, compõe, canta e produz as suas canções. A música é a minha forma de expressão. Neste caso, o facto de cantar em português também é especial. Desde miúda que escrevo. Ainda não tinha sido explorado por mim porque a sonoridade electrónica aproxima-me mais do inglês. Mas o português é uma parte do que queria mostrar às pessoas.”

E o facto de a final do Festival da Eurovisão se disputar em Portugal, envolve mais responsabilidade e pressão ou fornecerá uma energia suplementar? “Não tenho qualquer dúvida de que estarmos próximos dos amigos e da família vai dar-nos ainda mais força.”

Notícia corrigida às 9h49 rectificando o nome da avó de Isaura, Zaida Lourenço