Reportagem

A pêra-rocha e a maçã de Alcobaça precisam que chova até Abril

A situação será preocupante se não houver água quando começar a floração e o crescimento dos frutos.
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pp paulo pimenta

No Oeste é através de charcas e furos que os agricultores obtêm a água que necessitam. Por aqui não passa nenhum rio com caudal significativo e a região teve azar com as três barragens que ali se construíram para o regadio pois nenhuma funciona.

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No Cadaval, a barragem da Sobrena foi construída em 1997, custou dois milhões de euros e deveria irrigar 100 hectares de pomares à sua volta. Nunca encheu devido a problemas técnicos que nunca foram apurados e hoje aquela infraestrutura é uma exposta ruína.

Algo idêntico se passou com a barragem de Alvorninha (Caldas da Rainha), na qual se gastaram 6,5 milhões de euros, mas que não está a funcionar porque suspeita-se da existência de fissuras na albufeira que deixam passar a água sob o paredão. A barragem ainda vai tendo alguma água, mas o sistema de rega que foi construído não funciona e está desaproveitado.

Já em Óbidos começa a haver esperança para a barragem do Arnóia, que foi inaugurada em 2005 mas que esteve 13 anos sem cumprir o objectivo para o qual foi construída – irrigar 1300 hectares de terrenos, beneficiando cerca de mil agricultores. Só agora está a ser construído o sistema elevatório e a rede de rega que vão dar sequência aos 7 milhões de euros que ali foram investidos. Humberto Marques, presidente da Câmara de Óbidos – e ele próprio um dos beneficiados pelo sistema de rega porque é agricultor – convidou em Janeiro dois antigos secretários de Estado (José Diogo Albuquerque, do CDS/PP e Amândio Torres, do PS) para visitarem as obras que os próprios ajudaram a desbloquear e anunciou que a irrigação dos campos começará em Setembro. Se houver água.

Ainda assim os clusters da Pêra Rocha e da Maçã de Alcobaça – os dois produtos mais relevantes do Oeste – já usam tecnologias avançadas nos sistemas de rega. A rega gota a gota já está generalizada, o que permite poupar imensa quantidade de água.

Mas já se vai mais longe. Recorre-se agora a sondas que medem a humidade do terreno e dão sinal para desligar ao sistema automático de rega quando há indícios de encharcamento. Isto permite poupanças de água na ordem dos 30% diz Carlos Mendonça, especialista em sistema de regas manuais e automáticos.

“Há alguns agricultores que se riem disto e dizem que o que vale é ir ao campo apalpar o terreno para ver se está ensopado, mas a verdade é que as sondas funcionam e nos tempos que correm, com a falta de água, são um investimento que vale a pena”, diz.

Por motivos profissionais, este engenheiro das Caldas da Rainha contacta com dezenas de agricultores da região Oeste e diz que não tem dúvidas sobre os seguintes números: as charcas (lagos artificiais) da região estão a 10% da sua capacidade e nos furos artesianos a água baixou 15% no último ano.

Domingos dos Santos, presidente da Associação Nacional de Pêra Rocha (ANP) diz que neste momento a situação ainda não é grave porque o fruto está na fase da dormência “mas estamos apreensivos porque as reservas de água estão em baixo, os furos e as charcas estão no limite mínimo”.

A situação será preocupante se não houver água quando começar a floração e o crescimento do fruto.

Uma opinião partilhada pelo presidente da Cooperativa Agrícola do Cadaval, Aristides Sécio, que até começa por dizer que neste momento a situação é normal e se espera uma boa produção de fruta. “Não é preocupante porque houve alguma chuva e os terrenos têm lentura [humidade] suficiente para a altura do ano em que estamos. Mas dentro de meses pode ser muito preocupante porque se as reservas aquíferas não forem renovadas vai ser difícil regar na Primavera e no Verão”.

Se não chover entretanto, não só faltará água para as regas como estas terão mesmo de começar mais cedo. Pedro Costa, produtor do Painho (Cadaval), diz que habitualmente os pomares começam a ser regados em Maio ou Junho, mas que este ano deverá ter de começar a fazê-lo em Março ou Abril. “As regas vão ser antecipadas numa altura em que as charcas e os furos já estão em baixa”, constata.

Mais a norte, em Alcobaça a maçã homónima também não vive, para já, uma situação aflitiva. “Não é nesta época que precisamos de água, mas sim a partir de Abril e durante o Verão. Se não chover até lá, então a situação é super-preocupante porque as reservas de água, tanto subterrâneas como à superfície, não se repuseram e estão muito em baixo”, diz Jorge Santos, da Associação de Produtores da Maçã de Alcobaça. “Mas há não vale a pena queixarmo-nos. Há alguma esperança. Costuma dizer-se que “Abril águas mil’ e nós na maçã de Alcobaça gostamos de ver as coisas pela positiva”.

E de que as reservas estão em baixo ninguém tem dúvidas. Manuel Isaac, agricultor em Santa Catarina (Caldas da Rainha), conta que “há 20 anos fazia-se um furo a 50 metros e encontrava-se água... agora é preciso ir até aos 200 metros”. O também ex-deputado pelo CDS/PP na Assembleia da República, diz que a solução para o Oeste, que não tem grandes rios, é a multiplicação de charcas e pequenas barragens para aproveitar a água da chuva. “Já não podemos contar com os rios. O próprio Roquete, que tem terrenos em volta do Alqueva, já não confia na barragem e está a alterar o tipo de culturas para plantar as que consomem menos água”, diz.

Só que essas pequenas barragens, que somadas podiam reter grandes quantidades de água, não são fáceis de aprovar. “Apresentei os projectos para três barragens no Alentejo e só três anos depois é que tive uma resposta do Estado”, queixa-se Manuel Isaac. Em todo o caso, alerta, a questão da água obrigará a que se repense o actual paradigma da agricultura. “As pêras e maçãs de grande calibre, que são exigência das grandes superfícies, consomem demasiada água. É preciso regressar aos frutos mais pequenos, mas mais saborosos”.

Mas se os pomares da Pêra Rocha e da Maçã de Alcobaça ainda não merecem preocupações, o mesmo não se passa com os hortículas. Domingos dos Santos é também presidente da Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (FNOP) e diz que neste sector a situação já é complicada no momento actual. “Há culturas que já não se estão a fazer, nomeadamente as couves, porque os agricultores não têm água”, diz. Outra cultura já irremediavelmente afectada é a do tomate para a indústria porque, também neste caso, os agricultores preferem não arriscar plantar sem ter a certeza se há água. “Preferem suportar os custos fixos, que sempre são alguns, mas os custos variáveis vão tentar não os ter”, diz.