Uma tempestade pacificadora atingiu Laurie Anderson

Um contínuo sonoro com tanto de dramático quanto de encantador e apaziguador: Landfall, Laurie Anderson & Kronos Quartet.

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Nos mais significativos álbuns de Laurie Anderson a atmosfera sonora é quase sempre serena e a tonalidade de voz, mais falada do que cantada, parece desapaixonada ou meditativa. Dir-se-ia que quanto mais agitado for aquilo que tiver para comunicar mais pacificador terá de ser o envolvimento sónico. Desta vez, é um furacão. Em Outubro de 2012 a tempestade Sandy teve efeitos devastadores em algumas zonas da área metropolitana de Nova Iorque, tendo as inundações destruído parcialmente uma casa de Laurie Anderson na parte baixa de Manhattan.

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Nos mais significativos álbuns de Laurie Anderson a atmosfera sonora é quase sempre serena e a tonalidade de voz, mais falada do que cantada, parece desapaixonada ou meditativa. Dir-se-ia que quanto mais agitado for aquilo que tiver para comunicar mais pacificador terá de ser o envolvimento sónico. Desta vez, é um furacão. Em Outubro de 2012 a tempestade Sandy teve efeitos devastadores em algumas zonas da área metropolitana de Nova Iorque, tendo as inundações destruído parcialmente uma casa de Laurie Anderson na parte baixa de Manhattan.

O álbum agora editado, com rearranjos ou novas composições, resulta de uma colaboração entre a própria Laurie Anderson e os Kronos Quartet que foi apresentada ao vivo em 2013, como espectáculo multimédia, existindo também um livro agora editado que evoca esses acontecimentos — All The Things i Lost in the Flood: Essays on Pictures, Language and Code. Esta é uma obra predominantemente instrumental, de ambientes electroacústicos, durante a qual os Kronos Quartet elevam a sua arte orquestral a níveis quase épicos, surgindo a voz dela, sempre calorosa, mesmo quando é transformada digitalmente.

O contexto é preciso, numa evocação do furação Sandy, mas como em quase todas as narrativas da nova-iorquina, é também um disco sobre a perda e o luto, no sentido mais universalizante. É tentador, aliás, procurar aqui também leituras ou respostas à morte de Lou Reed em 2013, como já acontecia em Heart Of a Dog, o seu poema-documentário de 2015. Mas nunca o saberemos. O que sabemos é que esta é, como tem acontecido ao longo das últimas décadas, de Big Science (1982) a Homeland (2010), mais uma interpelação afectiva e tocante em forma de música.

Não é tanto uma revisitação à tempestade. É antes uma espécie de ruminação da mesma, como se tudo não tivesse passado de um sonho, numa procura por claridade, por um sentido, no meio do caos. “And after the storm i went down to the basement / And everything was floating / Lots of my old keyboards, thirty projectors, props from old performances, a fiberglass plane motorcycle, countless papers and books / And i looked at them floating there in the shinny dark water, dissolving / All the things i had carefully saved all my life becoming nothing but junk / And i thought how beautiful how magic and how catastrophic”, narra ela em Everything is floating.

Talvez seja difícil para a maioria entender o pensamento paradoxal de Laurie Anderson, mas ouvindo a música, tantas vezes a arte do indizível, daquilo que as palavras não conseguem aclarar, sente-se o que ela tenta formular. O resultado é uma longa odisseia — cerca de 70 minutos de sons e palavras — que resulta numa espécie de ritual circular, com subtis vínculos electrónicos guiados pelos teclados, filtros, samples, violino e voz de Laurie Anderson e pelos violinos e violoncelos dos Kronos Quartet, num contínuo sonoro com tanto de dramático quanto de encantador e apaziguador.