Campeão mundial dos 100 metros despede treinador por suspeitas de doping

Dennis Mitchell e o agente desportivo Robert Wagner estariam disponíveis para fornecer falsas prescrições médicas de substâncias proibidas a troco de dinheiro, segundo um jornal inglês, que recorreu a jornalistas disfarçados.

Foto
Justin Gatlin foi o melhor na final dos 100m nos Mundiais de Londres, superando o seu compatriota Chris Coleman e o jamaicano Usain Bolt, que se despediu das competições em Agosto LUSA/SRDJAN SUKI

O atleta norte-americano Justin Gatlin, campeão dos 100 metros nos Mundiais de Londres em 2017, despediu o treinador, Dennis Mitchell, envolvido por um jornal inglês em suspeitas de fornecimento de substâncias dopantes.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

O atleta norte-americano Justin Gatlin, campeão dos 100 metros nos Mundiais de Londres em 2017, despediu o treinador, Dennis Mitchell, envolvido por um jornal inglês em suspeitas de fornecimento de substâncias dopantes.

O homem que derrotou o campeão olímpico Usain Bolt declarou sentir-se “chocado e surpreendido” com as alegações feitas pelo diário The Telegraph, segundo o qual Mitchell – e o agente desportivo Robert Wagner – ter-se-ia oferecido para fornecer substâncias proibidas, a troco de uma quantia a rondar os 250 mil dólares (cerca de 210 mil euros), a jornalistas disfarçados que o abordaram nesse sentido, com o argumento de que estariam a produzir um filme sobre um atleta dopado.

Segundo o mesmo jornal, Mitchell e Wagner ter-se-iam disponibilizado a fornecer falsas prescrições médicas para a obtenção de substâncias cuja utilização está proibida no desporto, com o fim de as introduzirem nos EUA.

Gatlin, de 35 anos, já foi castigado duas vezes ao longo da sua carreira devido ao doping (da primeira vez acabou por ver o castigo suspenso, depois de recorrer da sanção) e, desta vez, reagiu de imediato através do Instagram, depois de tomar conhecimento da reportagem publicada por aquele jornal londrino. “Não estou a usar qualquer substância dopante”, garante o atleta dos EUA, que tem no currículo dois títulos mundiais nos 100 metros (2005 e 2017) e um título olímpico na mesma distância (2004).

“Senti-me chocado e surpreendido depois de saber que o meu treinador possa estar relacionado, ainda que remotamente, com estas acusações. Despedi-o assim que soube”, sublinha, garantindo que tem “todas as vias legais em cima da mesa: “Não vou admitir que terceiros mintam sobre mim desta maneira.”

A agência anti-doping norte-americana (USADA, na sigla original) já está a investigar os factos noticiados pelo The Telegraph, adianta a agência Reuters nesta terça-feira. “As investigações iniciadas a partir de denúncias e pistas dadas por informadores são fundamentais na nossa luta contra o doping. Neste momento estamos a coordenar esforços com o Comité para a Integridade no Atletismo para investigar a fundo estas alegações”, lê-se num comunicado emitido pela USADA e noticiado por aquela agência de notícias.

Também o Comité Olímpico Internacional (COI) fez uma curta declaração sobre este caso, sem entrar nas suspeitas agora levantadas: “O COI tem plena confiança que [a Agência Mundial Antidopagem] vai analisar com cuidado este assunto.”

O The Telegraph cita, por seu lado, Sebastian Coe, antigo atleta britânico e actual presidente da Federação Internacional de Atletismo, que classifica as alegações do jornal como “extremamente graves”. “Sei que o Comité para a Integridade no Atletismo vai investigar estas suspeitas”, declarou, aludindo às “competências” deste organismo independente.

Foto
Dennis Mitchell, antigo atleta e actual treinador de Gatlin, também foi apanhado nas malhas do doping durante a sua carreira de atleta REUTERS/Mike Blake

Tal como Gatlin, o agora ex-treinador e principal suspeito deste caso também foi castigado devido a doping quando era ele mesmo velocista na equipa dos EUA. Porém, garante que desta vez não está envolvido como treinador em actividades ilegais: “Nunca sugeri, de modo algum, que qualquer um dos meus actuais atletas tenha usado qualquer substância proibida ou que eu esteja a treinar algum deles com recurso a substâncias desse tipo.”

Foto
Gatlin no momento em que se sagra campeão do mundo dos 100 metros, em Londres EPA/SRDJAN SUKI

Da mesma forma, o agente desportivo Robert Wagner garantiu ser alheio a qualquer actuação à margem da lei, tendo garantido que decidiu “entrar na jogada” proposta pelos falsos jornalistas porque desconfiava ou sabia do que se estava a passar, acrescenta a Reuters.

Em Agosto, Gatlin sagrou-se campeão mundial dos 100 metros, pela segunda vez na sua carreira, numa corrida que seria a despedida das pistas competitivas do jamaicano Usain Bolt, que acabou no terceiro lugar nessa final. Foi um triunfo suado para o norte-americano, natural de Nova Iorque, que teve de lidar com os adversários em pista e com a animosidade do público de Londres e daqueles que, de um modo geral, seguem o atletismo no mundo. Isto porque o passado desportivo de Gatlin persegue o atleta, que foi suspenso duas vezes por doping, apesar de sempre ter afirmado que era inocente.

Da primeira vez, quando tinha apenas 19 anos, Gatlin acusou numa análise o recurso a anfetaminas. O atleta recorreu da sentença, alegando que o controlo falhado se devia a um medicamento que tomava desde jovem para combater o défice crónico de atenção, e o castigo acabou mesmo por ser suspenso. Porém, cinco anos depois, a imagem de batoteiro voltou a colar-se-lhe na pele, com mais um controlo positivo. Gatlin foi testado com níveis anormais de testosterona e, por causa disso, foi suspenso por oito anos, pena que mais tarde seria reduzida para metade.