Três barragens do Oeste custaram 15 milhões de euros mas não funcionam

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A barragem de Alvorninha (em cima) custou 6,5 milhões de euros e está desaproveitada. A de Sobrena (em baixo) está em ruína DR

Sobrena, Alvorninha e Arnóia são nomes de barragens nos concelhos do Cadaval, Caldas da Rainha e Óbidos construídas com fundos comunitários para irrigar terrenos agrícolas. Nenhuma cumpre a função.

Desde que foi construída, em 1997, a barragem da Sobrena (Cadaval) nunca encheu. Dela se esperava que irrigasse 100 hectares de terrenos agrícolas, beneficiando 120 agricultores, sobretudo produtores de pêra rocha.

A barragem é uma exposta ruína, com os edifícios de apoio invadidos pelas silvas e um paredão de onde se avista uma charca no lugar onde deveria estar uma albufeira. Em redor só se avistam eucaliptos.

E são precisamente estes árvores uma das causas apontadas para o fracasso deste investimento superior a dois milhões de euros. Em 2006, o então secretário de Estado da Agricultura justificava o défice de água da barragem pela "acção hidrológica do coberto da bacia, constituída pelo povoamento de eucaliptos" que ali existem há mais de 40 anos. Ou seja, a barragem da Sobrena não enche porque os eucaliptos lhe bebem a água.

Outra explicação, já investigada pelos serviços do Ministério da Agricultura, tem a ver com as condições geológicas do solo, que estará aluído, deixando escorrer a água. Existe, por isso, um processo judicial em curso, colocado pelo Estado, contra a empresa que construiu a barragem por não ter verificado adequadamente as características geológicas do terreno. Para os agricultores do Cadaval, a expectativa de há 15 anos já se esgotou há muito - acabaram por recorrer a furos para regar os seus pomares.

Expectativas tinham também os agricultores de Alvorninha (Caldas da Rainha) quando em Janeiro de 2005 o então primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes, inaugurou a barragem da freguesia. Um evento que até teve direito a bênção do cardeal patriarca, D. José Policarpo, ele próprio natural daquela freguesia.

Mas oito anos depois o investimento de 6,5 milhões de euros continua por rentabilizar. É certo que a albufeira já encheu uma vez e que tem estado a 40 e a 50% da sua capacidade, mas daí não pode passar enquanto o Instituto da Água (Inag) e o LNEC não terminarem os testes que têm vindo a fazer e que apontam para a existência de uma fissura no solo.

Virgílio Leal, presidente da Junta de Alvorninha, garante que essa fissura não é grave e diz que está desde Fevereiro "à espera de saber se vão ou não injectar cimento no leito da albufeira para evitar que a água se escoe".

Nos últimos anos já foram feitas algumas descargas que permitiram regar alguns terrenos contíguos, mas o sistema de rega, que tem condutas enterradas ao longo de 17 quilómetros, 84 tomadas de rega e 151 bocas de rega, continua desaproveitado.

Rego Filipe, da associação de regantes, diz que a capacidade de armazenamento desta barragem (700 mil metros cúbicos de água) permitiria suavizar os efeitos de um ano de seca não só em Alvorninha como nas freguesias em redor.

O caso de Óbidos é diferente. A barragem do rio Arnóia é a maior da região e foi construída para regar 1300 hectares de terrenos no extenso vale que se avista desde as muralhas do castelo, beneficiando cerca de mil agricultores.

Também teve direito a inauguração com pompa e circunstância. Em 2005 Jaime Silva, o então ministro da Agricultura, inaugurava, porém, uma obra inacabada. É certo que o paredão e as comportas são monumentais, a barragem avista-se da A8 e a obra enche o olho. Mas para rentabilizar os sete milhões de euros que custou, falta-lhe construir o sistema de rega, um projecto que ainda não saiu do papel e que luta agora com dificuldades de financiamento para ser executado.

A barragem do Arnóia, porém, já encheu e já teve funções de regularização do caudal do rio. Também já serviu para alguns desportos náuticos. E o seu espelho de água, cujo perímetro, sinuoso, abrange as freguesias das Gaeiras e de A-dos-Negros, é apetecível para o sector imobiliário.

Um ano depois da inauguração era anunciado para as suas margens um investimento privado de 50 milhões de euros. O Shopping Center Plaza Oeste era para ter sido iniciado em 2007 e concluído em 2010, e teria uma área de construção de 83 mil metros quadrados, dos quais 20 mil destinados a um "retail park" e 63 mil a um centro comercial. Um empreendimento que só por si já justificava a existência da barragem e quase dispensava o sistema de rega. Mas oito anos depois nem turismo nem agricultura beneficiam cabalmente desta infra-estrutura.

O PÚBLICO contactou o Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, mas não obteve resposta.